118 DIAS (Crítica)

118 DIAS

4estrelas

Por Assis Júnior

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O longa de estreia do diretor norte-americano Jon Stewart é baseado no livro de memórias do jornalista Maziar Bahari, “Then They Came for Me”. Trata-se de uma história real, que remonta os eventos de 2009, quando Bahari foi preso no Irã acusado de ser um espião norte-americano.

O jornalista de origem canadense-iraniana viaja ao Irã para cobrir as eleições de 2009 em nome da revista norte-americana Newsweek. Há um enorme embate entre o conservador Mahmoud Ahmadinejad, presidente do país de 2005 até 2013, e o reformista Mir-Hossein Mousavi. Mousavi tinha o apoio dos cidadãos mais novos e a favor de reformas na política iraniana. O candidato é um arquiteto que se envolveu com associações estudantis e desde muito novo se mostrou um defensor da expressão artística e da política. Já o engenheiro e professor Ahmadinejad, representa a população mais conservadora do Irã, revertendo políticas progressistas e tomando uma postura religiosa bastante fervorosa.

Em meio a esse cenário de caos no país, com protestos cada dia mais constante, Bahari capta com sua câmera uma cena de violência contra os manifestantes e opta por levar esse vídeo a público. Além disso, o jornalista concede uma entrevista a um programa de humor americano, que posteriormente é mal interpretada por oficiais do governo iraniano que o aprisionam por cento e dezoito dias, alegando suposta conspiração dele e seus aliados contra a república islâmica do Irã. Durante esse tempo, os oficiais tentam arrancar uma confissão do jornalista afirmando que é um espião atuando junto às forças internacionais.

O título do filme em inglês significa “água de rosas”, em tradução livre. A água de rosas é utilizada em rituais religiosos, e pela sua origem, Bahari teve contato com ela quando criança. É interessante o paralelo proposto, pois de acordo com Bahari, ele foi obrigado a ficar vendado por todo o tempo em que esteve sob o poder do governo, e declarou sempre sentir o cheiro de água de rosas. É uma clara analogia da putrefação do estado ao ser emparelhado de forma tão extrema com a religião. Não há separação dos poderes, religião é governo, e o governo é religião. Em certo ponto do filme, vemos o jornalista sentado em um avião de origem iraniana, aguardando a decolagem, quando a comissária através do alto-falante, ao mesmo tempo em que dá as instruções de bordo, entoa saudações religiosas.

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É exatamente pelo fanatismo religioso que Bahari se torna refém do governo, pois o governo é a vontade de Deus. Se alguém é contra o governo, esse alguém é contra Deus, e isso é de forma alguma admissível. É com o escudo de quem protege a honra religiosa do povo, que atos bárbaros como este são perpetrados por muitos governos em nome de “Alá”.

A película peca por lançar mão de recursos fáceis e clichês em alguns momentos, que não surpreendem e até mesmo entediam o expectador. Em vários momentos presenciamos a quebra da diegese quando o diretor transita excessivamente entre os gêneros fílmicos, alterando constantemente o clima da obra, fazendo com que a película perca sua unidade. Por outro lado, “118 Dias” possui momentos iluminados, como quando Bahari conta a sua história de vida, e como ela foi influenciada pela arte ocidental conhecida por ele através da irmã. Enquanto ele narra sua infância e seu contato com a arte, estas memórias são projetadas pela cidade como se cada edifício fosse uma tela branca de cinema.

Algumas pessoas criticam uma particular cena onde Bahari, exausto pelos diários interrogatórios dos oficiais iranianos começa a divagar sobre o porquê de suas viagens aos Estados Unidos. Muitos sentiram que o filme se perde neste momento, mas não enxergam a genialidade narrativa dessa cena. Ao contar essa história mirabolante, o jornalista entretém o oficial, que acaba acreditando na história contada por ele. Fanáticos são tão alienados, que a verdade para eles soa falsa. Eles precisam de mais alienação para se sentir satisfeitos, para acreditar que uma história seja verdadeira. Talvez uma crítica aos absurdos narrativos presente nos contos religiosos que fascinam milhões de pessoas de diversas religiões.

“Rosewater” se torna complicado de digerir, pois não sabemos ao certo o que de fato faz parte das memórias reais de Bahari e o que pode ser apenas fabulação narrativa do diretor. Então, não podemos ter certeza que tudo o que se passa na tela sejam fatos reais. De qualquer forma, o filme tem seus bons e emocionantes momentos. Podemos entender um pouco da história do Irã, além de espiar momentos históricos através de registros reais inseridos no filme, além de refletir sobre o papel da imprensa mundial e os perigos da profissão.

O cheiro de água de rosas nos denuncia que o divino é mais humano do que nos tentam fazer acreditar.

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SINOPSE

No Irã cobrindo as eleições presidencias de 2009 e os protestos decorrentes, o jornalista Maziar Bahari (Gael Garcia Bernal) é preso por autoridades locais e passa mais de cem dias na cadeia sendo torturado e interrogado incessantemente.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Steve Loter
Título Original: Jon Stewart
Gênero: Drama
Duração: 1h 43min
Ano de lançamento: 2015
Classificação etária: 14 Anos

TRAILER

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