2010 – O ANO EM QUE FAREMOS CONTATO (Crítica)

2010 - O ANO EM QUE FAREMOS CONTATO

3estrelas

FICHA TÉCNICA

Título Original: 2010
Ano do lançamento: 1984
Produção: EUA
Gênero: Ficção Cientifica
Direção: Peter Hyams
Roteiro: Arthur C. Clarke, Peter Hyams
Classificação etária: 10 Anos

Sinopse: Em 2010, com o Planeta Terra à beira de um conflito nuclear, cientistas soviéticos e americanos unem-se para resgatar a nave espacial Discovery. Além disso a missão tem por objetivo descobrir os segredos do enigmático monólito negro, que órbita Júpiter. Baseado na obra de Arthur C. Clark.

Por: Jason

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No livro “2010, uma odisseia no espaço 2”, de 1982, o autor Arthur Clarke traz informações preciosas sobre o seu antecessor, o romance “2001: uma odisseia no espaço”, que foi escrito durante os anos de 1964 a 1968 e publicado em julho de 1968, depois do lançamento do filme. Segundo narrou ali, existe, entre o livro e o filme, um paralelo bem mais próximo do que o que costuma existir, embora existam diferenças de peso.

No romance, o destino da espaçonave Discovery era Japetus, a mais enigmática das muitas luas de Saturno. O sistema saturnino seria alcançado via Júpiter: a Discovery aproximou-se bastante do planeta gigante, valendo-se de seu enorme campo gravitacional para produzir um efeito “estilingue” e para acelerá-lo ao longo da segunda volta do trajeto. As sondagens espaciais do Voyager, em 1979, ao fazerem o primeiro reconhecimento detalhado dos gigantes mais afastados, usaram exatamente a mesma manobra. No filme, entretanto, Saturno ficou inteiramente de fora no roteiro, e ninguém teria imaginado, remontando aos meados da década de 1960, que a exploração das luas de Júpiter fosse situar-se, não no século seguinte, mas somente quinze anos depois. Dessa forma, Clarke admite que tanto o filme quanto o livro, resistem razoavelmente bem, e é fascinante se compararem as sequências de Júpiter, no filme, com as filmagens reais das câmeras do Voyager (a Voyager, só para constar, também se tornou um personagem, símbolo que esconde o segredo final da trama de “Star Trek”, de 1979).

Temos aqui a prova de que Clarke e Kubrick foram visionários, no sentido de que a vida acabou imitando a arte. “2001”, como o próprio autor salienta, “foi escrito numa era que está hoje além de uma das Grandes Divisões na história humana; nós nos separamos dela para sempre no instante em que Neil Armstrong pôs o pé na Lua. O dia 20 de julho de 1969 ainda se situava meia década no futuro quando Stanley Kubrick e eu começamos a pensar no “proverbialíssimo filme de ficção científica” (frase dele). Hoje, história e ficção estão inextricavelmente entrelaçadas”. Ratifica também a dificuldade de se realizar um livro que seja a continuação de algo tão poderoso que marcou a história do cinema e, consequentemente, da arte e do homem.

“2010 – o ano em que faremos contato”, o filme, também começa abrindo um prólogo, que recapitula para o espectador o que foi mostrado no primeiro filme, o clássico “2001 — Uma odisseia no espaço”. Passa para a primeira parte, em que o Dr. Floyd (agora interpretado por Rob Scheider) se prepara para uma missão que será enviada para a Discovery na órbita de Júpiter, para entender o que aconteceu com a mesma. A partir daí, a tripulação, de nacionalidade russa e americana, passa a viver em clima de guerra, assim como na Terra, e terá que se desprender de seus preconceitos para que resolvam todos os problemas que envolvem a missão e possam conviver em mais perfeita paz.

Essa parte do conflito entre russos e americanos é interessante, porque reflete um pouco da alienação que suas populações viviam sobre o período de Guerra Fria. “Só porque nossos governos agem como idiotas, não devemos agir como tais. Somos cientistas, não políticos”, explica o discurso cheio de crítica de Dr Floyd, em certa cena. Há uma ironia no texto de Clarke que foi mantida no roteiro do filme em relação à atualidade: a ideia de que os chineses investiriam em viagens espaciais, a ponto de chegarem ao satélite Europa — quando a China tem se tornado cada vez mais uma potência econômica e, porque não, pode protagonizar uma futura corrida espacial. Mas, se isso era um fato abonador na época em que o filme foi realizado (década de 80), o conflito de Russos x Americanos se torna batido porque acabou datando o filme — e isso pesa contra a produção, principalmente se entendermos que o caráter de “2001” é atemporal.

“2010” conta com um elenco estelar, com o sempre talentoso John Lithgow (que mais recentemente pode ser visto em “O planeta dos macacos, a origem”), Rob Scheider (de “Tubarão”, interpretando o papel de Doutor Floyd do filme anterior) e a então jovem Helen Mirren. O primeiro protagoniza uma sequência de cenas demorada além da conta, em que entra em pânico por estar no espaço antes de entrar na velha Discovery, que está girando no espaço feito uma roda gigante devido às forças gravitacionais. O segundo é o fio condutor da trama, como o “Dr Floyd”. E a terceira já dava sinais da excelente atriz que seria reconhecida na atualidade, convencendo no papel de uma russa um tanto ignorante com relação à tripulação e aos fenômenos que presencia.

Dirigido e roteirizado por Peter Hyams, do bom “Outland”, de 1981, com Sean Connery — que já lhe dava uma ideia de que era capaz de lidar com produções envolvendo efeitos especiais complexos, já que a trama se passa no espaço também — do insosso “Fim dos dias” (1999, com Arnold Schwarzenegger) e do excelente, paranoico e quase desconhecido “Capricórnio Um”, de 1977, “2010 o ano em que faremos contato” teve custo de estimados 28 milhões de dólares, produção considerada cara para a época e um sinal de que os estúdios MGM acreditavam no potencial do filme, se apoiando no fato de ser uma continuação de uma obra então já considerada histórica, baseado em um livro de um autor reconhecidamente importante para o campo da literatura de ficção. O filme não atingiu o sucesso de seu predecessor, mas conseguiu arrecadar pouco mais de 40 milhões nos EUA, alcançando o feito de ser indicado a cinco Oscar (Melhor Maquiagem, Melhores Efeitos Especiais, Melhor Som, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte, todos merecidos, já que carrega o melhor existente na época em termos de técnica nessas áreas).

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Há a desculpa, no todo, de “2010” ser uma continuação — e uma adaptação — de um livro, regada com efeitos especiais belos e caros para a época e que não é de todo ruim — e realmente não é (!) — mas soa desnecessária como continuação cinematográfica porque “2001” foi concebido como filme e livro únicos, sem continuações. Como livro, aliás, “2010” funciona muito bem no gênero ficção. Clarke vai mais além do que o filme e dos conceitos reais de viagens espaciais nele utilizados, deixando a fantasia falar mais alto — em um trecho, é narrado o momento de contato com uma bizarra criatura alienígena, que destrói uma nave chinesa que pousa no satélite Europa, impossibilitando o retorno dos chineses para o espaço. Essa parte dramática foi tragicamente suprimida do filme.

Mas, voltemos ao começo desse texto: o que dá descrédito ao filme “2010” é justamente a existência da obra-prima anterior. Estranha e deslocada é a cena em que Bowman (Keir Dullea, cuja carreira ficou marcada e não decolou, se refugiando em filmes e séries de TV), como numa bola de luz, sai do monólito em direção a Terra, e vai cair na televisão da casa de sua ex-esposa como um espírito do além (a parte mística da produção é meio capenga). É uma situação vista em um dos capítulos do livro, mas que, um roteirista mais habilidoso perceberia, que não acrescenta muita coisa ao filme — e tira o foco dos personagens que estão no espaço lidando com suas diferenças nacionalidades, seus costumes e hábitos. Mais tarde, Bowman também fará contato com a mãe no hospital, numa cena no mínimo bizarra e completamente desnecessária dentro do roteiro (o livro explica os motivos pelos quais Bowman foi escolhido para a missão mostrada em “2001”: seu perfil de frieza sentimental, uma vez que se tornou distante de sua própria mãe após a morte prematura do irmão e a perda do pai em um acidente — algo não desenvolvido em nenhum dos dois filmes, o que torna o artifício “solto” dentro de “2010 O ano em que faremos contato”).

O livro explica que Bowman, ao atravessar um portal estelar, caiu em uma espécie de suíte de hotel, como “um espécime num zoológico cósmico, com a jaula meticulosamente recriada a partir das imagens de antigos programas de televisão. E se punha a pensar em quando apareceriam seus zeladores, e sob que forma física” e que “mesmo enquanto um Dave Bowman deixava de existir, outro se imortalizava, indo além das necessidades da matéria”. Essa parte foi mostrada no final de “2001” e é uma das mais intrigantes do filme, por oferecer uma série de interpretações.

Aqui, em “2010”, entretanto, praticamente não existem mistérios como este, e sim a tentativa de explicar esse e outros segredos de “2001”, principalmente com relação ao computador HAL 9000, o que culmina em cenas vergonhosas, como o encontro de Bowman (ou o que quer que ele tenha se transformado, já que mais parece uma entidade espiritual) com o Dr Floyd, em diversas fases da vida, sendo avisado de que “algo acontecerá e a tripulação precisa se afastar de Júpiter”. Esse encontro deveria ter algo de subtexto religioso, uma vez que Bowman se transformou em uma entidade superior, a qual o livro trata como uma “aparição” — em uma semelhança ao descrito no chamado “Segredo de Fátima”, que é um conjunto de revelações alegadamente revelado pela Virgem Maria a três crianças portuguesas, de cunho profético.

Há ao menos, outras coisas importantes no filme. Além das atuações, e da técnica, ambas impecáveis para a época, há o final interessante, quando Júpiter explode para virar um Sol, acaba transformando o satélite Europa em um segundo planeta capaz de abrigar vida e os seres humanos são avisados de que não devem pousar lá — como se o planeta se transformasse no abrigo dessa inteligência alienígena. A tripulação consegue fugir dessa explosão com a ajuda de um reativado HAL, que deixa de virar um vilão e passa a se tornar um herói ao dar impulso a nave e livrá-los da desintegração.

O único mistério do filme, pode-se dizer, seria resumido pelo Dr Floyd em seu monólogo final. Nele, ele confessa não entender “o que é” o monólito, já que, só recapitulando, foram encontrados três deles no sistema solar — um na Terra, outro na Lua e um perto de Júpiter, gigante, que em “2010” ganha uma aparência de nave espacial gravitando na órbita do planeta. Uma série deles é responsável por transformar o planeta em uma estrela (o que deixa transparecer a ideia de que são seres que se desenvolveram a ponto de semear a vida e a inteligência em uma forma carbônica como o monólito). Mais tarde, um deles será visto no meio da superfície de Europa. E claro, o final, com “o segundo sol” para os humanos, que assim como nos calendários de civilizações passadas como os Maias, representa um novo ciclo de vida para a humanidade. A mensagem é clichê, mas funciona.

Só que isso é pouco. “2010” pode funcionar como ficção isolada de sua década, sem contato com a obra anterior, do tipo que se vê apenas por curiosidade, e onde o final acaba superando o todo. Porque toda a subjetividade do filme se foi muito antes dele, virando uma aventura espacial sonolenta, de ritmo arrastado (a montagem do filme é ruim), desnecessária como continuação, e longe do poder crítico e simbólico do livro em que foi baseado.

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PRÊMIOS

OSCAR
Indicações: Direção de Arte, Efeitos Especiais, Figurinos, Maquiagem e Som

TRAILER

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