3% – 2ª Temporada | (Crítica)

Igor Pinheiro

Depois de pouco mais de um ano chega à Netflix a segunda temporada da primeira produção nacional da plataforma. Em 2016, 3% dividiu opiniões e se tornou, no ano seguinte, um das séries não-americanas mais maratonadas na plataforma de streaming. Apesar de diversas críticas negativas ao roteiro e especialmente ao elenco, a série me agradou. Seu ambiente distópico não é criativo. A realidade de um universo em que jovens precisam passar por algum tipo de provação para serem aceitos em uma “vida melhor” se tornou uma temática clichê em pouco tempo de uso. Jogo Vorazes, Divergente, Maze Runner e outros similares estão aí para provar isso.

Um ano após os eventos da primeira temporada da série, quando Michele (Bianca Comparato) e Rafael (Rodolfo Valente) conseguem passar pelo Processo e serem aceitos no Maralto, mesmo sendo contra o sistema imposto. Além de acompanharmos o que mudou nessa passagem de tempo, conhecemos mais sobre a origem do Maralto e vemos a organização da Causa (movimento contra o sistema do Processo) no Continente pelos pontos de vista de Joana (Vaneza Oliveira) e Fernando (Michel Gomes). Enquanto a edição de número 105 do Processo se aproxima, a Causa organiza um plano para evitar essa próxima seleção. Com infiltrados em ambas as partes, as viradas na trama consistem basicamente nos planos de cada lado sendo interrompidos.

É impossível não traçar um paralelo com a realidade nacional atual. Nessa temporada atual temos abuso de poder, líderes sendo atacados e até mesmo uma espécie de intervenção militar que reprime bastante os moradores do continente. Esse paralelo é um dos pontos que mais me agrada e mais fortes de 3%.

Outro destaque continua sendo a representatividade da série. Temos personagens negros e mulheres muito fortes e que em momento algum (apesar de algumas cenas que mostram o preconceito ainda existente) são questionados em suas decisões por serem quem são. Temos casais gays sendo mostrados naturalmente, um personagem trans tratado de forma igualitária e uma relação de poliamor completamente verossímil.

3% -  2ª Temporada | (Crítica)

Alguns problemas, entretanto, continuam. Algumas atuações são bastante teatrais e todo mundo falando certinho, palavra por palavra, não me convence. Talvez seja um problema de direção de atores, mas devo ressaltar que esses pontos negativos não são observados nos novos participantes da trama. Os novos atores e personagens são bastante carismáticos, até mesmo os que são feitos para se odiar, com destaque para Cynthia Senek (que interpreta Glória), ela é de uma naturalidade sem igual na série. Temos também nomes de peso como Fernanda Vasconcellos e Maria Flor agregando ao elenco de maneira muito positiva.

A temporada em si conta uma história coerente e fechada, mas peca ao se tornar inverossímil. Exemplo (e isso também acontece no primeiro ano da série): o Maralto deveria ser um lugar bem mais seguro do que realmente é, as pessoas tramam planos mirabolantes lá dentro, fogem, retornam e invadem o local sem muita dificuldade. Parece que para a história fluir da maneira como foi planejada, se abre mão de explicações que impediriam que várias situações que movimentam o enredo acontecessem.

Com isso, os episódios se relacionam bem e não há a presença de um filler, como vimos em 2016 em um dos capítulos mais arrastados e desnecessários da série (talvez “desnecessário” não seja a melhor palavra, mas a história da mulher do Ezequiel poderia ser muito mais resumida). Percebemos, entretanto, uma certa “forçação” para alguns ganchos nos fins de episódios enquanto eles foram bastante arrastados até que se chegasse ali. Outros episódios, porém, mantém um ritmo contagiante e seguem bem por quase todos os seus quarenta minutos. O terceiro episódio, focado em Rafael, e os dois últimos da temporada são muito bons nesse sentido.

Apesar de algumas surpresas exageradas, como o retorno de um personagem pouco querido do primeiro ano, temos situações que fazer a história se movimentar bem. Muita coisa acontece na primeira metade da temporada, incluindo a morte de um dos personagens principais, o que ajuda em manter a expectativa para o que está por vir. O ritmo acelerado é quebrado de forma muito boa por alguns momentos que parecem utopia, com destaque para uma participação musical incrível no sexto episódio, em uma cena que destaca como a série é bem feita, dirigida e fotografada com quer. A trilha sonora, aliás, continua sendo um dos pontos mais fortes e não tirarei tão cedo de minha cabeça a música Preciso Me Encontrar, do Cartola, que dialoga muito com a temática da série:

“Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar”

Continuo achando que se 3% não fosse uma série brasileira, eu não me importaria tanto e talvez até tivesse largado durante a primeira temporada. Continuo achando também que boa parte das críticas negativas tem a ver com um preconceito que persiste em relação a produções nacionais. A série está cheia de pontos negativos e a segunda temporada chega até a ser inferior a anterior em alguns pontos cruciais, mas continuo achando a série importante por sua temática, por ser nossa e por representar tanto. Se for renovada, espero que aprenda muito com os erros e críticas negativas, e que mude para a melhor.

Pôster de divulgação de 3% -  2ª Temporada

Pôster de divulgação de 3% – 2ª Temporada

FICHA TÉCNICA

Título Original: 3%
Ano: 2018
País: Brasil
Criação: Pedro Aguilera
Direção: Daina Gianecchini, Dani Libardi, Jotagá Crema, Philippe Barcinski
Elenco: Bruno Fagundes, Cynthia Senek, Fernanda Vasconcellos, Laila Garin, Maria Flor, Samuel de Assis e Thais Lago, que integram o elenco nesta segunda fase da série, juntaram-se aos veteranos Bianca Comparato, Rafael Lozano, Rodolfo Valente, Vaneza Oliveira, Ediana Souza e Roberta Calza
Duração: 10 episódios de 38 a 49 minutos cada

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