A ASSASSINA (Crítica)

Juca Claudino

As cores de uma assassina

Um cinema engajado, contemplativo e humano. Assim foi definida a formidável filmografia de Hao Hsiao-Hsien durante os 18 filmes que assinou na sua carreira. Foi um dos diretores mais influentes do chamado Novo Cinema Taiwanês, movimento cinematográfico surgido nos anos 80/90 no Taiwan [obviamente] – o qual contava com nomes como Edward Yang (“Um Dia Quente de Verão” e “As Coisas Simples da Vida”) e Chen Kun Hou (“Growing Up”) – que, em geral, tinha a proposta de retratar de forma realista e genuína a sociedade do país e sua conturbada dinâmica (o que fez muitas vezes tal movimento ser comparado ao Neorrealismo italiano do pós-Guerra). Nesse contexto, Hsien lançou “Cidade das Tristezas” (1989), e com essa película conseguiu projeção internacional: levou o Leão de Ouro do Festival de Veneza e chamou a atenção da crítica e público para a região que, além do acelerado cinema taiwanês, via também nascer a Quinta Geração do Cinema Chinês.

E já em “Cidade das Tristezas” Hsien apresenta duas muito peculiares características de sua obra: a primeira é seu envolvimento e engajamento com a história de Taiwan (ou da China Nacionalista, nome que o país herdou durante a Guerra Fria em oposição à China Comunista) e a dinâmica de sua sociedade, algo que fica muito mais presente em seu início de carreira (e nem sempre é abordado rigorosamente em todos os seus filmes); e a segunda (e esta de presença essencial para suas obras), um retrato da melancolia e da solidão expressado em personagens quase que decadentistas, a partir de sentimentos que geralmente beiram o vazio emocional e a busca por uma identidade ou pela felicidade estável.E por mais que Hou Hsiao-Hsien tenha um estilo realista, os planos que escolhe para seus filmes são muitas vezes subjetivos e contemplativos, quase que falando pela psique das personagens enquadradas em cena.

O novo filme de Hou Hsiao-Hsien, “A Assassina”, lançado 8 anos depois de seu último projeto solo na direção, cumpre com o estilo, a estética e a autoria de seu criador. “A Assassina” é um espetáculo visual poderosíssimo e um pesadíssimo estudo de personagem, dois elementos que juntos formam uma valsa de lamentações estarrecedora. Antes de tudo, ao escolher lançar um filme de wuxia (gênero tipicamente chinês no qual se mistura artes marciais com fantasia, como por exemplo “O Tigre e o Dragão”), Hou Hisao-Hsien gerou uma imensa curiosidade sobre esse longa: o diretor sempre usou de linguagens não-convencionais, e logo teríamos a visão de um cinema fortemente autoral usufruindo de um gênero com muitas características próprias. Esse mistura, no final das contas, deu tons fabulosos e até mesmo míticos a algo que, inicialmente, tem uma abordagem pessoal, íntima e humana (abordagem essa que será especificada durante o texto, mas devemos dizer que o cinema de Hsien é majoritariamente pessoal, íntimo e humano): a premissa é por si impactante, conta a história de uma assassina que vivia no século VIII da China Antiga e que, das aprendizes de sua mestre, é a mais habilidosa com a espada todavia de muita empatia e coração misericordioso – duas virtudes abomináveis para qualquer assassin@. Como punição e lição – dadas por sua mestre -, sob a justificativa de ter um coração emocionalmente frágil, a assassina do título terá que matar seu primo e chefe militar da região de Weibo (uma província chinesa), já que este é a grande paixão de sua vida.

A partir daqui, o filme se torna um retrato da angústia de uma mulher que se questiona quanto aos rumos que dá ao seu destino: por mais que tivesse uma grande habilidade na “arte” de assassinar, se sentia cada vez menos livre ao entregar-se àquilo. Essa contradição irá consumir Nie Yinniang (o nome da assassina) e será o grande centro do filme, algo que Hsien transmite com muito pesar e de forma extremamente trágica e dramática.

Inclusive, nesse texto havia usado o termo “valsa de lamentações”. Tal termo se justifica pelo fato de Hsien convergir diversos elementos técnicos em cena para entonar a “procura pela liberdade” vivida por Nie Yinniang – tornando “A Assassina” um filme mais contemplativo e abstrato do que qualquer outro já feito pelo diretor asiático, inclusive recebendo pinceladas simbolistas. A escolha do diretor foi a de fazer um filme pesado e sobrecarregado, coisa que já lhe é típica: os planos longos, os poucos diálogos, a paleta de cores fortes e contrastantes (existem cenas que abusam da vermelhidão, outras que retratam a frieza noturna) compõem uma poesia de pessimismo e dor. A fotografia é assinada pelo experiente Pin Bin Lee (“Renoir”, “Amor à Flor da Pele”), e esta por si só já é estarrecedora: cenários deslumbrantes fazem o longa ganhar dimensões poeticamente grandiloquentes.

Mas devemos afirmar que o filme é de difícil leitura, e sua narrativa é trabalhada de forma pouco clara. Mesmo que seja algo secundário no filme (querendo ou não, os sofrimentos de Nie Yinniang tornam-se o grande centro da película), seu desenvolvimento narrativo é um grande ruído, confuso para boa parte dos espectadores. Muito talvez pois o filme parta do preceito de que temos conhecimento sobre a estrutura política e social da China no século VIII, e assim todo o cenário político que esboça como trama acaba sendo mostrado aparentando muitas incoerências – agora, se isso é um demérito, difícil de se dizer: imagine um taiwanês com quase nenhum conhecimento da cultura brasileira lendo Guimarães Rosa, por exemplo…

“A Assassina” foi um dos mais aclamados filme de 2015. Levou o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes e ainda faturou 8 prêmios no Prêmio do Cinema Asiático (Asian Film Awards em inglês, incluindo Melhor Filme, Direção, Atriz Principal e Fotografia). A atuação de Qi Shu (com quem o diretor tem grande afinidade, já que trabalharam juntos em diversos filmes, como “Millenium Mambo” e “Três Tempos”), que dá vida a Nie Yinniang, por mais que não seja a melhor realizada por ela em um filme de Hsien, consegue construir uma áurea de decadência sobre a figura da assassina que é interessantíssima. Um crítico de cinema, na saída da sessão de “A Assassina”, disse em tom bem-humorado que o filme estava mais para um “ensaio fotográfico”. E de fato, essa pequena sátira esconde uma síntese do que é o filme: uma poesia visual sobre um tormento emocional.

PS: cuidado! Aos fãs de filmes de artes marciais, “A Assassina” pouco usa da essência do e da tradição do wuxia, adotando mais o gênero como um mero cenário para o filme.

A ASSASSINA

SINOPSE

China, século IX. Nie Yin Niang regressa à família após anos de exílio.

Educada nas artes marciais, tornou-se uma verdadeira justiceira cuja missão é eliminar os tiranos. Seu mestre lhe deu a missão de matar Tian Ji’an, governador dissidente da província militar de Weibo, que foi seu noivo no passado. Nie Yin Niang terá de escolher: sacrificar o homem que ama ou romper para sempre com “A Ordem dos Assassinos”.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Hou Hsiao-Hsien” espaco=”br”]Hou Hsiao Hsien[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Hou Hsiao-Hsien, Chu Tien-Wen
Título Original: Nie yin niang
Gênero: Ação, Drama
Duração: 1h 45min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 5 de maio de 2016 (Brasil)

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