A Casa que Jack Construiu (Crítica)

Igor Pinheiro

O inferno de Lars von Trier

Em determinado momento de sua segunda metade, A Casa que Jack Construiu utiliza trechos de outros longas do próprio diretor, Lars von Trier (Ninfomaníaca, Anticristo, Melancolia), para questionar a definição de arte. Pode ser visto como um questionamento do diretor em relação a seu próprio trabalho, que realmente é bastante discutido, mas também passa um tom intenso de amor-próprio que o polêmico cineasta certamente parece ter, chegando quase a um nível de autofelação.

Mas antes o problema do novo longa de von Trier fosse “apenas” a ambição do diretor. Narrado pelo próprio protagonista (vivido por um quase forçado Matt Dillon), A Casa que Jack Construiu conta a história de um psicopata afetado por TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) que, a partir de cinco “incidentes”, narra sua trajetória para o Virgílio (Bruno Ganz) enquanto os dois seguem um caminho para algum lugar incerto, apesar da clara referência à A Divina Comédia.

A sinopse não entrega tanto, assim como o filme em si, que só começa a se justificar em sua última hora (e olha que são 150 minutos de duração). O que não seria necessariamente um problema se não passássemos as primeiras duas horas do longa assistindo detalhados e cruéis assassinatos de mulheres. “Matar uma mulher irritante é arte” é, aliás, a frase que desencadeia a principal discussão levantada pelo roteiro. Beirando a misoginia, que também está presente em críticas recorrentes ao diretor (e vale destacar também a sequência em que se fala de Hitler, quem o diretor disse entender durante a coletiva de Melancolia em Cannes, em 2011, ao lado de uma Kirsten Dunst que me representa muito bem com sua reação), é importante lembrar que tudo é mostrado do ponto de vista de Jack, o que torna tudo mais violento e preconceituoso do que realmente seria, mas não sei se é um argumento que me convence diante de tanta agressão mostrada. Temos seios arrancados com faca, uma criança empalhada e até violência com animais (pobre pato).

A escolha da narrativa também pode ser o que atrapalhe as mensagens passadas pelo longa, mesmo quando temos o protagonista LITERALMENTE gritando pela janela de um prédio uma das críticas sociais feitas pelo filme. A tentativa de humanização ou empatia com Jack também falha, muito por conta de um Dillon canastrão e caricato, é verdade. Talvez o personagem não funcione para ser dono da cena por tanto tempo, e esse protagonismo é destacado em todos momentos: nenhum personagem secundário é apresentado e algumas das mulheres assassinadas não tem nem seus nomes mencionados. Nem a Uma Thurman ganha tanto destaque e chega até a ser irreconhecível nos primeiros segundos de sua aparição. Você não pode apagar a Uma Thurman!

Devo confessar, entretanto, que os últimos vinte minutos de projeção me fizeram aceitar mais o filme. Apesar da já citada desnecessária introdução de duas horas para sua conclusão (embora a duração não seja realmente o problema, mas a intensidade da história contada), os momentos finais acertam em diversos sentidos. O cineasta dinamarquês é cuidadoso com o visual, chegando a criar quase uma tela de pintura em um dos momentos mais bonitos do longa, e o enredo deixa claro que Jack é movido por maldade, não relativizando nenhum de seus atos.

Terminando ao som de “Hit the Road, Jack”, A Casa que Jack Construiu ainda nos faz dar uma risada desconfortável diante de toda a reflexão causada por seus últimos minutos e incômodo causado por todos os outros anteriores. Não chega a ser um dos grande filmes de Lars von Trier, mas certamente marca a carreira do diretor, seja em um momento de auto-reflexão e auto-conhecimento ou de auto-adoração. Talvez até tudo isso junto, mas certamente pendendo para a última opção.

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