A CONEXÃO FRANCESA (Crítica)

Juca Claudino

Porrada, drogas e anos 70.

Em 1972, a película de William Friedkin “Operação França” levava o Oscar de Melhor Filme. Um thriller policial que, com um suspense torturante, construiu uma trama bem amarrada a partir de uma rede de narcotráficos que se estendia da cidade francesa de Marseille até a Nova York violenta e sombria do longa. E, de fato, por mais que em determinadas cenas possamos afirmar que o filme denuncia uma repressão violenta e discriminatória por parte das forças policiais em relação à periferia, ou ainda o racismo presente em atitudes dessa instituição, não é a proposta de “Operação Francesa” penetrar acerca do debate social da “guerra às drogas” e, menos ainda, da sua legalização. É construída uma narrativa novelesca acerca da perseguição ente o policial Jimmy Popeye (interpretado com singularidade por Gene Hackman), uma espécie de anti-herói, e o líder do tráfico Alain Charnier (interpretado por Fernando Rey), a fim de nos impactar com tamanha apreensão transmitida.

“A Conexão Francesa”, filme francês de Cédric Jimenez, assemelha-se bastante com “Operação França” nesse aspecto. Não só por ambos utilizarem-se do cenário do narcotráfico francês durante a metade para o final do século XX, mas por principalmente se apropriarem dele para criar uma obra que pretende nos entreter a partir da construção de uma narrativa de perseguição regada a suspense e apreensão. “A Conexão Francesa” pode não sair ilesa ou se manter neutra (aliás, se existisse neutralidade) acerca da legalização, combate e tudo que rodeia o debate social em relação às drogas (principalmente aquelas que não têm uma indústria estruturada por trás de sua fabricação, como o tabaco e o álcool). Todavia, não é sua proposta ser parte desse debate, embora já o faça por apenas retratar esse cenário no cinema. Em tempos carregados de ódio social como o que vivemos (na França e principalmente no Brasil), é arriscado não abordarmos de forma coerente, com um mínimo de enfoque histórico e social coeso, questões como drogas ou criminalidade – sem minimamente endemonizar e vilanizar tudo aquilo que é catalogado como “imoral”.

E já que Jimenez optou por fazer um longa que quer nos entreter a partir de um thriller policial, como ele se sai nessa sua missão? Bom, “A Conexão Francesa” tem muitos momentos de imensa inquietação e ansiedade em relação a essa perseguição retratada pelo roteiro, coisa que carrega graças à atmosfera soturna e pessimista que o longa contém. O vilão, Gaëtan “Tany” Zampa, é interpretado de forma amedrontadora e sinistra por Gilles Lellouche, enquanto a fotografia de Laurent Tangy (que já fotografou filmes como “Carga Explosiva” e “Cão de Briga”) garante certa tensão com sua iluminação baixa e muitos planos de enquadramento fechado. Além do mais, “A Conexão Francesa” adora usar nas cenas mais decisivas para sua narrativa doses significantemente exacerbadas de emocionalidade – frases de efeito, com forte teor moralizante, são presentes nas falas. Mas deve-se dizer que o filme não se desenvolve de forma fluida, sem linearidade quanto a emoção que mantém a cada cena (o que pode fazer com que pareça irregular).

Por fim, não é à toa que, ao iniciar esta crítica, citei um filme da virada dos anos 60 para os 70. “A Conexão Francesa” é extremamente nostálgico em diversos aspectos: o filme tem uma áurea bem setentista. O notável trabalho de direção de arte, figurino e maquiagem ambientam nossa história na década de 70/80 com bastante autenticidade, e a forma como recorre a um maniqueísmo entre vilão x herói nos personagens protagonistas parece recorrer aos filmes de ação hollywoodianos da metade do século passado: Jean Dujardin já comprovadamente tem uma feição bem hollywoodiana clássica (ele levou o Oscar de Melhor Ator por “O Artista”), e em “A Conexão Francesa” incorpora um herói à la Henry Fonda, idealista e preso ao mundo da ordem; enquanto o vilão interpretado pelo já elogiado Gilles Lellouche, por sua vez, é um sujeito que parece ter saído dos filmes de western, com seu estilo intimidador à la Jack Palance.

Por fim, o que dizer desse “A Conexão Francesa”? Tendo em vista os cânones e os padrões do gênero cinematográfico do qual se rotula (filmes de suspense com tramas policiais), talvez para o público em geral não seja tão expressivo e tão bem desenvolvido como “Operação França”, por exemplo, ou então “A Conversação” (1974). Tendo divido a crítica em geral, é um filme que garante o cinema pipoca que propõe.

A CONEXAO FRANCESA

SINOPSE

Transferido para Marselha, o magistrado Pierre Michel (Jean Dujardin) logo descobre que seu maior desafio será desmembrar uma articulada quadrilha de traficantes de heroína que domina a cidade. Acabar com a French Connection torna-se sua obsessão e Michel dedica anos de sua vida – e um bocado de sua sanidade – à missão, acompanhando de perto os passos de Gaëtan Zampa (Gilles Lellouche), inalcançável chefe do bando.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Cédric Jimenez” espaco=”br”]Cedric Jimenez[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Cédric Jimenez e Audrey Diwan
Título Original: La French
Gênero: Ação, Suspense
Duração: 2h 15min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 11 de agosto (Brasil)

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