A ESPERA (Crítica)

Juca Claudino

Sombras e lágrimas.

“A Espera” combina uma sofisticada direção junto a reflexões morais e existenciais para desembocar nesta obra lírica em seu tom dilemático amargo e tumultuosamente túrbido. Conta-nos a história de Anna (Juliette Binoche) e Jeanne (Lou de Laâge), a primeira é sogra da segunda e a recebe em sua casa, no interior da Sicília. Jeanne achava que estava indo passar a páscoa com a família de seu namorado, contudo, ele está morto e a mãe, que acaba de receber a garota em sua casa, passava por um momento de luto pelo fato de seu filho ter falecido há poucos dias. Jeanne, portanto, não sabia da morte de seu namorado. Anna sentia-se só e desconsolada. A angústia já tomava conta do filme a partir deste contexto, mas perpetua-se de forma mais provocadora quando a personagem de Binoche decide poupar a nora da notícia do passamento.

O filme nos consterna por meio de dois caminhos: o primeiro gira em torno da decisão da mãe de não contar a verdade para Jeanne, já que esta carrega embates morais significantemente lacerantes, e o do desenvolvimento emocional e até mesmo da individualidade das personagens, cujas experiências recentes as quais o filme retrata levam marcas irretocáveis em seus âmagos.

Entender os motivos que levaram Anna a não contar sobre a morte do filho à [ex]namorada deste por si só já não é uma tarefa de fácil dedução. Na verdade, são vários os motivos que a levam a não contar o segredo, e novos surgem durante o percurso da sua relação com Jeanne – o que torna a angústia por trás desta decisão mais intensa. A princípio, podemos deduzir que por misericórdia frente a ingenuidade da garota, temendo que esta sentisse a dor que agora ela, Anna, nega-se a contar. Além do mais, sabia que uma vez ciente da morte do rapaz, Jeanne iria embora e Anna, que também temia a solidão, gostaria da presença da jovem para amenizar a penitência da perda do filho. Todavia, o filme mostra o nascer de amizade entre ambas, e à medida em que esta se fortalece, seria muito desapontador que a jovem descobrisse a desilusão na confiança que depositara em Anna – já que aquilo que escondia era algo significantemente solene e crucial.

Ao mesmo tempo, não é apenas em Anna que a tragédia se concentra e de seus tormentos que o filme alimenta sua ânsia. Jeanne é insegura e confusa frente a um mundo assombroso que lhe espreita. A perda da inocência é refletida na sua imagem, e isto é justificado na sua juventude. Além do mas, o que lhe é dito é apenas que seu namorado havia de chegar e, porém, nunca chegava, o que a levava a pensar que estava sendo enganada pelo amante o qual já não queria ficar com ela – maximizando, portanto, sua frustração. Neste processo, encanta-se de mesma forma por Anna, e nela apóia-se buscando afeto e ternura neste mundo árdego, individualista, agressivo e esquálido que agora a maioridade lhe apresentou – longe da benevolência dos contos de fada. Em suma, a ardência do tormento o qual o filme coloca-se é justamente essa contraposição do fortalecer da amizade entre Anna e Jeanne em meio a uma cortina de mentira que a romperia pela frustração da relação de confiança e, sobretudo, por enganá-la da forma que enganou e pelo assunto que lhe negou a verdade. O diretor do longa, Piero Messini, nos arrasta até o cúmulo da melancolia de suas protagonistas em “A Espera”, sadicamente nos brindando com esta taça de decadência, desespero e luto.

Todavia, a consternação que se sobressai, de fato, é a justaposição entre a experiência da personagem de Binoche e a juventude daquela da Lâage: enquanto Jeanne teme e se angustia pela insegurança da vida que lhe espera, Anna teme a solidão e a frustração que a idade lhe trouxe. É, portanto, um filme pessimista dentro do seu espectro mais filosófico.

Mas, para martirizar esta dor que contagia os personagens e usá-las como um sentimentalismo gritante e pavoroso, usa de uma linguagem extremamente barroquista, não poupando o sofrimento da Virgem Maria (até pois Anna acabara de ver morrer o filho) e até mesmo a paixão de Cristo para metaforizar a tragédia emocional vivida por ambas. O estilo sombrio e excessivo, com uma fotografia que esbanja o contraste entre o claro e o escuro e uma trilha sonora que inunda aflição e dolência, “A Espera” é um filme extravagante e rebuscadamente lacrimoso, buscando a sacralização do sofrer de suas protagonistas (e esta é a parte mais vistosa do longa).

A própria ambiguidade moral vivida por Anna reflete justamente o tumulto barroquista, que por tradição afoga-se em paradoxos dualistas. Na verdade, o diretor também abusa da sensualidade para justificar a aproximação entre as duas personagens, supondo um chamado sexual entre elas que fortaleceu a construção de suas aproximações. A sensualidade também entorna o filme em algumas cenas, talvez por pura contemplação em algumas delas, mas certamente aliar dramas morais com o prazer do corpo é algo que remete ao espírito barroco de modo imenso – e, óbvio, isso ecoa na atmosfera assombrosa do filme. O estilo extravagante e sofisticado garante uma experiência contemplativa e tormentosa de cinema, o que é o suficiente para carregar de pessimismo nossa consciência e tristeza nossos sentimentos. Um bom trabalho de primeiro filme para Piero Messina, estreante como diretor com este longa.

A ESPERA

SINOPSE

Num momento de profunda dor e luto, Anna (Juliette Binoche) é surpreendida pela visita da namorada francesa do filho, Jeanne (Lou de Laâge), por ele convidada para os festejos de Páscoa. Isoladas num casarão na Sicília, Itália, elas escondem segredos enquanto aguardam ansiosamente o reaparecimento do rapaz.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Piero Messina
Título Original: L’Attesa
Gênero: Drama
Duração: 2h 0min
Classificação etária: 14 anos
Lançamento: 2 de fevereiro de 2017 (Brasil)

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