A FORMA DA ÁGUA (Crítica)

Igor Pinheiro

A descoberta do amor no diferente, a empatia com o que é considerado estranho e a monstruosidade dos humanos são temas recorrentes em histórias de ficção e, apesar de gerarem boas reflexões, por conta do excesso, acabam as tornando repetitivas e até mesmo clichês. Esse fato não chega a se tornar uma desculpa para uma narrativa ruim. E é isso que Guillermo del Toro prova em seu novo e excelente filme “A Forma da Água”, vencedor do Leão de Ouro (prêmio máximo dado pelo júri no Festival de Veneza) e escolhido para abrir o Festival do Rio de 2017.

Ambientado em 1962, o filme conta a história de Elisa, uma mulher muda funcionária da equipe de limpeza de um secreto laboratório de pesquisas, que se apaixona por uma criatura aquática que está sendo estudada no local. Ambientado na Guerra Fria, além dos temas já citados, o longa também fala do abuso de poder, machismo, homofobia e amizade.

Assim como em “O Labirinto do Fauno”, a direção de del Toro consegue introduzir elementos fantásticos em narrativas próximas da realidade sem que a história fique inverossímil. É fácil se identificar com Elisa, deslocada, se apaixonando pela criatura que, assim como ela, não fala e é incompreendida pelos demais. As cenas mais eróticas, aliás, só nos dão mais empatia em relação ao casal protagonista e são de extremo bom gosto, sem apelar para a sensualização ou para as bizarrices que um relacionamento humano/monstro pode gerar. Para impedir esse amor, o personagem de Michael Shannon é o vilão perfeito, daqueles cruéis que a gente ama odiar a cada minuto.

A FORMA DA ÁGUA (Crítica)

E com a ótima atuação de Shannon, temos Sally Hawkins em um de seus melhores papéis, precisando conversar com o público apenas com o olhar e carregando o filme nas costas. Doug Jones também faz mais uma vez um ótimo trabalho como uma criatura fantástica e Octavia Spencer é extremamente carismática, apesar de me incomodar o fato de que ela quase sempre acaba tendo um papel que funciona mais como alívio cômico e pouco movimenta a trama. Richard Jenkins e Michael Stuhlbarg também trabalham muito bem e é ótimo ver como seus personagens se conectam com à história principal apesar de parecerem um pouco distantes em seus plots paralelos.

Em uma das melhores sequências do filme, em que os protagonistas tentam fugir com a criatura do laboratório, Guillermo se destaca com plano rápidos e ágeis, explorando muito bem seus cenários e aprimorados por uma montagem bem ritmada entre todas as ações que acontecem ao mesmo tempo. O azul-petróleo presente por todo o filme nos remete o tempo inteiro ao mar e vemos cores completamente diferentes quando estamos fora do laboratório, nos imergindo e situando bem o que se passa com Elisa. Tudo isso embalado com uma trilha sonora diversificada, que tem músicas em francês e até mesmo Carmen Miranda, e até mesmo um momento musical (o filme é cheio de referências à musicais, aliás) em um dos pontos mais altos da produção.

Ano passado, “A Chegada” (Denis Villeneuve) nos fez discutir bastante a não tão comentada temática da linguagem e da comunicação, o novo longa de del Toro traz o debate de volta à superfície (me desculpem pelo trocadilho) e nos faz pensar como lidamos com a comunicação com os diferentes de nós, com quem fala outra língua e com quem simplesmente não pode falar. Apesar da mensagem que já conhecemos e algumas resoluções apressadas para problemas do roteiro, “A Forma da Água” é um filme poderoso e bonito, feito por artistas e dando aquela sensação de alívio no peito durante os créditos que só o cinema consegue nos proporcionar.

Pôster de divulgação: A FORMA DA ÁGUA

Pôster de divulgação: A FORMA DA ÁGUA

SINOPSE

Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e bélicos e as grandes transformações sociais ocorridas nos Estados Unidos, Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, conhece e se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa no local. Para elaborar um arriscado plano de fuga ela recorre a um vizinho (Richard Jenkins) e à colega de trabalho Zelda (Octavia Spencer).

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Título Original: The Shape of Water
Gênero: Drama, Romance
Duração: 2h 3min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 11 de janeiro de 2018 (Brasil)

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1 Comentário

  1. Elaine costa

    Depois de muita espera assisti ao filme hoje e para minha surpresa, não gostei! Faltou algo, embora o filme seja estéticamente perfeito e muito bem dirigido. A interpretação da sally hawkins é excelente. Já Octavia Spencer e Richard Jenkins estão como já os vi em outros filmes. Não entendi a indicação dos dois ao oscar.
    Meu filme preferido ainda é me chame pelo seu nome.