A JOVEM RAINHA (Crítica)

Juca Claudino

Uma libertadora a frente de seu tempo.

Mika Kaurismäki pode não ser o cineasta mais conhecido da atualidade. Não tem por trás de seu nome nenhuma marca como “Cannes” ou “Berlim” que lhe impulsione visibilidade. Contudo, já esbanja 36 títulos como diretor e agora lança seu mais novo, internacionalmente lançado em 2015, aqui no Brasil: “A Jovem Rainha”, com Malin Buska protagonizando-o.

Kaurismäki, que não é seu irmão Aki (recentemente protagonista do Festival de Berlim), tem em mãos um roteiro com muitas questões interessantes – e que são bem usadas por sua direção – e falas que ora soam jocosas de tão didáticas e sensacionalistas/exageradas, mas em geral satisfazem a dramaticidade das cenas de diálogos, as quais dominam o filme e são em geral instigantes. Mas antes é necessário elogiar o trabalho de fotografia de Guy Dufaux, que já havia trabalhado em filmes como “As Invasões Bárbaras” e “Jesus de Montreal”, por construir uma plasticidade admirável nesse longa de Kaurismäki. Recorre com similitude absurda às obras barrocas de Rembrandt, Van Dyck e Velázquez, com seus retratos dos ambientes palacianos sombrios e carregando certa atmosfera medonha, e com isso ambienta com um toque mais onírico, exótico e extravagante a época em que o filme se passa.

Essas alusões da fotografia acabam por tornar “A Jovem Rainha” sobretudo mais pomposo, contudo também o tornam mais expressivo: inegavelmente com elas é muito mais imponente. Até porque a trama que conta é de tensão recorrente, e logo a aflição barroca era apropriada para o momento. Fala sobre a Rainha Cristina da Suécia (1626-1689, interpretada por Buska), que em vida foi polêmica como governante, não só por ser coroada ainda em sua adolescência e abdicar-se do trono quando tinha por volta dos 25, mas também por sua visão de mundo conflitante com a Igreja Luterana – a qual era a religião oficial do Estado sueco – e com as decisões que sua corte lhe julgava crucial tomar enquanto rainha – dentre elas, aceitar um pedido de casamento feito por um homem. Para Kaurismäki, aproveitando o filão de que esta era muito apegada às artes – à época sobre forte influência do humanismo – e tinha aulas sobre filosofia e religião com René Descartes – um grande influenciador do Iluminismo -, Cristina em seu filme “A Jovem Rainha” se torna um símbolo da racionalidade versus o “obscurantismo”, da liberdade versus o fundamentalismo religioso.

Talvez não tenha sido essa a intenção do filme, mas inevitavelmente “A Jovem Rainha” acaba criando um diálogo com o recente cenário político, onde o “obscurantismo”, o discurso de ódio e o extremismo político – sob a direção do racismo, machismo, LGBTfobia – vem revelando-se nas eleições, nos diálogos cotidianos e na mídia de forma ativa e absurdamente perigosa. Cristina é apaixonada, platonicamente, por sua dama de companhia, opõe-se a submissão aos moldes patriarcais e até mesmo a uma série de estereótipos de gênero, tem certas desavenças com o clero (mostrando uma tendência a defender a laicidade, embora isto se torna meramente subjetivo no roteiro até mesmo porque, pelo contexto histórico, caso isso saísse da subjetividade poderia ficar anacrônico) e ainda defende o ócio e o debate filosófico assim como idealizavam autores renascentistas. A figura de Cristina é a da emancipação libertária frente aquele status quo patriarcal e déspota. É uma figura democrática frente a absolutistas e autoritários. O filme, ainda, é muito coerente em revelar como pode-se perpetuar uma estrutura de poder patriarcal, teocêntrica e autoritário a partir do obscurantismo, discurso fanático ou doutrinação religiosa.

Mas o que mais destacar do longa? Bom, de início, a protagonista de Malin Buska pode parecer exagerada e piegas, porém aos poucos ela assume tanta proeminência e imposição que se torna contagiante vê-la contracenando no longa. Ao mesmo tempo, ela agrega uma poderosa empatia à história com sua atuação, empatia esta que ainda é fortalecida pelo seu já referenciado no texto affair com a personagem de Sarah Gadon – a Condessa Ebba Sparre. A Rainha Cristina é demasiada divertida e fervorosa por sua extravagância e ferocidade desfilando sobre as lentes do filme e brindando-nos com sua geniosa estilização e interessante alegoria que carrega. Buska não faz o que Sonia Braga faz em “Aquarius”, mas ainda assim é um certo espetáculo assisti-la.

Kaurismäki lida satisfatoriamente com o desenvolvimento do drama, tornando seu filme uma tragédia divertida e aprazível. Talvez, nesse quesito, quanto ao interesse que “A Jovem Rainha” nos retira para o correr da história este peque um pouco por torná-la desnecessariamente redundante e prolixa. Questões como os personagens secundários, que são apáticos embora façam parte da trama, e a encenação das farpas trocadas entre a Igreja e a Rainha, que por parte do filme permanece na paralisia e passividade desestimulante das trocas de verbos repetitivas e sem proatividade (uma “Guerra Fria” estagnada em gestos pleonásticos), as vezes enferrujam a paixão por “A Jovem Rainha”. Contudo, no nível em que se apresenta já é um filme empolgante e cujo vislumbre estética agrega bastante pompa e suntuosidade. A personagem da Rainha, com a forma a qual é intensa em sua sofreguidão – sobretudo no belíssimo arco de amor entre Ebba e Cristina -, já torna este filme uma tragédia a ser contemplada.

Em geral, a crítica estrangeira foi menos gentil quanto a recepção deste filme como este texto é. Contudo, é óbvio que existem as exceções. Um filme não é uma mercadoria, na qual pode-se medir sua qualidade sistemática e “mecanizadamente” a partir de uma série de referenciais técnicos.

A JOVEM RAINHA

SINOPSE

Enigmática e em conflito é Cristina (Malin Buska), rainha coroada da Suécia. Criada rigorosamente como um príncipe, ela assume sua posição como líder e, inspirada pela filosofia, enfrenta grande resistência à suas ideias de modernizar a Suécia e acabar com a Guerra dos Trinta Anos, entre protestantes e católicos. Além dos problemas políticos, Cristina ainda precisa lidar com a sua crescente atração por uma dama de companhia.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Mika Kaurismäki” espaco=”br”]Mika Kaurismaki[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Michel Marc Bouchard
Título Original: The Girl King
Gênero: Drama, Romance
Duração: 1h 46min
Classificação etária: 14 anos
Lançamento: 23 de fevereiro de 2017 (Brasil)

Comente pelo Facebook