A LINGUAGEM DO CORAÇÃO (Crítica)

Juca Claudino

As Intocáveis

O filme é um melodrama não convencional, que constrói seu sentimentalismo de forma alternativa ao que vemos pela convenção hollywoodiana. O diretor, Jean-Pierre Améries, não é o nome mais influente do cinema francês hoje, internacionalmente falando: lançou interessantes filmes como “Românticos Anônimos” e “O Homem que Ri”, este último inclusive que esteve em cartaz no Brasil durante 2013. E seu novo filme a chegar aqui, “A Linguagem do Coração”, se mostra realmente muito interessante: a graciosidade que Améries coloca nesse drama sobre a relação de uma freira e a criança a qual educa em um convento do século XIX o torna uma experiência não só encantadora, como humana. É uma grande afirmação à vida, e aos motivos que nos fazem ter prazer em viver. É um “feel good movie” (filme para sentir-se bem) que, ao mesmo tempo que cumpre essa sua função, consegue criar uma estética riquíssima e cenas belíssimas, construindo uma fotografia bucólica, viva e quase que impressionista.

A irmã Marguerite, interpretada por Isabelle Carré, sempre manteve uma curiosidade sobre como deveria ser viver sem ouvir ou enxergar. Queria, e tinha esse fascínio, descobrir como seria se fosse assim. Marguerite vivia em um convento, no final do século XIX, especializado em olhar por crianças que não podiam escutar, assim as cuidando em um ambiente menos hostil e mais acolhedor do que a sociedade em geral da época. Um dia, uma garota surda e cega chega a essa instituição, a qual com cerca de 14 anos tinha grande dificuldade em se comunicar e se socializar. É então que, demonstrando imensa empatia, a irmã decide optar por olhar pela criança e se responsabilizar por ela. Pronto, temos o pretexto perfeito para que o filme construa todo o seu perfil de afirmação otimista da vida, de descobrimento ou redescobrimento do prazer em viver, uma espécie de “feel good-movie”: duas personagens que encontram, uma na outra, uma grande resposta para seus tormentos. A irmã se identifica com a pequena garota Marie (interpretada aqui por Ariana Rivoire, atuando muito bem dentro da proposta do diretor), e esta, por sua vez, terá com Marguerite uma relação de compaixão como nunca teve anteriormente. Talvez Améries exagere na representação inicial de Marie antes de chegar ao convento, mostrada com uma animalização da personagem que muito foi comparada ao filme de François Truffaut, “O Garoto Selvagem”. Mas mesmo assim, o filme transborda uma graciosidade em mostrar a maneira como as personagens vão se identificando uma com a outra que leva a uma experiência belíssima. Mais do que se identificando, vão enxergando uma na outra um encantamento pela vida o qual nunca tinham enxergado antes.

Mas engana-se quem crê que esse aspecto do filme, de tentar mostrar a vida com otimismo, o torna algo superficial e meramente de “auto-ajuda”. Ele consegue desenvolver um sentimentalismo em cada cena que é profundo, transforma muitos de seus momentos em verdadeiros momentos humanos, com bastante delicadeza. Sua fotografia bucólica, composta por cores vivas e planos românticos, são fundamentais para isso. Não é apenas um filme para nos sentirmos otimistas, é um filme que fala sobre perda também, sobre amizade, sobre as razões pelas quais vivemos. Améries constrói um melodrama que foge dos padrões convencionais, que gera uma profundidade lírica em suas cenas.

“A Linguagem do Coração” é um cinema que realmente comove e impressiona. Tem uma beleza ímpar, sentimental. Um aspecto “feel-good movie” que junta-se a um trabalho de direção que cria momentos de encantamento, catarse e profundidade. A fotografia de Virginie Saint-Martin marca realmente uma beleza quase que impressionista, usando das cores e da iluminação para desenvolver momentos de alegria e ternura, contrastados com pequenos momentos mais trágicos, porém todos com uma abstração romântica. Com um sentimentalismo muito bem desenvolvido, “A Linguagem do Coração” é um filme sobretudo que (re)afirma, com otimismo, a vida.

A LINGUAGEM DO CORACAO

SINOPSE

Baseado em uma história real, Marie Heurtin (Ariana Rivoire) é uma moça que nasceu cega e surda. Vivendo em seu próprio mundo, sem conseguir se comunicar, o pai dela a manda para um internato. Lá a jovem conhece Marie Margueritte (Isabelle Carré), uma freira que resolve adotar a menina como se fosse uma filha. Ganhando a confiança de Marie Heurin e usando da sua fé, a freira a ensina como se expressar apesar das suas limitações.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Jean-Pierre Améris” espaco=”br”]Jean Pierre Ameris[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Jean-Pierre Améris
Título Original: Marie Heurtin
Gênero: Drama
Duração: 1h 35min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: Livre
Lançamento: 17 de março de 2016 (Brasil)

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2 Comentários

  1. Joilma

    Quero muito assistir o filme a linguagem do coração, não consigo onde comprar esse filme.. me ajude.

  2. Joilma

    Interessante esse filme