A NONA VIDA DE LOUIS DRAX (Crítica)

Juca Claudino

Suspense, porém, simpático.

“A 9º Vida de Louis Draxler” tinha um potencial notório de se tornar um filme de suspense pródigo. Os elementos de seu roteiro são imensamente cabíveis dentro de um filme à moda de Alfred Hitchcock – e convenhamos que não há nada mais canônico para o cinema de suspense do que o diretor eternizado como “o mestre do suspense”. O roteiro sabe nos iludir quanto aos papéis de cada personagem no jogo de pistas, assim ludibriando nossa ansiedade e enganando nossa dedução, ornando frustração com espanto – e gerando catarse.

Louis Draxler (Alden Longworth) é um garoto predisposto a sofrer acidentes gravíssimos. Sua vida já quase foi ceifada por 8 vezes antes de, durante um piquenique com seus pais à beira de um penhasco, ser arremessado ao mar e ficar morto por 2 horas. É o doutor Allan Pascal (James Dornan) que cuida do garoto sob o olhar da mãe do pequeno, interpretada por Sarah Gadon, enquanto o pai do garoto, interpretado por Aaron Paul, está desaparecido. Além do mistério por quem jogou Draxler do penhasco, há o mistério pela sobrevivência do garoto em coma, e ambos podem ser respondidos por pistas e fatos curiosos que ocorrem no hospital.

Adaptado de um best-seller – assim como diversos dos roteiros adaptados que tomam o cinema pipoca, em uma tendência que não se mostra desgastada e garante o aquecimento de duas indústrias: a literária e a audiovisual – escrito por Liz Jensen, o longa é dirigido pelo francês Alejandro Aja, diretor há tempos penetrado e especializado no gênero de terror e suspense, sendo esse seu filme mais esperançoso, otimista e sutil. Mescla um argumento típico de um filme de mistério a um tom goticamente inocente – e, obviamente, com a positividade hollywoodiana de sempre. Mas então o filme tem um roteiro típico de suspense e mistério que segue uma escola, digamos, hitchcockniana só que com um clima de otimismo meio típico dessa escola que segue filmes como “A Culpa É das Estrelas” e “Se Eu Ficar” (embora o trailer nos venda algo totalmente terrorífico) e, ainda, com um visual de cores saturadas parecendo as paletas típicas do M. Night Shyamalan? Sim, essa é uma síntese aprazível de “A 9º Vida de Louis Draxler”. E imagino que a maioria do seu público-alvo busque uma arte de entretenimento nesse longa – e assim “A 9º Vida…” se postula. E, enfim, o filme diverte?

Essa resposta muito provavelmente irá dividir a crítica. O tom melodramático e o sentimentalismo artificial de “A 9º Vida de Louis Drax” podem entediar àqueles cuja repetição dessa “fórmula” no cinema pipoca já não mais surpreende. O filme não escapa, nas suas encenações e na direção, de nenhum padrão já instituído na indústria, e aos que se apegam à busca por originalidade além da narrativa podem não se surpreender com o filme. Sarah Gadon é a melhor atuação da película dada a insegurança aliada a um misticismo de olhar de Mona Lisa transmitidos da personagem, remetendo à memória cinéfila figuras como Kim Novak, Jessica Tandy ou Grace Kelly em sua caracterização – algo que reforça ainda mais o imaginário hitchcockniano nesse filme (pena que não posso falar mais do assunto, pois estaria dando spoilers do filme já que, como todos sabem, o desfecho da narrativa é algo bem essencial na obra do diretor britânico). Ela torna o filme mais atrativo, mais sedutor e mais inquietante ao interpretar a mãe do garoto e sua incessante busca por verdades e salvações, dando por meio de Natalie (o nome da personagem) mais passionalidade e intensidade ao longa de Alejandro Aja. Quanto aos outros integrantes do elenco, composto por pessoas brancas e apenas pessoas brancas no melhor estilo excludente e segregador da indústria da arte ressoando nossa sociedade rasgada pelas feridas da intolerância (a qual continua a ferir… e há quem diga que racismo não existe), temos atuações simpáticas: James Dornan faz um galã ultra-idealizado, e não escapa da construção clássica deste, e Aiden Longworth mostra um carisma imenso como Louis Drax, dando uma extravagância bem interessante ao seu peculiar personagem.

Mas algo é inegável: as reviravoltas, acertadas no roteiro, dão uma empolgação notável a “A 9º Vida de Louis Drax”, as quais junto com esse melodrama do qual falo ao iniciar o parágrafo anterior não fogem de um ponto coerente de dosagem que garanta impacto pela narrativa e doçura pelos dramas dos personagens. É claro que “A 9º Vida de Louis Draxler” poderia ter sido mais ousado na sua formulação sem ter saído do cinema pipoca com o material que tem em mãos. Aliás, pelo contrário: isso só o faria chamar mais a atenção pelas suas qualidades de “mainstream”, pelas suas qualidades folhetinescas de entretenimento. Poderia ter desenvolvido mais seu lado de suspense, construindo maiores enigmas e evidenciando menos quais as motivações dos diversos personagens e, principalmente, recorrer menos a um bom-mocismo genérico. Da mesma forma, se quisesse investir mais no seu aspecto sentimental, não seria uma saída negável – tomemos filmes do Oscar como “A Teoria de Tudo”, “Brooklyn” e etc, mostrando que espaço para esse viés não falta na Hollywood de hoje. Mas sim, “A 9º Vida de Louis Draxler” é um filme com potencial de agradar ao seu público-alvo, por mais que não queira ser uma marca na história da sétima arte e um fenômeno de bilheterias mundo afora.

O longa no início parece ser uma experiência meio sádica. Assistimos a figura desumanizada de Louis Drax, extremamente violenta, agressiva, com fetiches para assassinar insetos e insultar aleatoriamente pessoas; enquanto imaginamos se um dos pais seria um repressor ditatorial e agressor contra o personagem de Longworth – e o filme dá a entender que sim. E tudo isso sem nenhum pano de fundo, como se naturalmente fossem personagens desprovidos da capacidade de ter um mínimo de compaixão e miseração. E é aí que o roteiro começa a criar circunstâncias a trabalhar a violência dos personagens atreladas ao lidar da sua psiqué com a forma que são violentados pelo mundo. Ou seja, há sim uma humanização bem interessante, da violência gerando violência como diz o sábio ditado popular. O que faz com que o filme tenha um quê de psicanálise (como os de Hitchcock tinham, e bastante), por mais que apagada por detrás daquela maquiagem toda de idealismo, heroísmo (em especial por parte do médico interpretado por Dornan) e um maniqueísmo (mal colocado às vezes) porém ainda presente. É interessante ver como “A 9º de Louis Draxler” trabalha as relações intrapessoais, com um certo romantismo quanto ao efeito multiplicador da compaixão, mas um romantismo bem necessário nesses tempos de ódio exacerbado no qual renasce, no cenário social, ordens tão autoritárias e odiosas por parte de muitos líderes de opinião. Romantismo esse que, dadas as necessidades para uma sociedade mais harmônica, mais justa, mais democrática e menos violenta… não pode estar tão preso a um mundo das ideias assim. Nos resta desconstruir o ódio.

A NONA VIDA DE LOUIS DRAX

SINOPSE

Louis Drax (Aiden Longworth) não é um menino comum, embora seja inteligente e precoce, os colegas o consideram estranho, porque vários acontecimentos sombrios se passam ao seu redor. Prestes a completar 9 anos, em um piquenique com sua mãe (Sarah Gadon) e seu pai (Aaron Paul) para comemorar seu aniversário, Louis cai de um penhasco e é dado como morto, porém volta milagrosamente à vida, mas entra em coma profundo. Sua única chance de recuperação é o Dr. Allan Pascal (Jamie Dornan) que mergulha no mistério e passa a testar os limites entre a fantasia e a realidade.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Alexandre Aja” espaco=”br”]Alexandre Aja[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Max Minghella
Título Original: The 9th Life Of Louis Drax
Gênero: Suspense, Fantasia
Duração: 1h 48min
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 20 de outubro de 2016 (Brasil)

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