A ODISSEIA DE ALICE (Crítica)

Juca Claudino

Um filme humano.

O filósofo francês Michel Foucault, segundo a professora de Literatura Eliane Robert Moraes, dizia ser o barco “um espaço flutuante, um lugar sem lugar, que vive por si mesmo, fechado em si e, ao mesmo tempo, lançado ao infinito do mar. Daí ele funcionar, desde o século 16 até os dias de hoje, não apenas como um importante instrumento do progresso econômico das sociedades, mas também como ‘a sua maior reserva de imaginação'”.

A cineasta (também) francesa Lucie Borleteau estreou como diretora em 2014, com seu “A Odisseia de Alice”. A imponência e a punjança do título remetem à lenda épica clássica de Homero, à bravura dos heróis gregos em meio a sua jornada colossal de volta para casa. E isso faz com que o título escolhido por Borleteau se torne uma das muitas coisas chamativas nessa instigante obra: o que reina na primeira leitura que fazemos dela é seu intimismo ao contar a história de Alice (vivida por Ariane Labed, a qual já irei enaltecer daqui a pouco), uma jovem engenheira naval que trabalha no barco de carga Fidelio e nele passará meses na companhia de seus colegas de trabalho – todos homens – e da imensidão do mar. Intimismo esse construído não só pela atmosfera realista – muitas vezes fria, silenciosa e até mesmo claustrofóbica – que o longa carrega principalmente graças à notável fotografia assinada por Simon Beaufils (“O Capital Humano”) e às atuações cativantes de seu elenco, mas também pela construção em uma dimensão humana e psicológica das contradições emocionais da protagonista. Logo, qual seria a “Odisseia” retratada por Borleteau?

Bom, é fato que a personagem de Ariane Labed sonha com seu retorno para casa assim como Odisseu. Porém o mergulho que o longa faz às entranhas da psique de Alice o torna uma viagem pelos questionamentos, certezas e rancores humanos que permeiam os impasses da protagonista acerca da moral e de sua liberdade. Tais impasses, todavia, são potencializados quando Berleteau os conta em um espaço “fechado em si e, ao mesmo tempo, lançado ao infinito do mar”, pois parecem assim terem sido colocados dentro de um labirinto no qual tudo fica muito mais explícito e menos latente. Aliás, tal fenômeno ocorre não só com Alice, mas com toda a tripulação: a inacessibilidade aos espaços cotidianos por parte dos personagens parece fazer com que as máscaras sobre as quais escondiam suas inseguranças, seus desapuros e sua solidão caiam. Se expõe, com isso, de forma catártica e impetuosa, cada vez mais as entranhas sentimentais de cada um deles, em uma espécie de diário de bordo que o roteiro cria.

Mas o filme se torna marcante de fato quando explora a opção de Alice pela sua liberdade de ser feliz. Tal singela escolha, todavia, para uma mulher inserida em uma cultura sexista e trabalhando em um ambiente tido como “masculino” (repare nas aspas), o torna questionadora de uma série das convenções sociais: não se vê impedida de ter diversos relacionamentos sexuais com quem bem entende, além de não se ver presa a uma imposição de padrões e estereótipos ao gênero feminino e muito menos do papel que este deve ter na sociedade. Alice é vivida de forma autêntica e notável por Ariane Labed, que cria uma personagem apaixonante, sensual, intrigante e humana. Uma personagem que clama pelo direito de não se submeter aos estereótipos e preconceitos socialmente colocados. O filme pode sim ser considerado feminista, com uma personagem que confronta uma série de opressões sociais e não se vê constrangida em relação a forma como desfruta do seu corpo sem atentar a julgamentos machistas.

Alice é bela, sem recato e, embora sinta a falta dele, definitivamente não é do lar – tendo inclusive feito sexo em todos os continentes e sem sentir nenhuma vergonha em assumir isso (até porque, o corpo é dela).

O barco aqui é um espaço de exploração das emoções, dos pensamentos, das certezas e virtudes de seus integrantes, mas da maravilhosa Alice em especial. Se nele nos lançamos ao infinito mar, este por sua vez já foi centro de lendas fabulosas, sinônimo de liberdade, símbolo do inexplorado. O poeta (também) francês Charles Baudelaire crê que “o oceano é um espelho fulgente” e ainda nos avisa que
“No seu dorso agitado,/
Como em puro cristal, contemplas, retratado,/
Teu íntimo sentir, teu coração ardente”. É um aviso que vale para a “Odisseia de Alice”.

A diretora Lucie Borleteau tem apenas 35 anos e estreia na direção de um longa primorosamente. Seu primeiro filme é belissimamente humano, intimista e inclusive introspectivo. Delicadamente realista, porém vibrante no seu desenvolvimento de uma personagem de fato encantadora e que não teme ser livre, com a construção de um ensaio feminista além de tudo. Desenvolve o sexo representado em cena de forma madura.

Uma bela Odisseia.

A ODISSEIA DE ALICE

SINOPSE

Alice (Ariane Labed) é engenheira especializada em cargueiros. Ela trabalha muito bem e é reconhecida por sua postura profissional, sendo frequentemente a única mulher entre dezenas de homens. Alice tem um namorado norueguês, que sempre espera por ela em solo. Mas durante as viagens, ela reencontra um antigo amor, o capitão Gaël (Melvil Poupaud), e pensa que esta pode ser a oportunidade de reatar com um dos únicos homens que realmente amou.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Lucie Borleteau” espaco=”br”]Lucie Borleteau[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Lucie Borleteau
Título Original: Fidelio, l’odyssée d’Alice
Gênero: Comédia dramática, Romance, Aventura
Duração: 1h 37min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 9 de junho (Brasil)

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