A ORIGEM (Crítica)

A ORIGEM

5estrelas

FICHA TÉCNICA

Título Original: Inception
Ano do lançamento: 2010
Produção: EUA
Gênero: Ficção Científica
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan

Sinopse: Em um mundo onde é possível entrar na mente humana, Cobb (Leonardo DiCaprio) está entre os melhores na arte de roubar segredos valiosos do inconsciente, durante o estado de sono. Além disto ele é um fugitivo, pois está impedido de retornar aos Estados Unidos devido à morte de Mal (Marion Cotillard). Desesperado para rever seus filhos, Cobb aceita a ousada missão proposta por Saito (Ken Watanabe), um empresário japonês: entrar na mente de Richard Fischer (Cillian Murphy), o herdeiro de um império econômico, e plantar a ideia de desmembrá-lo. Para realizar este feito ele conta com a ajuda do parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt), a inexperiente arquiteta de sonhos Ariadne (Ellen Page) e Eames (Tom Hardy), que consegue se disfarçar de forma precisa no mundo dos sonhos.

Por Douglas Ricardo Müller

Um presente para que é cinéfilo. O FILME DOS SONHOS!!!!!!!!!!

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Sonhos são assuntos que realmente fascinam por serem projeções de nosso subconsciente ativadas quando entramos em estado de stand by por assim dizer. É algo que mescla biologia com misticismo, quando várias crenças dizem que sonhos são presságios – acontecimentos do que ainda estão por vir.

Por que então não realizar um filme sobre sonhos? Bom, eis aí então uma boa oportunidade de conferirmos o longa, haja vista que quem comprou a ideia foi nada mais nada menos que Christopher Nolan. Com um portfólio cinematográfico que dispensa comentários – Following (1998), Amnésia (2000), Insônia (2002), Batman Begins (2005), O Grande Truque (2006), Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) – sentimo-nos assim, mais seguros ao conferirmos outro filme dele, pois um diretor que tem como histórico colecionar sucessos de público e crítica não iria (ou pelo menos, esperamos que não) dirigir um filme que distorça a curva ascendente de sua experiência no ramo. Mais um motivo é que como a maioria de seus filmes não somente é dirigida, mas também escrita por ele, este não poderia deixar de se igualar aos anteriores. Não só como foi ele quem escreveu, mas se dedicou por anos no roteiro, desenvolvendo-o “por baixo dos panos” até que o tivesse completado.

A história então segue este grupo de ladrões de informações secretas, que realizam os furtos através dos sonhos das pessoas, chamado de extração, realizada por meio de um dispositivo. A pessoa sonha, eles invadem como se fosse parte normal do subconsciente e então procuram um meio de extrair aquilo que querem. O grupo é formado por Cobb (Leonardo DiCaprio) e Arthur (Joseph Gordon-Levitt) que são abordados por um de seus clientes, Sr. Saito (Ken Watanabe) e o mesmo quer que Cobb e Arthur realizem o procedimento com o filho do dono de uma empresa concorrente – Robert Fischer (Cillian Murphy) – para que o mesmo resolva fechar a empresa do pai que está a beira da morte. O que a dupla não sabe (ou melhor, passa a concluir) é que tal procedimento é o inverso da extração, chamada de inserção (Inception que é o título original em inglês, onde o mesmo se dá através de inserir uma idéia na mente de uma pessoa) e para ser realizado com sucesso, eles precisam ir fundo na mente da vítima, mergulhar em vários níveis de sonhos para se aproximarem do subconsciente. Para isso, contratam uma arquiteta que irá realizar o layout dos sonhos, Ariadne (Ellen Page) e um bom mestre em disfarces, Eames (Tom Hardy). Para piorara a situação, Cobb – líder do grupo – terá que lidar com um trauma do passado para conseguir realizar a tarefa com êxito, porque só assim, Saito – um homem muito poderoso – poderá concedê-lo a permissão de voltar para seus filhos no EUA.

Um dos aspectos mais interessantes são as características dos sonhos incorporadas ao longo do filme. Estudos comprovaram que um dos mecanismos neurológicos de defesa é transformar distúrbios externos durante o sono, em características do mesmo. Por exemplo: Uma pessoa está dormindo profundamente e de repente o telefone toca. A pessoa não acorda e então a mente faz a inserção deste distúrbio que pode ser revertido em alguma manifestação no sonho, preservando assim a mente em si. Isso é transmitido no filme em vários momentos, como o quarto de hotel que passa a girar, pois a pessoa que esta sonhando está dentro de um carro durante a capotagem, ou quando o sonho começa com uma chuva torrencial sendo que o sonhador estava ingerindo champanhe sem utilizar o banheiro em seguida. Obviamente tendo seus exageros, mas que são perfeitamente enquadrados e justificados em detrimento à trama que se segue.

Outro detalhe interessantíssimo adotado pelo filme é o efeito de retornar dos sonhos. Não basta apenas desligar o mecanismo ou algo parecido. Para retornar você precisar do chute, que seria uma espécie de empurrão que confere ao sonhador a sensação de queda, a mesma sensação de quando sonhamos que estamos em queda livre e nossos corações disparam, até que enfim colidimos com o chão e acordamos desesperados. A ideia da inserção deste detalhe no filme foi simplesmente genial e funciona perfeitamente bem, principalmente nas cenas finais que requer algo um pouco mais complexo e elaborado.

O que já poderia ser complexo se torna ainda mais, quando Nolan então decide criar vários níveis de sonhos, ou seja, sonhos dentro de sonhos. Ambos acontecem em lugares distintos, com durações distintas e sempre se mantendo interligados, assim, o que acontece com o grupo no nível de sonho anterior, como algum distúrbio físico, será refletido através de algum abalo na física do nível seguinte. O que é mais incrível é que Nolan faz isso de maneira extremamente eficiente, mostrando-nos em vários momentos, níveis diferentes e sem tornar o filme incompreensível. Muito pelo contrário, o filme é de fácil compreensão, basta somente prestar atenção que tudo se encaixa perfeitamente. Só um diretor muito hábil e competente para trabalhar temas e situações complexas de forma tão simples e orgânica.

A fotografia do filme é um espetáculo a parte e aqui funciona de forma muito detalhada. Ela é tão importante que auxilia na questão dos efeitos do filme como na cena em que o corredor do hotel gira 360º, mantendo um enquadramento de câmera que vai de encontro com a sensação que o diretor quer proporcionar aos espectadores. Outro momento também que não só o enquadramento, mas como a movimentação de câmera são perfeitos, se dá na parte do filme que Arthur explica o conceito de paradoxo a Ariadne, o efeito das escadas infinitas, simplesmente genial.

A produção do filme realmente fez um trabalho divino, não somente em criar vários lugares e situações absurdas que o filme requer (a final trata-se de sonhos), mas também ter o cuidado de produzir cada lugar de acordo com a personalidade de cada personagem. Veja por exemplo que Arthur é um sujeito que aprecia arte do século passado, então o primeiro sonho do filme, onde ele e Cobb estão tentando roubar a informação de Saito, é repleto de quadros e uma iluminação em tom de amarelo escuro. Podemos facilmente concluir que aquele sonho pertencia a Arthur, pois o mesmo entra em colapso quando Cobb atira na cabeça do companheiro. Agora, quando entramos de novo no sonho e assim, no subconsciente de Arthur no hotel, o mesmo é decorado com o mesmo estilo, com luzes baixas, amarelas e com quadros nas paredes. Toda a decoração é similar a decoração do sonho inicial. Comprova-se então que aquele sonho pertence a ele pois é o único que permanece no hotel enquanto o resto do grupo entra em mais um nível de sonho.Esse tipo de perfeição, detalhes e cuidados minuciosos que fazem toda a diferença e tornam o filme perfeito.

Outro conceito que também foi abordado pelo filme é a questão do início do sonho. Ora, na realidade nunca conseguimos nos lembrar de como paramos em certos momentos em nossos sonhos, só nos damos conta quando já estamos em algum lugar, assim, todos os sonhos começam como se fossem a continuação de uma cena e sempre com “sonhadores” olhando de forma estranha, tentando reconhecer o lugar, nos primeiros segundos quando entram no sonho de alguém. Novamente são pequenos detalhes, mas que fazem toda a diferença.

A ORIGEM02

Assim como já mencionado, a duração de cada sonho. Os sonhos sempre foram atemporais, desprendendo-se do tempo estabelecido no mundo real, assim os sonhos podem durar minutos quando estamos dormindo há horas, como também o inverso. Isso é mostrado também ao longo do filme e é ainda intensificado quando eles precisam entrar em vários níveis diferentes, tornado o tempo de cada nível muito maior do que o anterior. Quer um exemplo: dez minutos na vida real podem se tornar duas horas no primeiro nível. Um mês no segundo e dez anos no terceiro. A trama proporciona momentos onde explora ainda mais essa diferenciação de um nível para o outro, pois enquanto em um sonho eles podem sofrer um acidente e ter o chamado chute para retornar, sendo que esse acidente está prestes a acontecer em segundos, isso dá um total de três horas no nível seguinte de sonho. Eles precisam então fazer de tudo para resolverem a situação nesse tempo para poderem realizar o chute no nível atual em que estão.

Isso nos remete a outro fator, os já mencionados chutes. Bom, como já foi dito os chutes são manobras proporcionadas aos sonhadores para que eles tenham a sensação de queda e assim retornem ao mundo real, ou ao nível anterior. Mas como somente este conceito estava simples demais para o diretor, sendo este Christopher Nolan, o mestre dos filmes complexos, ele decidiu incrementar algo neste conceito. Para conseguirem sair de vários níveis de sonhos eles precisam realizar o chute em sincronia. Ou seja, precisam realizar o chute no último nível, para que quando retornarem ao segundo nível, este já esteja no momento de ter o chute, e assim também no primeiro nível para que eles retornem sem problemas. Quer idéia mais genial que esta?

Mas como nada poderia faltar os olhos de Nolan, ele resolveu deixar as coisas mais difíceis para o grupo. Bom, se o grupo entrar em um ou no máximo dois níveis de sonhos, eles podem retornam sem problemas pelo chute ou se vierem a morrer de alguma forma. Isso elimina o fator preocupação do público com os personagens, pois se não puderem morrer, não há razão para temer. Então, como a ideia é entrar em mais níveis de sonho, para realizar este feito com sucesso, o grupo precisa estar sedado com um composto químico altamente forte. O problema é que se alguém morrer em algum nível de sonho, eles não poderão voltar, pois estarão sedados. Assim, a mente se perderá no que eles chamam de Limbo, um lugar onde não há nada, apenas pedaços de pensamentos das pessoas que um dia se perderam lá. O problema é que sair do Limbo é incrivelmente difícil, a pessoa precisa morrer quando o efeito da química do sedativo passar. A questão é que esse tempo corresponde a mais de cinqüenta anos no Limbo. Isso então deixa as coisas mais interessantes e o público fica na tensão para que não ocorra nada com o grupo.

Entrando no departamento de efeitos especiais, o filme realmente brilha por vários motivos. O primeiro é que Nolan não é do tipo de diretor que sai enchendo de efeitos somente para ter um visual interessante, mas o faz por pura necessidade de complementar a narrativa. Outro grande detalhe é que o diretor prefere utilizar ao máximo, cabos, cordas, fios para somente depois incrementar com computadorizarão, tornando a cena muito mais realista. Na cena em que Cobb e Ariadne estão conversando sentados em uma lanchonete e quando ela finalmente descobre que estão sonhando, o mesmo entra em colapso e tudo ao seu redor começa a explodir em pedaços até os atingirem. Se pensam que foi tudo criado por computador, estão enganados. O direitor realmente colocou atores e explodiu vários dos objetos em cena, somente para depois na pós produção adicionar mais itens por computador. Bom, acho que isto que diferencia um diretor do outro. Enquanto muitos preferiam somente fazer por computador e evitar “dores de cabeça”, Nolan realmente ama e acredita no que faz e isso é transparecido para os telespectadores. Outra cena que merece destaque é quando Ariadne tentam mexer com a física, fazendo uma parte da cidade erguer-se e encaixar com a outra, como uma caixa ao ser fechada, simplesmente deslumbrante. Outra cena que também não foi utilizada efeitos por computador, é quando o corredor do hotel começa a girar em seu próprio eixo, sendo realizado em um estúdio especial. Quem merece aplausos é o ator Gordon-Levitt que faz a cena brilhantemente ao lutar contra uma projeção do subconsciente durante o corredor girando, utilizado apenas cabos por medidas de segurança.

As atuações do filme são perfeitas. Temos Leonardo DiCaprio encarnando um Cobb muito parecido com seu papel em A Ilha do Medo, sempre persistente e com um trauma do passado que o assombra constantemente. Ken Watanabe como sempre faz seu papel com brilhantismo, assim como Ellen Page faz a arquiteta com muita competência, sempre conferindo charme e inteligência em seu papel. Joseph Godon-Levitt está sensacional em seu papel, no que seria o seu primeiro “grande” filme, conferindo o papel de um Arthur com precisão, sendo ele o mais “racional” do grupo. Sua similaridade com o falecido Heath Ledger é espantosa – sendo que eles já participaram juntos de 10 Coisas que eu Odeio em Você. Quem da um show de atuação também é Tom Hardy que faz o papel com a maior naturalidade, nos passa um ar de que ele está tranqüilo com o papel – passa o ar de domínio total de seu personagem – certamente um dos destaques do filme. O mais importante que ter somente estrelas no filme, é a química dar certo e aqui ficou provado que eles estão em perfeita sintonia.

Enfim, A Origem é um filme ousado, complexo e muito bem realizado por todos. Podemos perceber que foi um filme minuciosamente pensado, até em seus mínimos detalhes. Inteligentíssimo até seus últimos minutos, A Origem certamente se classifica como um dos melhores de 2010, um verdadeiro presente pra quem ama o cinema. Quer algo melhor do que o filme inteligente? Sim, um filme inteligente e que ainda deixa um grande ponto de interrogação em sua última cena, fazendo com que os telespectadores saiam da sala discutindo e formando suas próprias interpretações do filme. Só mesmo Nolan para fazer algo desta magnitude em um filme tão perfeito, que chega até ser um sonho.

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PRÊMIOS

CCINE 10
Indicações: Melhor Filme e Melhor Direção – Christopher Nolan

OSCAR
Ganhou: Melhor Fotografia, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som e Melhores Efeitos Especiais

Indicações: Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora

GLOBO DE OURO
Indicações: Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor – Christopher Nolan, Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora

BAFTA
Ganhou: Melhor Direção de Arte, Melhores Efeitos Especiais e Melhor Som

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor – Christopher Nolan, Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhor Roteiro Original e Melhor Edição

CÉSAR
Indicação: Melhor Filme Estrangeiro

GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO
Indicação: Melhor Filme Estrangeiro

MTV MOVIE AWARDS
Indicações: Melhor Filme, Melhor Luta, Melhor Beijo – Joseph Gordon-Levitt e Ellen Page, Melhor Performance Assustada – Ellen Page e Melhor Diálogo – “You mustn’t be afraid to dream a little bigger darling”

TRAILER

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