A OVELHA NEGRA (Crítica)

OVELHA NEGRA

4estrelas

Por Juca Claudino

VIDAS QUE SE CONFUDEM COM AS OVELHAS

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A temperatura média no auge do verão islandês é de 11°C, 13°C. No inverno, esses números alcançam a marca de -11°C, -12°C. O cinema nórdico tem o estereótipo de ser frio, trágico e pessimista, repleto de dramas humanos e regados a muita depressão. Eu, particularmente, não gosto muito de me basear em estereótipos, uma vez que eles nos guiam a retratos equivocados (por exemplo, os filmes “A Aventura de Kon Tiki”, “Italiano para Iniciantes” e “Força Maior” já desconstruiriam esse em segundos). Todavia, no caso do longa islandês “A Ovelha Negra”, a película parece reafirmá-lo: 1) porque é inegável que uma obra cultural está atrelada não só ao seu contexto histórico, mas geográfico; 2) o filme de Grímur Hákonarson traz para si todos esses adjetivos. De fato, a atmosfera gélida e pálida do filme, que traz uma estética tão decadente e oposta a qualquer tipo de idealização, faz com que presenciemos uma inexistência de vida, algo sufocante. Um algo sufocante que retrata o isolamento, a solidão, e a necessidade existencial de achar um sentido para a vida, o que o filme debate nessa obra que se mostra complexa sobre o seu desenvolvimento narrativo: de uma crônica “realista” (com alguns momentos de alívios cômicos), migramos progressivamente para um drama psicológico que, no final do filme, ganha inclusive contornos um tanto surreais. No final das contas, a produção vencedora do Un Certain Regard do Festival de Cannes desse ano – e indicada ao European Film Awards (Prêmio do Cinema Europeu), organizado pela Academia de Cinema Europeu, de Melhor Filme – é verdadeiramente impactante.

É necessário falar que o estereótipo citado sobre os filmes dessa região fazem muito mais referência a algo forjado até a década de 60 (com ênfase nos filmes de Dreyer e Bergman, além de dois momentos históricos importantes: na era do cine mudo e na década de 50), que não necessariamente diz à verdade porém mostra como tais filmes foram “rotulados” internacionalmente. No século XXI, todavia, é hipócrita e mentiroso dizer que a produção nórdica apenas se baseia em tragédias e angústias: o dinamarquês Nicolas Widing Refn já ganhou fama internacional fazendo filmes ultraviolentos e extravagantes como “Bronson”, Petter Næss com sua comédia “Elling” dão um toque pastelão à produção cinematográfica da região gelada e “A Aventura de Kon-Tiki”, de Joachim Ronning e Espen Sandberg, tem uma abordagem muitas vezes épica. Todavia, filmes como “A Caça”, de Thomas Vinterberg, trazem o pessimismo e a escuridão tão marcantes e repercutidas (para os nórdicos) de volta à cena, e os filmes de Roy Andersson como “Um Pombo Sentou no Galho e Refletiu Sobre a Existência” flertam bastante com a tristeza. Além disso, há Lars Von Trier com seu cinema já muito conhecido e Susanne Bier com seus dramas humanos que debatem felicidade, moral e etc. Mas o islandês “A Ovelha Negra” é um filme que verdadeiramente acata a “tradição nórdica” de fazer algo tragicamente melancólico e pessimista. O diretor Grímur Hákonarson nos sufoca com aquela imensidão inabitada dos vales islandeses, onde usa uma paleta de cores pálidas para representá-las. O resultado é uma “natureza morta”, gélida e depressiva.

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A história é um drama existencial. A relação que constrói entre os seus protagonistas, Gummi, vivido por Sigurdur Sigurjónsson, e Kiddi, vivido por Theodór Júlíusson, com a criação de ovelhas é poderosamente angustiante. É notável a forma como aqueles homens vêem em seu rebanho, verdadeiramente, a razão para existirem. A natureza-morta do filme é metafórica: não há vivacidade naquelas vidas, apenas isolamento. Chega, inclusive, a usar uma linguagem “determinista”: a imensidão fria e inabitada exposta na tela reflete o sentimento dos nossos dois protagonistas, o de solidão e exílio, que somente encontra fim quando dedicam-se à tradicional arte de criar ovelhas. Ainda existe uma zoomorfização nas suas aparências físicas, que carregam longos cabelos e barbas brancas. É necessário citar que os dois protagonistas são irmãos, os quais não dialogam por 40 anos e apenas se encontram nos concursos de “melhor fazendeiro” do vale. Um fator interessante do filme é que ele não nos contextualiza sobre aqueles personagens: por que não se falam? Por que amam tanto cuidar de ovelhas? Aqui, a questão principal é desenvolvê-los em um aspecto psicológico-emocional. Mas não pense ser bizarra a escolha de ovelhas para o centro da trama – na Islândia, país cuja produção cinematográfica é pouco aquecida, existem cerca de 800.000 ovelhas e 320.000 pessoas, segundo dados do próprio Hákonarson, que ainda acrescenta serem animais simbólicos para o país. E assim, no desenvolvimento do filme, que ao iniciar-se demonstra ser uma crônica realista, inclusive trazendo com a estética da película algo desse universo, quando somos apresentados à questão-problema do roteiro, baseada no decreto de que todos os rebanhos da região terão de ser mortos graças a uma doença, progressivamente migramos para um drama psicológico de estudo de personagem (no caso, os dois irmão) interessantíssimo: sendo Gummi um conformista e Dikki explosivo quando descontente, o filme carrega essa oposição de instintos que serão expostos no momento em que a única razão para viverem de ambos é lhes tirada, e esses são postos numa situação de desespero. A maneira como nós somos colocados dentro do sofrimento de ambos os irmãos gera essa experiência torturadora e depressiva – a qual os atores protagonistas são essenciais durante sua construção – que culmina em um final impactante – quebrando inclusive com a verossimilhança do longa, de forma magistral!

Sturla Brandth Grøvlen, o diretor de fotografia, faz um trabalho que (como já deu para entender) está brilhante – ele também assina outro filme com fotografia fascinante desse ano, o alemão “Victoria”, e mostra-se um jovem talento – enquanto Hákonarson, que com 38 anos consegue seu primeiro sucesso internacional, me deixou curioso para seu próximo longa (que, tendo iniciado sua carreira em 2002, dirigiu 7 produções segundo dados da IMDb, sendo 4 longas – 2 documentários e 2 ficções – e 3 curtas). A cultura islandesa é mundialmente conhecida pelo visual gelado de sua flora e pelos álbuns da Bjork (que está muito bem em “Dançando no Escuro”, de Von Trier, diga-se de passagem), e agora temos um filme como esse: um estudo singular de personagens dialogando com uma estética de natureza-morta para fazer algo verdadeiramente melancólico, que desenvolve um drama intenso e impactante com alguns momentos de alívio cômico (que não fazem o filme perder o tom da tragédia). Realmente, o mundo não vai tirar os olhos do cinema da Suécia, Islândia, Dinamarca, Finlândia ou Noruega tão cedo assim…

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SINOPSE

Em um tranquilo vale de fazendas agrícolas na Islândia, dois irmãos que não se falam há 40 anos, precisam se unir para salvar o que há de mais valioso para eles – suas ovelhas.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Grímur Hákonarson” espaco=”br”]Grimur Hakonarson[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Grímur Hákonarson
Título Original: Hrútar | Rams
Gênero: Drama
Duração: 1h 32min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 anos
Lançamento: 11 de fevereiro de 2016 (Brasil)

TRAILER

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