A PAIXÃO DE JL (Crítica)

A PAIXAO DE JL

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Por Juca Claudino

VIDA E DOR DE LEONILSON

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O documentário de Carlos Nader “A Paixão de JL” é verdadeiramente agonizante. O diretor, com seu cinema experimental, alcança um filme bastante intenso, e o melhor, intensidade essa (ou potência, como Nader gosta de usar) tirada de algo em si simples e comum, bem como desejava: depoimentos inofensivos e particulares de um alguém que poderia ser qualquer um – embora seja o artista cearense Leonilson – são mostrados de forma exageradamente humana, capaz de nos provocar a empatia suficiente para sentir toda a dor dos últimos dias do “JL” – José Leonilson. O que presenciamos é, verdadeiramente, uma viagem por dentro do psicológico de “Léo” (como Nader chama Leonilson, já que eram amigos íntimos), um alguém vivendo seus últimos anos de vida. Com muita sensibilidade, “A Paixão de JL” é um interessantíssimo trabalho, baseado em fitas gravadas pelo próprio Leonilson durante os últimos três anos de sua vida, onde falava sobre o que sentia e o que vivia.

Carlos Nader gosta de se assumir como um diretor experimental. E diz isso pois, como afirmou em entrevista ao Ccine10, vê a realização de um filme como uma experiência de vida, aonde a obra de arte tem sua autonomia e, então, ao mesmo tempo em que você precisa criar parte dela, precisa também deixar-se levar por essa sua autonomia, por essa sua vida própria… e o resultado assim se torna algo um tanto imprevisível. E, curiosamente, isso acaba sendo bem perceptível no seu novo filme, “A Paixão de JL”. É difícil, portanto, falar que Nader tinha algum objetivo enquanto fazia esta película, mas que no fim ela faz um retrato emocional, psicológico e um tanto espiritual dos últimos tempos de vida do artista cearense Leonilson, isso é verdadeiramente sentido ao término da sessão. Um filme que é melancólico, triste e agonizante: penetrar tão profundamente na mente de um alguém que vivia momentos tão trágicos é algo bem depressivo independente de quem estejamos falando – e aparentemente o diretor percebeu isso, algo que já iremos discutir. Porém, grande parte desse efeito é gerado não por algo bolado por Carlos Nader: são aqueles relatos, gravados em fitas há quase 25 anos, que conduzem toda a sensibilidade do filme. Nota-se que o feito por Nader foi olhar aquilo e investigar, estudar ou, como gosta de dizer, “sentir” para com isso desenvolver o filme, sempre guiado pelo seu material inicial: as fitas. Aquilo que chamou de “experimental” é, portanto, a essência de “A Paixão de JL”, e o que o torna tão singular – assim como tantos outros longas do diretor, como “Homem Comum”.

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Além disso, é como se, a partir daquelas pequenas impressões de Leonilson sobre a vida, Nader criasse um “macrocosmo” que se relaciona com elas: as pinturas e esculturas mostradas no filme, de autoria de Leonilson, se relacionam completamente com os pensamentos que o artista nos revela em seus depoimentos, ao mesmo tempo em que o roteiro desenvolve o cenário sócio-político da época em que as fitas foram gravadas, assim fazendo o que Nader chamou de “trança de camadas narrativas” (essa sobreposição de diferentes elementos e abordagens), como se estivesse expandido e/ou materializando as angustias do “Léo” para algo maior do que sua pessoa física. E, se para o diretor o filme é algo aberto, que só se completa a partir do olhar do espectador, este documentário realmente nos permite chegar a diversas conclusões sobre inclusive o fenômeno da vida.

Mas se há algo em que realmente o filme se torna interessante, esse algo é exatamente o que Carlos Nader chamou de “tirar potência da simplicidade”. De afirmações tão comuns e até mesmo cotidianas, já que é o inocente desejo de Leonilson em encontrar um espaço feliz em sua vida o que majoritariamente expressa nas suas fitas (coisa que todos nós queremos, é quase que instintivo), Nader gera essa empatia exageradamente humana a ponto de sentirmos todas as dores do “Léo”, catarticamente. E o fazemos isso também porque (aqui retomamos aquela discussão do segundo parágrafo, como prometi) o artista cearense, nesse filme, se torna algo unicamente sensorial, como se sua identidade e aparência física, ao final das contas, não interessassem àquele que assiste o filme, mas sim suas emoções, que poderiam ser as emoções de qualquer um na plateia (ou seja lá onde você esteja assistindo o filme), inclusive suas. Até porque, estamos falando de uma viagem por entre as entranhas sentimentais e existenciais de um homem na beira de seus momentos finais. Logo, não é colocar um grande artista sobre um palco e aplaudi-lo que iremos fazer nesse “A Paixão de JL”, mas sim compartilhar do sofrimento de um alguém que poderia ser qualquer pessoa. A diferença, todavia, se encontra no fato de que o diretor quis aqui prestar uma homenagem a um amigo e a um importante artista recente, ícone da chamada “Geração 80” (um grupo de artistas que, durante a penúltima década do século XX, marcou a arte brasileiro, e dentre os quais se encontram Daniel Senise e Beatriz Milhazes), além de abrir um leque gigante a debates e reflexões.

“A Paixão de JL”, ou a dor de JL se preferir, é uma grande abstração visual que cria um filme sensorialmente depressivo e, como arte em si, transcendente. Um filme experimental feito para ser vivido como um, sentido como um. De fato, é um documentário tão alucinante e humano que a “transe” cinematográfico provocada por ele se torna viciante. Um ótimo filme, sobretudo.

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SINOPSE

Em Janeiro de 1990, o artista plástico José Leonilson começou a gravar um diário em fitas cassete. Ele imaginava, desde o príncipio, deixar um registro público de suas memórias do cotidiano, em sintonia com seu trabalho na pintura. O que ele não imaginou foi a transformação deste cotidiano depois que descobriu ser portador do HIV.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Carlos Nader
Título Original: A Paixão de JL
Gênero: Documentário
Duração: 1h 22min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 25 de fevereiro de 2016 (Brasil)

TRAILER

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