A TRÊS VAMOS LÁ (Crítica)

Pedro Vieira

Entre 4 paredes, à 3 pessoas.

Sexo e cinema. Assim como tudo na sociedade, essa relação foi dinâmica ao longo das gerações. Dos primórdios da sétima arte, com os filmes pornográficos “experimentais”, pulemos para a década de 1960, momento da contracultura, momento no qual a crítica Carol King descreveu afirmando que “trouxe consigo uma nova atitude perante o sexo, a juventude, as drogas e a liberdade pessoal, influenciando as artes em geral e levando a censura ao seu limite”. Nesse momento, filmes como “A Bela da Tarde”, de Luis Buñuel, ou “A Mulher Inseto”, de Shôhei Imamura, provocavam a sociedade com suas insinuações eróticas, ao mesmo tempo em que Hollywood se reinventava após a época de ouro do pós-guerra, dando brechas mais erotizadas em filmes como “A Primeira Noite de um Homem”, de Mike Nichols. Nagisa Oshima, mestre do cinema japonês da segunda metade do século XX, dirigiria “O Império dos Sentidos” em 1976, um marco para a representação das relações sexuais no cinema. A partir daí tivemos diretores como Lars Von Trier e Gaspar Noé e tantos outros que se somam a essa história…

Bom, por que para essa crítica de “À 3 Vamos Lá” foi feita uma reconstrução da relação entre cinema e sexo? Porque durante o filme, a forma como o diretor Jérôme Bonnell impõe uma expressividade tão grande às inúmeras cenas de sexo nele presente o torna algo que, apenas por isso, vale a pena. Um intimismo tão expressivo, capaz de gerar uma potência sentimental e sensorial ardente na tela. O longa não seria o mesmo se não fossem tais cenas, que descrevem imageticamente um misto de erotismo e paixão que cada um dos três personagens protagonistas sentem pelos outros dois. O sexo aqui é um personagem à parte, que traduz sem nenhuma palavra o inocente e contagiante desejo de Melódie, Micha e Charlotte.

Mas o que conta “À 3 Vamos Lá” para ser algo tão importante entender essa relação do sexo com o filme? Bom, os três personagens protagonistas, Melódie (interpretada de forma graciosa e apaixonante por Anaïs Demoustier), Micha (Félix Moati, indicado ao César – o prêmio do cinema francês – de Atuação Revelação por esse papel) e Charlotte (Sophie Verbeeck, menos graciosa e mais efervescente que a Melódie de Demoustier, porém tão bem interpretada quanto) estão em um triângulo amoroso, e cada um desses vem sofrendo fortes paixões, carnais e platônicas, pelos outros dois – e você aí chorando porque não consegue encontrar umazinha pessoa se quer… Bom, fato é que o sentimento deles em tela se transforma em mais que uma casualidade. Principalmente para Melódie, a qual acompanhamos mais particularmente sua história dentro do filme do que a história de Micha e Charlotte. Uma jovem cuja a recente vida adulta é marcada ora pela monotonia da vida de classe média em um olhar superficial, mas ora marcado por constantes dúvidas pessoais e profissionais. Melódie é uma mulher e trabalha como advogada, precisando defender (por uma imposição econômica, pelo fato daquele ser seu “ganha pão”) por exemplo um homem estuprador no tribunal. Seu suspiro, sua alienação do decadente momento em que vivia está exatamente no amor que sente por Micha e Charlotte. O sexo em cena é o que irá provar e transmitir esse sentimento de alívio e êxtase por parte não só de Melódie, mas dos outros dois também (é como se Bonnell pegasse a personagem de Demoustier só como exemplo).

É muito interessante como a atmosfera entre os momentos “cotidianos” dos personagens, quando estão no trabalho ou andando na rua, inverte-se nos momentos de intimidade e relação sexual. No primeiro caso, a fotografia de Pascal Lagriffoul e a direção de Bonnell busca uma neutralidade inexpressiva, comum. No segundo, já temos um abuso de planos detalhes, um jogo de luz mais explorado, a imagem se torna mais subjetiva e intrigante… tudo fica mais inquieto e potente. O resultado disso é essa incrível postulação do amor como um contraponto à rotineira e desinteressante, quando não frustrante e entristecedora, vida cotidiana – uma visão do amor, seja platônico, seja carnal, seja à 2, à 3 ou à 10, como uma aventura de um singular êxtase e uma singular felicidade, capaz de superar inúmeros outros sentimentos que tenhamos. Mas para completar uma crônica mais provocativa, o roteiro também escrito por Jérôme Bonnell com parceria de Maël Piriou acrescenta detalhes folhetinescos e cômicos à obra: a sinopse diz que Micha e Charlotte namoram, porém Charlotte gostava também de Melódie e esta era recíproca. Isso até Melódie descobrir que, após conhecer Micha, também gosta dele e Micha a corresponde. Micha trai Charlotte com Melódie e Charole trai Micha com Melódie, e essas traições não podem ser descobertas porque… são traições. Ou seja, essa confusão meio “Sonho de uma Noite de Verão” dá estrutura a esse delicado longa.

Curiosamente, no cinema francês temos vários exemplos de triângulos amorosos: Truffaut fez isso em seu “Jules et Jim” de 1962, bem como Bertolucci (que é italiano, mas ok) em seus “Os Sonhadores” de 2003. Nesse caso, temos um sensível e interessante retrato de um triângulo. No filme existe uma fala condenável de um ponto de vista social (um momento Charlotte fala para Melódie, para provar como estava excitada, que o vestido usado pela personagem de Demoustier era “um convite ao estupro” – como se a roupa da vítima de um estupro fosse diferente a ponto de poder justificar a ocorrência de um…). Isto manchou um pouco um filme que vale a pena. Neruda falava que “é proibido não demonstrar amor”, e os 3 personagens de “À 3 Vamos Lá” foram fieis a essa ordem.

A TRES VAMOS LA

SINOPSE

Charlotte (Sophie Verbeeck) e Micha (Félix Moati) estão apaixonados. Recentemente, eles compraram uma casa perto de Lille, na França, e pretenderm viver felizes para sempre. Meses depois, Charlotte começa a trair seu amado com Mélodie (Anaïs Demoustier). Sem suspeitar de nada, ele se sente abandonado e começa a trair Charlotte também com Mélodie. Cúmplice desse segredo Mélodie está com a cabeça girando, porém, ela está apaixonada pelos dois.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Jérôme Bonnell” espaco=”br”]Jerome Bonnell[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Jérôme Bonnell
Título Original: A trois on y va
Gênero: Comédia, Romance
Duração: 1h 26min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 14 de abril de 2016 (Brasil)

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