A VINGANÇA ESTÁ NA MODA (Crítica)

Juca Claudino

Vingança e vaidade nas suas versões retrô

O título original deste longa dirigido por Jocelyn Moorhouse é “The Dressmaker” (algo como “A Costureira” na tradução literal), porém seu título no Brasil – o qual você já deve ter notado ser “A Vingança Está na Moda” – é muitíssimo mais interessante e expressivo para a película. A “vingança” não é um ato idealizado na nossa cultura, sua representação sempre foi mostrada como uma “imperfeição” humana. E o filme, no fim das contas, é uma história escrachada e caricata escondida por detrás de um visual sofisticado, que consegue gerar um divertido retrato das “vaidades” e “imperfeições” humanas, do egoísmo e até mesmo da ignorância. O sentimento de vingança é presente no filme todo, e ocorre de diversas formas: acusada de ter assassinado um garoto quando era criança, Myrtle ‘Tilly’ Dunnage (Kate Winslet) volta a sua pequena cidade natal (um vilarejo na Austrália rural – e aqui vale citar que a história se passa na década de 50) anos depois do ocorrido exatamente para lembrar do que de fato aconteceu (em sua memória, não tinha lembranças alguma de qualquer assassinato que tenha cometido). A partir daqui, vemos uma população raivosa e odiosa em relação à imagem de Tilly graças à sua fama de assassina, ao mesmo tempo em que Tilly aos poucos reage a esse ódio com mais ódio – a ideia aqui é ridicularizar esse círculo vicioso de ódio, tentando com isso gerar um humor (nisso “A Vingança Está na Moda” é bem efetivo).

Mas dos dois substantivos do título, “Vingança” e “Moda”, falta ainda comentar o segundo. E esse segundo é onde o filme mais chama a atenção da maioria do público, graças ao seu encantador trabalho visual: Tilly é uma estilista, e ao voltar para sua cidade natal começa a trabalhar fazendo roupas para os habitantes da cidade. E de figurinos cafonas, essa cidade passa a estar recheado de vestidos deslumbrantes, o que dá certa popularidade a nossa protagonista no seu vilarejo natal. Veja só que antítese: a cidade toda demonstra um certo julgamento e ódio pela costureira graças a sua fama passada, porém ao mesmo tempo é respeitada e requisitada graças aos seus serviços à vaidade de sua população. Como disse, eis o ” retrato das ‘vaidades’ e ‘imperfeições’ humanas”. E, para finalmente falar dela, a estética do longa visualmente é peculiar e elegante, fazendo referência a algo retrô e inclusive noir, dando toques sofisticados e extravagantes à atmosfera dessa comédia – se você gosta do estilo vintage, certamente irá adorar os tons saturados da fotografia e os figurinos meio “Bonequinha de Luxo” de “A Vingança Está na Moda”.

A diretora desse longa, Jocelyn Moorhouse – e, claro, sempre devemos lembrar da falta de visibilidade que as películas dirigidas por mulheres sofrem frente as dirigidas por homens – teve como seu filme mais repercutido até hoje “A Prova”, estrelando Hugo Weaving e Russel Crowe. Algo curioso, já que se nesse filme ela faz uma tragédia, aqui em “A Vingança Está na Moda” dirige uma comédia empolgante que, em diversos momentos, consegue te surpreender: quando aparenta ser uma comédia romântica bem usual, acaba escorrendo levemente para algo meio trash (e um tantinho surreal, mas bem tantinho) e provoca uma virada na sua temática. E isso se deve principalmente ao personagem de Liam Hemsworth (nomeado Teddy McSwiney, o qual tem um romance com Tilly), o único que, em meio à vaidade, aparenta uma mínima fuga da busca pela “vã cabiça” – sim, o galã da história, o símbolo dos padrões de beleza, é o personagem mais idealizado de todos. Mas, talvez por ser a alma menos vaidosa da cidade, é um evento envolvendo Teddy que marca uma virada do filme – o qual não posso contar, evidentemente.

Não posso terminar essa crítica sem falar, por fim, da maravilhosa Kate Winslet. Vencedora do Oscar por “O Leitor”, novamente está extremamente cativante e encantadora na sua atuação: ao interpretar Tilly, dá um toque caricato e ao mesmo tempo convincente e carismático a sua personagem, e consequentemente concede sentimentalismo ao longa. A Austrália tem o seu circuito de premiações cinematográficas (o Australian Film Critics Association Awards, o Australian Film Institute e o Film Critics Circle of Australia Awards). E em todos Kate Winslet acabou ficando com o prêmio de melhor atriz – “A Vingança Está na Moda” é um filme australiano, se eu ainda não falei – enquanto Hugo Weaving também foi muito premiado pelo seu papel como sargento Farrat. Todavia, devemos falar que, nesse papel, Weaving acaba caindo em uma figura ultra estereotipada e ultra rotulada.

A VINGANCA ESTA NA MODA

SINOPSE

Tilly Dunnage (Kate Winslet) fugiu da cidade rural em que vivia na Austrália depois de ser acusada de ter se envolvido em um assassinato. Ela parte para a Europa e lá conquista fama e reconhecimento por seu trabalho na alta costura. Decidida a acertar as contas com seu passado, Tilly retorna para casa, transformada em uma mulher atraente e sofisticada. Com sua máquina de costura e estilo haute couture, ela transforma a vida das mulheres e chama a atenção dos homens, em especial de um jovem (Liam Hemsworth). Logo, ela demanda a doce vingança de quem por anos duvidou de sua palavra.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Jocelyn Moorhouse” espaco=”br”]Jocelyn Moorhouse[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Jocelyn Moorhouse e P.J. Hogan
Título Original: The Dressmaker
Gênero: Comedia, Drama
Duração: 1h 58min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 19 de maio de 2016 (Brasil)

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