AGNUS DEI (Crítica)

Kadu Silva

O estupro pelo olhar religioso

Parece até encomendado, se pensarmos o terrível acontecimento que ocorreu no Brasil a pouco meses atrás da jovem que foi violentada por 33 homens na cidade do Rio de Janeiro, mas Agnus Dei é o segundo filme no ano que fala sobre estupro coletivo, mas dessa vez ele se dá mais como um ato de dominação e pouco sobre o desejo sexual propriamente dito.

Durante a Segunda Guerra Mundial, diversas freias polonesas são violentadas por soldados inimigos dentro do convento onde vivem e isso leva a sete delas engravidarem e outras tantas ficarem enfermas com doenças sexualmente transmissíveis. Eis que Mathilde (Lou de Laâge), uma enfermeira francesa que trabalha na Cruz Vermelha durante a guerra se infiltre no convento para fazer o parto delas e também tratar as doentes, mas isso faz com que elas sofram por acharem que estão violam os votos de castidade e acabam inicialmente se recusando a deixar que as enfermeiras toquem em seus corpos.

O roteiro da também diretora Anne Fontaine (A Garota de Mônaco) e Pascal Bonitzer (Não Toque no Machado) busca narrar esse drama pelo olhar naturalista, sem usar de recursos melodramáticos ou alegorias estéticas. O interessante da história é que ela coloca à tona o debate sobre o olhar religioso diante do estupro. Em quase todas as religiões é dito como algo que não se pode fugir, caso ocorra a gravidez, mas as mulheres freiras passam por momentos de não saber lidar com algo que não foram preparadas para ter e acabam rejeitando o filho ou mesmo se apegando demais, ou seja aflora dentro delas sentimentos que estavam adormecidos é um estudo psicológico muito interessante. A diretora espertamente usa da palheta acinzentada, como elemento visual que reflete o estado emocional dos personagens, frio, sem esperança e coberto por medo e dor, reforçando o período retratado.

E para ampliar o olhar sobre o tema, tem a personagem da enfermeira Mathilde que é comunista e ateia e que mesmo sendo completamente diferente e fora do meio das vítimas, entra em comunhão da dor e tenta currar não só as dores físicas, mas também da alma, é uma relação difícil no início que aos poucos encontra a confiança para se estreitar.

Apesar de todos os méritos, o filme acaba se perdendo em não colocar sua lenta acima dos diversos casos de gravidez, se limitando em sua reflexão sobre o caso. Não se sabe muito dos acontecimentos reais da guerra no entorno do convento, e mais que isso as outras freiras também violentadas não merecem atenção na trama. Se não bastasse isso o final acaba tendo uma resolução que pode não agradar muitos.

Agnus Dei é um ótimo filme, principalmente por colocar em pauta um assunto polêmico, ainda mais narrado pela ótica religiosa. Ou seja é um tema que precisa ser alvo de debate intenso para que não se repita jamais.

AGNUS DEI

SINOPSE

Durante o fim da Segunda Guerra Mundial, na Polônia, a enfermeira francesa Mathilde (Lou de Laâge) descobre que as freiras moradoras de um convento vizinho foram estupradas por soldados invasores. Muitas delas estão grávidas. Apesar da ordem de prestar socorro apenas aos franceses, Mathilde começa a tratar secretamente de todas as freiras e madres. Ela deve enfrentar os julgamentos das próprias pacientes, que se sentem culpadas por terem violado o voto de castidade, e se recusam a ter o corpo tocado por quem quer que seja, mesmo uma enfermeira.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Anne Fontaine e Pascal Bonitzer
Título Original: Les Innocentes
Gênero: Drama
Duração: 1h 55min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 14 de julho (Brasil)

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1 Comentário

  1. ricardo klass

    A necessidade de se tratar de um assunto muito desagradável justo para encontrar meios de modo que nunca mais se repita, o jargão popular “tocar na ferida”. Saindo da sala de projeção impossível sentir algum alívio pelo que acabamos de presenciar, freiras polonesas violentadas por soldados durante a segunda guerra mundial: as que não engravidaram contraíram doenças venéreas, senão as duas coisas. Não passamos de animais adestrados com sentimentos primitivos sublimados como desejo sexual e a vontade de matar nossos desafetos. Nesse ponto até os mais ardorosos ateus e agnósticos concordam que o freio moral e sentimento de culpa são ferramentas úteis no controle e adestramento de feras, no caso nós.
    O roteiro muito bem elaborado pela também Diretora francesa Anne Fontaine coloca todos numa enorme saia justa, religiosos e ateus: se por um lado a Igreja Católica tem muita dificuldade de lidar com a cultura do estupro e a gravidez trágica/involuntária das freiras – quebra do voto de castidade e aborto são pecados capitais, e agora? – por outro lado fere com lâmina afiada a falta de respeito e humanidade de camaradas comunistas que impõem a força física sobre mulheres sem capacidade de defesa, não temendo a nada já que não acreditam na punição divina.
    O dilema político moral se estabelece de forma muito clara a partir do momento que Mathilda, médica francesa da Cruz Vermelha, de família e orientação comunista quebra as regras e passa atender durante suas poucas horas de folga – de madrugada, portanto – todo convento tomado pelas doenças e freiras gestantes. Num primeiro momento considera inaceitável o segredo mantido com risco de excomunhão, mas ao saber que elas foram vitimadas por camaradas soviéticos Mathilda começa mergulhar num Oceano de questionamentos muito mais amplo aquela única interface oferecida pelas suas ideologias abrigadas até então. O clímax da revolta se dá durante seu retorno solitário durante a madrugada ao hospital a médica tem seu veículo com as insígnias da Cruz Vermelha parado no caminho por soldados russos. Seguindo instinto animalesco e aproveitando da oportunidade eles tiram ela do veiculo e iniciam à beira do acostamento mesmo o traumatizante ritual para submeter Mathilda ao estupro coletivo: uma sorte cinematográfica fez que o único que não estivesse embriagado fosse justamente o oficial responsável, que arrancou cada soldado no pontapé com a mesma eficiência que eles destruíram as roupas dela.
    Ficamos com a impressão que o filme foi encomendado se levarmos em conta o bizarro recente quando uma jovem foi subjugada por mais de trinta homens no Rio de Janeiro. Uma faceta psicológica tempestiva, uma vez que a igreja combate e criminaliza o aborto, mas na medida em que vem as crianças as freiras se apegam e deixam a religião pela excomunhão.

    RK.