ALÉM DAS PALAVRAS (Crítica)

Juca Claudino

Se foi “além” mesmo, talvez não tenha ido do melhor jeito.

Terrence Davis é um sujeito que sabe muito bem conduzir filmes ternos e românticos sem ser sensacionalista e exagerado. Sua filmografia foi majoritariamente construída na Grã Bretanha, e assim assina belíssimos filmes como “Vozes Distantes” e “Amor Profundo”. Sua doçura na atmosfera do filme e inocência dos personagens não são suficientes para inibir a força da dor que corrói a existência destes, perseguindo-os pelos dilemas morais, injustiças sociais ou ainda pelo vazio sentimental.

Seus personagens são sempre perseguidos por pesares e angústias intermináveis. Ou seria Davis que os sabe recortar da realidade e colocá-los em um patamar reinante? Talvez um pouco dos dois, dado que seus filmes muitas vezes tratam da guerra, da condição da classe trabalhadora ou, como neste “Além das Palavras”, da opressão da mulher na sociedade e na organização familiar.

Seu estilo de cinema é clássico. Usa da dramática com poucas cenas de algum vanguardismo, pensando na dimensão trágica dos seus personagens e fazendo de suas falas o grande fio condutor da narrativa. É um cinema bem romanesco, de lembrar a nostalgia pré-nouvelle vague e a sofisticação de John Ford e Howard Hawks para contar uma história. Contudo, seu cinema vai além de uma recreação, uma vez que trata com convicção e torpor os dilemas postos pelo drama – como o da guerra, o da solidão ou o do amor -, embora idealize a amargura proveniente destes.

Contudo, “Além das Palavras” não consagra-se como dos seus melhores trabalhos (ao menos pela reação instantânea da crítica). E, para esta crítica, há razão nisto: é um filme de altos e baixos, de pontos fundamentais do roteiro que não funcionam, mas também de belo trabalho estético. Contudo, Davis é um sujeito clássico, e sendo assim quando seus diálogos soam como irrisoriamente artificiais e os personagens não surtem a empatia necessária durante o filme este não terá êxito artístico – seja lá o que isto for… Pelo menos não terá êxito quanto a forma que é projetado em um plano ideal de resultado final.

Mas talvez o que tenha sido pior para “Além das Palavras” sejam as comparações da expressividade deste com as da lírica de sua protagonista, Emily Dickinson. Caro espectador que vai ao cinema ver a nova obra de Davis: não considere este longa uma tentativa de emular a paixão e pujança da dolência da mestra poetisa, mas sim como uma mera homenagem a tal. Embora seja perceptível a influência da obra de Dickinson em Davis, com as temáticas de dor, solitude e desconsolo, além das breves abstrações oníricas na obra de Davis que podem ser postas em paralelo às imagens surrealistas de alguns dos poemas da estadunidense, ao menos em “Além das Palavras” não se atinge a transcendência de versos (traduzidos por Pulo Henrique Britto) como estes escritos:

Noites Loucas — Noites Loucas!
Estivesse eu contigo
Noites Loucas seriam
Nosso luxuoso abrigo!

Para Coração em porto —
Ventos — são coisas fúteis —
Bússolas — dispensáveis —
Portulanos — inúteis!

Navegando em pleno Éden —
Ah, o Mar!
Quem dera — esta Noite — em Ti
Ancorar!

Logo, já se deve saber a sinopse do filme: narra a paixão (como deduz o título original do longa, “A Quiet Passion” – talvez em um sentido crístico do termo, já que este deduz “sofrimento” em um sentido mais arcaico) da poetisa estadunidense Emily Dickinson, cujo gênio foi oprimido e durante sua vida silenciado pelo machismo, o qual guardou o seu reconhecimento apenas para a posterioridade e a tornou, pelos padrões de gênero impostos, uma pessoa amargurada por toda vida lhe tentarem reduzir a um mero objeto domiciliar. Finalizarei o texto falando sobre isto, inclusive.

Por ora, retomemos o fato de “A Quiet Passion” não transcender da forma que precisaria. Isso se deve, como já dito, principalmente a artificialidade irrisória com a qual todo o filme é construído, que o torna frívolo na sua maioria. Os diálogos, talvez o que mais tenha incomodado no filme, são demasiadamente didáticos e prolixos, recorrendo a frases que surgem sem nenhuma naturalidade e com um efeito ultra piegas de sagacidade, como se todos os personagens acabassem por ser sempre astutos e espertos nas intermináveis frases de efeito da película.

Essa repetitividade em utilizar dos diálogos para didaticamente revelar tudo o que se passa no filme, quando este procura criar empatia para seus personagens, acaba por tornar “Além das Palavras” um tanto superficial na maioria de suas cenas. As atuações acabam por serem cúmplices a esses majoritários momentos de verborragia e até mesmo sensacionalismo, este último o qual abri o texto falando que Terrence Davis sabia se esquivar, mas percebe-se que esta cumplicidade era uma preposição do roteiro e da direção – e logo os atores nada poderiam fazer. Diferentemente de filmes como “Amor Profundo”, as falas que tanto traduziam a amargura-desconsolo e eram orgânicas e verossímeis ao ambiente de depressão e lugubridade, delicada e refinadamente construído, agora soam vazias e traem o ambiente taciturno do filme ao derreter qualquer emotividade deste ambiente com o vazio poético que lhes são concebidos.

Talvez seja por isso que as cenas nas quais, diferentemente das outras, são movidas a gestos solitários pelos artistas, sem nenhuma fala – como a qual a personagem de Dickinson passa mal enquanto está sozinha no quarto e não consegue respirar direito – como se fosse uma cena de cinema mudo, são as cenas que embutem potência empática ao filme. Tornando-se mais frequentes no final, tais cenas são poderosas pela sua crueza e dor.

Mas existem pontos positivos em “Além das Palavras”: como se narra uma história, há por final uma identificação com o arco da personagem, marcada pela forma como o machismo e as doenças, mas sobretudo o machismo, coibiu uma vida de liberdade. Existe a edificação da dolência de Emily Dickinson, mas sua transmissão é frágil.

E embora o filme tenha um arco muito interessante sobre como seus poemas foram rejeitados pelo simples fato dela ser mulher, com a primeira e última cena do longa se completando como um quebra-cabeça o qual não poderei explanar mais pois justamente contaria o final da história, durante a maior parte do filme este é explicado com as mesmas falas didáticas quando é tocado – o que acaba por parecer uma forma superficial de encaixá-lo à história.

Mas ressaltemos a bela fotografia de Florian Hoffmeister, que, sabendo utilizar com um sombroso ocre os tão belos quanto cenários e figurinos do longa, intensificou os traços líricos desse filme sabendo sustentar sua tragédia pelo estilo à Gustave Courbert com o qual pinta os traços melancólicos dos frames. A fotografia, somada ao ótimo trabalho de Pia Di Ciaula na edição, que soube traduzir muito bem o enfado e agastamento da vida dos personagens ali representados, evitaram com que “A Quiet Passion” fosse arrastado (ou mais arrastado que é) e produzisse alguma sensibilidade.

Pôster de divulgação: ALÉM DAS PALAVRAS

Pôster de divulgação: ALÉM DAS PALAVRAS

SINOPSE

Baseado na história de vida e no trabalho da grande poetisa americana Emily Dickinson (Cynthia Nixon), acompanhamos seu trajeto desde os primeiros dias como uma jovem estudante até seus últimos anos como uma artista reclusa e quase irreconhecida. Uma mulher tímida, mas com ótimo senso de humor e amizades intensas. Emily escrevia praticamente um poema por dia, porém, apenas parte da sua obra foi publicada em vida.

DIREÇÃO

  • Terence Davies Terence Davies

  • FICHA TÉCNICA

    Roteiro: Terence Davies
    Título Original: A Quiet Passion
    Gênero: Biografia, Drama
    Duração: 2h 5min
    Classificação etária: 14 anos
    Lançamento: 27 de abril de 2017 (Brasil)

    Comente pelo Facebook