Além do Homem (Crítica)

Kadu Silva

Intelectual demais?

O Brasil sempre apresentou ao longo da história artistas importantes dos principais movimentos artísticos, mas sem dúvida a semana de 22, seja talvez a mais importante e respeitada no mundo todo. Nessa ocasião, os artistas “chocaram” a sociedade ao propor um rompimento com o formalismo europeu, buscando assim a valorização da identidade cultural brasileira. Há quem diga que o Brasil está precisando novamente passar por um movimento desses, para resgatar a alegria que sempre foi à marca registrada do brasileiro, já que os atuais acontecimentos sociopolíticos estão levando os brasileiros, a abandonar sua terra e sua cultura.

Pensando nisso o estreante cineasta Willy Biondani, que declaradamente se diz um desses brasileiros, resolveu criar um projeto que tentasse trazer tal resgate. Uma obra que inicialmente seria documental, mas diante da pesquisa e das reflexões com os estudos, surgiu uma história. A história do Alberto (Sergio Guizé), um escritor que vive na França há anos, e que renega suas origens tropicais. Certo dia ele descobre que um famoso antropólogo francês desaparece na cidade de Milho Verde, Minas Gerais, e Alberto resolve voltar a sua terra natal para tentar descobrir o que aconteceu com o seu velho amigo. É então que ele mergulha na cultura local e passa por uma verdadeira antropofagia para se redescobrir como brasileiro.

Além do Homem (Crítica)

Apesar da ótima ideia, o roteiro acaba por buscar certos caminhos complexos e discutíveis. Primeiro, a linguagem usada para narrar a trama é intelectual demais para o padrão médio do brasileiro, algo que pode dificultar a clareza da mensagem proposta pelo diretor, e segundo que a figura da mulher é mostrada de uma forma bem discutível, visto os movimentos feministas dos dias atuais, – quase todas as personagens que aparecem ao longa da narrativa parecem estar sempre buscando sexo e muitas vezes limitadas a isso, além disso, a imagem do brasileiro que é representada no filme ressalta certos esteriótipos que não representam a real imagem que conhecemos do povo.

No entanto é elogiável o resultado estético alcançado por Willy, as referências ao modernismo, tropicalismo e todo o folclore do sertão interiorano são marcantes na jornada de Alberto no Brasil. O Tião vivido magistralmente por Fabrício Boliveira (Faroeste Caboclo) é a clara representação do malandro brasileiro, alegre e cheio de manias (nem sempre elogiáveis), na composição dele é possível notar mais uma alusão do diretor ao filme Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade (1969).

Tecnicamente dois aspectos chamam bastante atenção: a fotografia contratante entre as cenas de Paris e do Brasil, onde ressalta o contraponto de tendências estética cultural dos dois países, e, além disso, a trilha sonora de Egberto Gismonti que mostra uma melancolia fundamental para a jornada de autoconhecimento do personagem principal.

Além do Homem é um filme fruto de uma ótima ideia, mas as escolhas (questionáveis de execução) podem torna-lo um filme para poucos (infelizmente).

Pôster de divulgação: Além do Homem

Pôster de divulgação: Além do Homem

SINOPSE

Alberto Luppo é um escritor brasileiro que mora em Paris há anos e desde então renega suas raízes tropicais. Quando um famoso antropólogo francês desaparece na cidade de Milho Verde, Minas Gerais, ele volta para sua terra natal e inicia uma investigação para descobrir o paradeiro do velho amigo. No entanto, durante a viagem, ele se encanta pela cultura brasileira, assim como suas terras e sua gente, algo até então impossível para ele.

DIREÇÃO

Willy Biondani Willy Biondani

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Eliseo Altunaga, Daniel Tavares e Willy Biondani
Título Original: Além do Homem
Gênero: Drama
Duração: 1h 40min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 28 de junho de 2018 (Brasil)

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