AMOR & AMIZADE (Crítica)

Juca Claudino

Nobre egocentrismo.

Jane Austen já teve muitas adaptações de suas obras para o cinema. Talvez as mais famosas sejam “Razão e Sensibilidade”, de Ang Lee, e “Orgulho e Preconceito”, do extravagante Joe Wright, mas a lista é extremamente longa. Um exemplo disso é o fato de Orgulho e Preconceito ter uma adaptação cinematográfica de 1940 (dirigida por Robert Z. Leonard), outra de 2003 (dirigida por Andrew Black) que adapta o enredo do livro para os anos 2000, outra de 2004 (dirigida por Gurinder Chadha) que adapta o mesmo enredo para o universo bollywoodiano e outra desse ano de 2016 (dirigida por Burr Steers) que adapta o enredo da obra para a ação trash ao somar outro substantivo para o título original – “Orgulho e Preconceito e Zumbis”.

Mas eis que Whit Stillman, cineasta estadunidense cuja obra se destaca em especial pela trilogia “Barcelona”/”Cosmopolitan”/”Os Últimos Embalos da Disco”, lança sua adaptação de um texto de Austen para o cinema: “Lady Susan”, publicação póstuma a qual narra os desenlaces da personagem-título – uma senhora da elite inglesa do século XVIII que há pouco tornara-se viúva – ao mesmo tempo que retrata ironicamente a parte elitizada da sociedade que se via entre o fim da época cujo topo da pirâmide social era ocupada pela nobreza e o início dos tempos de dominação burguesa, ganhava o título de “Amor & Amizade” no roteiro adaptado por Stillman.

Whit Stillman, por sinal, embora tenha lançado poucos longas (além dos três citados, lançou uma comédia romântica em 2011 entitulada “Descobrindo o Amor”, estrelada pela magnífica Greta Gerwing) mostrou-se de uma habilidade notável para transmitir, com certa sofisticação cômica, crônicas humanas (e com “humanas” eu digo sem idealizações ultrarromânticas) de vários aspectos da vida urbana – embora nunca tenha tocado diretamente em assuntos como marginalização da população pobre, mas sim temas que variam desde a arrogância egocêntrica da classe média até à forma como lidamos cotidianamente com a insegurança e o medo. Se pegarmos o exemplo de “Os Últimos Embalos da Disco”, veremos um filme muito literário, cuja temática ora dialoga com a camarotização da vida nas grandes cidades, ora com a solidão emergindo de um mundo cujas relações parecem estar tornando-se superficiais mais e mais.

Logo, o resultado final desse “Amor & Amizade” surge de um muito bem aguçado diálogo entre o olhar de Austen e a filmografia de Stillman: é um longa sobre mesquinhez, individualismo, egocentrismo. Além do mais, uma sátira à nobreza e à burguesia do fim do século XVIII (claro que tornando subjetiva uma série de críticas às elites e, de certa forma, à classe média tradicional contemporânea) no que tange a construção de um mundo de aparências, de máscaras sociais, de hipocrisia e de busca incessante por status – construindo assim um universo cujo narcisismo e o preconceito social são notórios. O próprio cenário da obra já dá brecha para a construção de tal retrato: um círculo social é resumido dentro de um bairro campestre de Churchill, interior da Grã Bretanha, que serve como alegoria para as relações sociais da época – nele vemos membros da fidalguia, como Lady Susan, burgueses ascendentes e as relações patriarcais e conservadoras entre os familiares e entre famílias que regiam os “bons modos”.

Através de Lady Susan temos um fio condutor da obra. Ela age com malícia e calculismo para que a partir de contatos e “amizades” consiga manter-se exibindo-se ostentosamente ao mesmo tempo que foge das fofocas que a “imoralizam” (em um sentido irônico): os cochinhos sobre casos amorosos com amantes casados com suas amigas, ou então com pessoas mais jovens que ela, não são bem vistos pela ótica machista do “bela, recatada e do lar”. É fato que historicamente, e também por uma construção machista, esse estereótipo de ignorância, superficialidade, malícia e busca pela vã cobiça já foi várias vezes utilizado para qualificar, pejorativamente, às mulheres que não fossem submissas a esse modelo de “recatada e do lar”. Mas em “Amor & Amizade”os homens também são retratados dessa forma, e talvez com maior acentuação de suas ignorâncias, sendo inclusive muitas vezes objetos de modelagem de Susan. Uma quebra irônica com a literatura romântica da época – cuja construção da personagem feminina está presente, por exemplo, na maioria das princesas da Disney (e no mínimo em todas até os anos 2000).

Os únicos personagens que ainda mantém um mínimo, digamos, de utopia social e questionamento do status quo são os personagens mais jovens (estamos no tempo da Revolução Francesa, não é verdade?). Frederica, filha de Susan, questiona em alguns diálogos os motivos pelos quais deveria se casar, ter filhos e ser submissa ao seu marido, e Reginald DeCourcey em alguns diálogos mostra acreditar que o amor deveria superar os interesses de classe quando duas pessoas fossem se casar (casamentos arranjados eram constante)… mas conseguiriam eles fugir dessas amarras, ou ainda quebrá-las? Bom, o que posso afirmar por enquanto é que Kate Backinsale, intérprete de Lady Susan, consegue criar uma personagem extremamente empolgante ao mesmo tempo que intensa, tornando toda a sagacidade e todo a agudeza de Lady Susan algo divertido e contagiante. Não só ela, mas o elenco em geral está contagiante – mas Backinsale está roubando toda a cena com sua espontaneidade.

Os diálogos rápidos e sofisticados das atuações dão um ar todo literário ao filme. O visual que explora as cores com muita clareza e certa neutralidade nos tons (o filme não puxa nem para tons quentes, ou para os tons frios), com enquadramentos que prezam pelo equilíbrio e harmonia fazem parecer que Stillman buscava tornar a adaptação cinematográfica desse de “Lady Susan” uma coisa bem sofisticada tendo como referência a arte acadêmica do século em que “Amor & Liberdade” se passa – uma escolha que, dado o retrato que o filme faz, é tão quanto irônica como a película.

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SINOPSE

Século XVIII. Viúva há poucos meses, a bela Lady Susan Vernon (Kate Beckinsale) foge das fofocas sobre seus casos amorosos buscando refúgio na fazenda dos antigos cunhados. Lá reflete sobre a vida e decide arranjar um novo marido para si e um bom pretendente para a filha, Frederica (Morfydd Clark).

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Whit Stillman
Título Original: Love & Friendship
Gênero: Comédia, Drama
Duração: 1h 32min
Classificação etária: 10 Anos
Lançamento: 11 de agosto de 2016 (Brasil)

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