LEMBRANÇAS DE UM AMOR ETERNO (Crítica)

Juca Claudino

Tornatore, o amor e a era digital.

O que vem à nossa cabeça quando pensamos sobre Giuseppe Tornatore? Certamente vislumbraremos o cinema de gênero pelo qual se consagrou: dramas sentimentalistas, românticos, encantadores e sutis. Seu filme mais bem recebido foi, certamente, seu filme de estreia: “Cinema Paradiso” (1989), um nostálgico conto com abordagem bem platônica – sobre o amor e sobre o desconcerto do mundo, dentre outros assuntos que circundam essas temáticas – mas, sobretudo, uma homenagem ao cinema e à cinefilia tão quanto idealizada. De lá para cá, lançou diversos longas como “A Lenda do Pianista do Mar”, “Malena”, “Baarìa” e “O Melhor Lance”. Mas é curioso como, ao compararmos os filmes dos 80 com os seus últimos a serem lançados, veremos uma composição mais gótica, uma encenação mais sombria e uma atmosfera mais trágica. Como se tivesse Tornatore migrado do estilo à Frank Capra para o estilo à F. W. Murnau.

Em “Amor Eterno” – e a carga sugestivamente byroniana do título, porém menos contundente que o original “Correspondence” (ou “Correspondência”, em inglês), já fala muito do filme por si só – faz uma obra mais carregada do que a maioria de seus longas: os tons azulados e frios, a atmosfera melancólica, os planos expressivamente dolentes (com alguns enquadramentos marcantes, contemplativas e carregados) dão o tom trágico do filme. A sinopse não poderia ser mais romântica: Amy Ryan (Olga Kurylenko) e seu professor universitário trinta anos mais velho Ed Phoerum (Jeremy Irons, já no seu terceiro filme desse ano) estão fortemente apaixonados até que, após partir a uma viagem, Ed Phoerum falece e eis que o restante do filme será a idealização do sofrimento amoroso de Amy. Todavia, existe um grande toque de originalidade por trás do roteiro: Phoerum é um mestre em utilizar as novas tecnologias de comunicação (como as redes sociais, o Skype, gravações de vídeo, e-mail e toda essa frenesi da terceira revolução industrial) e, mesmo após a morte, deixa gravadas uma série de mensagens a Amy que lhe seriam enviadas sucessivamente. Durante o aniversário de “namoro” dos dois, Amy recebe uma surpresa em vídeo de Phoerum, assim como no aniversário do professor, e, logo, diariamente a personagem de Olga recebe uma surpresa nova do amante (que já se foi) – o que inclui até mesmo presentes e etc. Mas como teria ele feito isso? Quem está por trás dessa organização toda?

Há muitas coisas de interessante nessa ideia de Tornatore, que também assina o roteiro. A primeira é quanto ao entretenimento do filme (e “Amor Eterno” é folhetinesco o suficiente para querer nos entreter), uma vez que quando nos coloca nessa perspectiva de Amy, nos coloca também em uma sucessão de catarses e surpresas que nos cativam a primeiro momento (falo da primeira metade do filme), além de gerar certo objeto de suspense. O segundo, e mais interessante, é essa forma até mesmo singular do diretor italiano enxergar o amor na contemporaneidade digital. Não é, digamos, a mesma visão de “modernidade líquida” (na qual as relações mostram-se menos sólidas e mais superficiais) que é compartilhada por películas como a estadunidense “Ela” (Spike Jonze, 2013) ou a argentina “Medianeras” (Gustavo Taretto, 2010); mas sim um novo meio de relacionamentos aonde o amor agora é capaz de quebrar as distâncias físicas não só em um sentido geográfico mas como também em um sentido existencial: Irons faz as vezes de Patrick Swayze usando o gravador de vídeos do seu notebook. Mas perceba que eu usei o termo “singular” e não “otimista”, pois Tornatore não apenas vê aspectos positivos nessa intromissão da tecnologia na vida íntima e emocional: a medida em que Amy se entrega aos vídeos, e-mais e mensagens de seu (falecido) amante, isso torna-se uma espécie de alienação aos sofrimentos e dilemas que correm no seu dia a dia, seja na relação familiar, na vida acadêmica ou ainda na situação econômica. Um ponto então dúbio, mas muito original, colocado pelo diretor de “Amor Eterno”.

Mas podemos notar, a partir do parágrafo anterior, que é Amy o grande foco do filme e a dimensão sensível da personagem – ou seja, seus medos, duas dores, suas paixões, suas epifanias – que conduzirá toda a delicadeza e toda a sutileza de “Amor Eterno”. E, para tanto, é lógico que a atuação de Olga Kurylenko foi fundamental para qualquer aspecto elogioso do longa, estando muito expressiva nesse, demonstrando paixão quanto às emoções particulares de seu papel. E Jeremy Irons? Bom, este vai muito bem, colocando uma extravagância nos gestos do professor que interpreta, dando o ar exótico típico do “cientista” na sua imagem mais estereotipada. Mas isso significa que ambos, como casal, geram empatia? Bom, quanto a isso há discordâncias bem grandes, mas fato é que como casal Kurylenko e Irons mostram-se pouco entrosados. E muito disso se deve a uma construção bem criticável do roteiro, que após as primeiras catarses (as quais, como disse, cativam a primeiro momento) torna a relação entre os protagonistas abusiva por parte da figura masculina, enquanto Amy cada vez mais ganha uma caracterização de submissão. Parece bizarro dizer isso estando Phoerum falecido, porém mesmo assim o tom com o qual o cientista fala em seus vídeos e mensagens à Amy após a metade do filme torna-se algo um tanto autoritário ou, ao menos, possessivo – enquanto a personagem de Kurylenko definitivamente gira a Europa revisitando os lugares prediletos do amante à pedido dele. Em algumas cenas a impressão que se passa é que Phoerum fez o que fez não para demonstrar afeto e admiração por Amy, mas sim para continuar influenciando as decisões da menina. E esta o obedece não porque sente sua falta, mas sim porque se sente compelida ou obrigada a tanto. Fatos que comprometem não só a idealização ultrarromântica de “Amor Eterno” como também, e sobretudo, não podem ser concebidos em um mundo tão brutalmente machista como o qual vivemos (ou o fato de, por exemplo, a cada 11 minutos uma mulher ser violentada no Brasil enquanto atrizes são objetificadas nos meios de comunicação de massa não é prova disso?).

Além do mais, devo dizer que também na segunda metade do filme essa troca de mensagens incessante chega a um ponto no qual não há mais surpresa ou imprevisibilidade, mas certa monotonia na repetição do ato (fato que só é revertido após uma reviravolta na trama). Logo, se a primeiro momento o filme consegue nos gerar catarses seguidas e certo suspense, essa tendência não se mostra tão constante no decorrer do longa, que ora passará por cenas de tom meloso pouco convincentes data a artificialidade dos diálogos e das sensações, ora soará repetitiva, mas ora recupera a medida certa do sentimentalismo. Em suma, aos que se angustiam com questões e debates propostos pela arte, “Amor Eterno” tem originalidade ao revelar seu olhar acerca da modernidade tecnológica e sua influência emocional em nossa mentalidade. Caso vá assistir graças ao cinema de gênero, ou ao aspecto folhetinesco e meramente romanesco do longa, terá uma relação conturbada quanto à forma que esse trabalha seu melodrama.

PS: Por que não denunciar também a inexistência de personagens e atores negros no filme? Até porque, o que separa pessoas negras de qualquer outra pessoa, já disse Viola Davis, são as oportunidades que cada uma ganha.

AMOR ETERNO

SINOPSE

A estudante universitária Amy (Olga Kurylenko) leva uma vida de excessos. Trabalhando como dublê, ela faz acrobacias cheias de suspense e perigo, durante cenas de ação. A jovem passa seu tempo livre trocando mensagens com seu namorado, o professor de astrofísica Edward (Jeremy Irons), pelo computador. Após ele negar se encontrar com Amy, ela irá escobrir um triste segredo de seu amado.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Giuseppe Tornatore
Título Original: La corrispondenza
Gênero: Drama, Romance
Duração: 1h 56min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 22 de setembro de 2016 (Brasil)

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