AOS TEUS OLHOS (Crítica)

Igor Pinheiro

Em 1994, os proprietários da Escola Base, em São Paulo, foram obrigados a fechar as portas da instituição e tiveram suas vidas completamente alteradas após uma revolta popular causada por denúncias de que os mesmos teriam abusado sexualmente de crianças que estudavam no lugar. As afirmações, repetidas a todo o momento pela imprensa, eram falsas e até hoje o caso é usado como estudo em colégios e universidades.

“Aos Teus Olhos”, novo longa de Carolina Jabor (“Boa Sorte”), é baseado na peça “O Princípio de Arquimedes”, que conta a história de Rubens (Daniel de Oliveira), um professor de natação que vê sua vida desmoronando pouco tempo depois da denúncia de que ele teria beijado um de seus alunos na boca durante uma aula.

Acompanhando Rubens com uma câmera nervosa no melhor estilo Aronofsky (especialmente em “Cisne Negro”), a inquietação e a angústia causadas se tornam comprovadamente propositais. A medida em que o filme avança e a história vai se desdobrando, o grau de identificação gerado é tão alto que a dúvida de culpar ou não Rubens é logo jogada para o espectador, que participa ativamente da trama pelo tanto de reflexões geradas.

Um dos maiores acertos do roteiro de Lucas Paraizo é criar, logo no começo do longa, certa aversão a Rubens por conta de alguns comentários machistas. Por mais que o beijo não seja mostrado, é a partir daí que o público não consegue se posicionar completamente a favor de ninguém dentro da história. A humanização dos outros personagens, principalmente dos pais do menino, é outro fato que ajuda nessa confusão moral. Qualquer deslize poderia transformar os papéis em estereótipos graves: a mãe sendo a louca que espalha a história na internet e o pai sendo um fascista homofóbico que perde a razão ao perguntar se Rubens é gay, mesmo que isso não influencie no caso de ter acontecido o assédio ou não. A personagem que mais dialoga com o público, apesar da força da humanidade dos pais, é Ana, diretora do clube de natação. Ela caminha entre dar razão a Rubens e simpatiza também com o lado dos pais, se tornando a cabeça do público de forma mais esperta do que manipuladora.

AOS TEUS OLHOS (Crítica)

Obviamente, alguns dos últimos acontecimentos do Brasil dialogam diretamente com o filme, principalmente ao passar por alto em temas como pedofilia, machismo e homofobia. A busca por um culpado é algo muito presente em nossa sociedade doente em que parece só existir extremos. Não escutamos mais o outro, e isso me remete a outro filme com temática muito parecida: o dinamarquês “A Caça”. A diferença aqui é que no longa brasileiro pouco se conversa com a criança sobre o que realmente aconteceu, enquanto na produção estrangeira temos o protagonista como inocente desde o começo.

“Aos Teus Olhos” consegue também inquietar indo além da história que já é pesada por si só. Em vários momentos mais tensos, a direção e a fotografia são essenciais para gerar o desconforto no espectador. A trilha e os efeitos sonoros exagerados (com destaque para a cena em que a mãe expõe o caso de Rubens em um grupo online de pais) estão no tom certo para mergulhar quem está assistindo nas atitudes extremas dos personagens. Os poucos cenários, planos pouco comuns e a tonalidade azul do longa o tornam ainda mais inquietante através da claustrofobia gerada.

Apesar da atuação um pouco marcada demais, o elenco é certeiro no tom em todos os papéis. Daniel de Oliveira consegue deixar a dúvida no ar o tempo inteiro, Stella Rabello e o monstruoso Marco Ricca convencem muito no papel dos pais desesperados, Luisa Arraes brilha muito nos poucos momentos em que aparece como a namorada de Rubens e Malu Galli talvez tenha a melhor atuação do longa com o já comentado papel de Ana/público. É ela quem nos ajuda a refletir sobre o que estamos vendo.

E a minha reflexão é a de que o linchamento virtual se torna cada vez mais comum nos dias de hoje e é impressionante como gestos comuns se tornam atos grandiosos diante de determinadas situações. Somos capazes de observar fatores que culpam em gestos que não perceberíamos antes de saber que algo poderia estar errado. Somos capazes de mudar completamente em momentos de reações coletivas e criamos uma empatia seletiva, que escolhe a partir de nossas experiências de vida. “Aos Teus Olhos” é extremamente necessário e contemporâneo, incomoda, coloca o dedo na ferida e nos faz tentar olhar de fora todo o caos de nossa sociedade atual, com um desfecho que dialoga de forma perfeita com o poético título.

Pôster de divulgação: AOS TEUS OLHOS

Pôster de divulgação: AOS TEUS OLHOS

SINOPSE

Rubens (Daniel de Oliveira) é um professor de natação carismático e extrovertido, que dá aulas para pré-adolescentes em um clube. Querido por todos devido ao seu jeito brincalhão e parceiro, ele se vê em apuros quando um de seus alunos, Alex (Luís Felipe Melo), diz à mãe que o professor lhe deu um beijo na boca no vestiário. Alegando inocência, Rubens é acusado pelos pais da criança e passa a ter que lidar com um verdadeiro linchamento virtual, que tem início através de mensagens de What’sApp e explode de vez quando chega ao Facebook.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Carolina Jabor” espaco=”br”]Carolina Jabor[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Lucas Paraizo
Título Original: Aos teus Olhos
Gênero: Drama
Duração: 1h 30min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: em breve (Brasil)

Comente pelo Facebook

4 Comentários

  1. Edison

    Se você não quiser se frustrar no final não assista a esse filme, pois não tem final e como a maioria dos filmes nacionais nos deixam frustrados para que nos tiramos nossas próprias conclusões sem saber o final, essa mania desses cineastas brasileiros de fazerem filmes sem final me deixa revoltado

  2. Cícero Rodrigues

    O próprio nome renete-nos a tirar nossa própria conclusão, porém necessitava de um final. Filme extremamente brochante e frustrante. Não assistam.

  3. Fillipe morais

    não gosto dessa onda brasileira de deixar os filmes sem final, até hoje eu não consigo entender o final de aquarius, um filme muito bom, mas que o final é broxante!! vamos melhorar brasil… eu sei que existe uma questão de imaginar como seria um final, mas ainda assim cria uma expectativa… caverno do dragão fez escola.

  4. lia

    sem final o Filme? poxaaa ainda bem nao vou ver