AS BOAS MANEIRAS (Crítica)

Igor Pinheiro

É raro, porém extremamente divertido, eu ir assistir a um filme sem saber muito sobre o mesmo. Com o novo longa da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra (que também juntos fizeram “Trabalhar Cansa”), foi assim. A sinopse não entrega nada e não tinha visto trailer algum, a surpresa foi inevitável. “As Boas Maneiras” é insano, bizarro e corajoso, e é lindo ver um filme brasileiro assim.

Da ideia que surgiu a partir de um sonho do diretor, acompanhamos a história de Clara (Isabél Zuaa), que se candidata a uma vaga como babá no luxuoso apartamento de Ana (Marjorie Estiano), que precisa cuidar de casa sozinha nas últimas semanas de sua gravidez. A aproximação das duas é feita desde a primeira cena e, num ótimo trabalho das atrizes, elas tomam contam da primeira hora do filme nos envolvendo com facilidade em uma história que vai se tornando bastante… surreal, digamos.

Ainda mais surpreendente para mim, a segunda parte do filme toma um rumo completamente inesperado e quase se transforma em uma outra história, como dois longas dentro de um. Não comentarei a fundo para não estragar surpresas, mas essa transição é feita de maneira magistral, embora eu prefira muito mais a primeira parte.

É perceptível na primeira metade, aliás, que é um filme sobre mulheres, indo muito além do tema tão presente da maternidade. Apenas dois personagens masculinos são relevantes para trama e os outros não têm nem mesmo seus rostos mostrados. São as mulheres que têm todos os outros papéis, relevantes ou não.

Marjorie Estiano se entrega a uma personagem difícil e convence como a menina que saiu do interior e foi para a cidade grande assumindo uma gravidez. E ela se torna ainda mais poderosa quando a história começa a caminhar para o lado sobrenatural. A cena do gato, seguida da cena em que Ana dança em frente à TV, é de uma genialidade pura, e a eficiência certamente não seria a mesma sem a força da atriz.

Pôster de divulgação: AS BOAS MANEIRAS

Isabél Zuaa mostra do que é capaz desde seu primeiro olhar e assume uma personagem muito complicada e rara de se ver. Uma mulher, negra, homossexual e pobre que não é representada unicamente por esses adjetivos, que fazem parte do que ela é, mas se tornam realmente apenas adjetivos diante da jornada da protagonista. Ela vive sua aventura e de plano de fundo tem a crítica sutil de viver em uma sociedade que não a reconhece por conta tudo o que já foi citado. E essa diferença se conecta diretamente com a reação dela com Ana e com o menino Joel, principalmente na segunda metade do filme, porque os dois foram umas das únicas poucas coisas que ela já teve na vida. E palmas para o roteiro também de Juliana e Marco, que torna isso tudo facilmente perceptível sem ser didático.

Outro acerto do roteiro é se levar a sério o suficiente para não perder a mão quando tudo começa a ficar mais sombrio. E é possível ver essa eficiência nas reações do público, que no começo pode até rir alto de algumas situações, mas chega a prender a respiração em momentos seguintes da projeção.

Com temáticas que remetem a “O Mistério de Grace” e “Raw”, “As Boas Maneiras” também ousa tecnicamente ao mostrar uma São Paulo mística, que claramente é irreal e aparece quase como uma pintura no fundo das cenas, mas se torna importante na ambientação fantástica da trama. Os efeitos também funcionam bem e fiquei surpreso ao ver a quantidade de efeitos gráficos que estão presentes em uma história que seria facilmente imaginada para efeitos digitais, que estão presentes também, mas somente quando necessários.

É muito difícil escrever sem spoilers sobre um filme tão grandioso e tão cheio de nuances. E talvez tentar ser coisas demais seja até um dos defeitos de “As Boas Maneiras”, que mesmo em seu título provoca críticas à sociedade, à religião e ao modo como vivemos. O longa ainda conta com belos momentos musicais na troca de atos (que me remeteram ao ótimo “Sinfonia da Necrópole”, também de Juliana) e os poucos furos do roteiro acabam sendo perdoados pelo universo fantástico e o envolvimento com a história. É um longa corajoso que nas mãos erradas nem chegaria a existir. Para a nossa sorte, temos Juliana e Marco sabendo muito bem o que estão fazendo.

Pôster de divulgação: AS BOAS MANEIRAS

Pôster de divulgação: AS BOAS MANEIRAS

SINOPSE

Ana (Marjorie Estiano) contrata Clara (Isabél Zuaa), uma solitária enfermeira moradora da periferia de São Paulo, para ser babá de seu filho ainda não nascido. Conforme a gravidez vai avançando, Ana começa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos e sinistros hábitos noturnos que afetam diretamente Clara.

DIREÇÃO

Juliana Rojas, Marco Dutra

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Juliana Rojas, Marco Dutra
Título Original: As Boas Maneiras
Gênero: Drama, Terror
Duração: 2h 15min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: em breve (Brasil)

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