AS HORAS (Crítica)

AS HORAS

4estrelas

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Hours
Ano do lançamento: 2003
Produção: Reino Unido , EUA
Gênero: Drama , Romance
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: Michael Cunningham
Classificação etária: 14 Anos

Sinopse: Em três períodos diferentes vivem três mulheres ligadas ao livro “Mrs. Dalloway”. Em 1923 vive Virginia Woolf (Nicole Kidman), autora do livro, que enfrenta uma crise de depressão e idéias de suicídio. Em 1949 vive Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa grávida que mora em Los Angeles, planeja uma festa de aniversário para o marido e não consegue parar de ler o livro. Nos dias atuais vive Clarissa Vaughn (Meryl Streep), uma editora de livros que vive em Nova York e dá uma festa para Richard (Ed Harris), escritor que fora seu amante no passado e hoje está com Aids e morrendo.

Por Gabriela Miranda

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As horas, de um único dia, ocorrem em três datas que se chocam, se confundem e se revezam. Aqui temos o mesmo tempo para Virginia Woof e as mulheres que se identificam com o livro Mrs Dalloway; um tempo que precisa correr, terminar ou se alongar. E, assim como na obra literária de Woof, o importante nesta história não é o formato, replicado por Michael Cunningham e infiltrado no roteiro, e sim o efeito que ele gera sob o espectador.

Afinal, a trama é inspirada em uma narrativa que se funde com a biografia da autora e cria personagens induzidos pela aproximação com a escrita dela. Nicole Kidman entrega uma das grandes interpretações de sua carreira, se não a melhor, ao personificar a figura da Virginia durante o processo de escrita de Mrs Dalloway. A transfiguração não fica restrita apenas à aparência e composição gestual; existe algo na sonoridade das palavras narradas por ela, no olhar, questionador e dolorido, que ela mostra. Uma dificuldade de se adaptar e que se exprime na necessidade de expandir a linguagem do romance, para dar vasão a uma narrativa sem a divisão de capítulos, como o habitual. Ela mistura passado e presente, reflexões e ações.

Dessa forma, o espectador é conduzido, paralelamente, à vida de Laura Brown — interpretada por Julianne Moore, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, em 2002. Laura está lendo a história de Clarissa Dalloway e, por algum motivo, sente o peso das horas abafadas por uma vida onde tudo é perfeito. Moore entrega sutileza aos conflitos internos da personagem e protagoniza cenas cheias de sensações mistas ao tentar achar soluções para escapar e se ver livre da perspectiva de ter mais um filho, continuar casada e ser uma dona de casa mediana nos anos 50.

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Em outra vertente está a personagem de Meryl Streep, Clarissa Vaughan, um editora de livros na Nova York dos táxis amarelos e grafites. Ela, assim como a personagem de Woof, tenta conter o estrago do tempo e sai para comprar flores. As flores de Mrs Dalloway denotam o impulso e empenho em tentar se manter ocupada para não sentir a dor que o tempo marca nos ponteiros. O vazio. E de certa forma, essa sensação se impregna no filme todo. Para pontuar esse ritmo temporal, por vezes até esperançoso, a trilha sonora instrumental reflete todo o desespero e a premência do passar do tempo.

Cabe aqui uma reflexão feita por Woof: “nada é mais fascinante do que ter a revelação da verdade que está por trás dessas fachadas da ficção — se é que a vida é realmente verdadeira, e a ficção. realmente fictícia”. Abstrair tudo aquilo que isso gera de significado não é tarefa fácil e o filme também não tem a intenção de ser explicativo. O diretor, Steven Daldry e o roteirista, David Hare, captaram a essência do que habita os questionamentos das personagens correlacionadas, mas não copia as obras à que se refere, constrói um olhar entre a ficção e a realidade e acaba por fazer um filme sobre pessoas que se sentem deslocadas, sem tempo ou com tempo demais, pessoas que no fim se libertam de maneira silenciosa e sorrateira, para não atrapalhar a festa.

“Tinha sempre o sentimento de que viver, mesmo um único dia, era muito, muito perigoso”, Virginia Woof.

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PRÊMIOS

OSCAR
Ganhou: Melhor Atriz – Nicole Kidman

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante – Ed Harris, Melhor Atriz Coadjuvante – Julianne Moore, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Figurino.

GLOBO DE OURO
Ganhou: Melhor Filme em Drama, Melhor Atriz em Drama – Nicole Kidman

Indicações: Melhor Atriz em Drama – Meryl Streep, Melhor Ator Coadjuvante – Ed Harris, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Trilha Sonora.

BAFTA
Ganhou: Melhor Atriz – Nicole Kidman

Indicações: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz – Meryl Streep, Melhor Atriz Coadjuvante – Julianne Moore, Melhor Ator Coadjuvante – Ed Harris, Melhor Edição, Melhor Maquiagem e Cabelo.

FESTIVAL DE BERLIM
Ganhou: Melhor Filme e Melhor Atriz – Meryl Streep, Nicole Kidman e Julianne Moore.

Indicação: Urso de Ouro

TRAILER

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