AS MONTANHAS SE SEPARAM (Crítica)

Juca Claudino

Mais uma poesia fruto do olhar de Zhang Ke.

Eu poderia começar esse texto por diversos pontos. Poderia fazer uma reconstrução histórica do cinema chinês da chamada 5a Geração até os dias de hoje, bem como poderia expor os efeitos sobre a identidade nacional chinesa e a desigualdade social no país exercita pela globalização do século XXI. Todavia, começarei esse texto falando sobre quão formidável e atraente é o cinema de Jia Zhang Ke, um dos mais interessantes diretores contemporâneos na sua proposta deveras audaciosa de registrar as dinâmicas sociais em um mundo cada vez mais globalizado, americanizado, desigual e líquido. Com suas abordagens sociais extremamente engajadas ou com sua visão acerca da solidão e do isolamento individual – em uma sociedade cuja empatia e a compaixão parecem se dissipar aos montes – significantemente pessimistas, faz obras de visual rigoroso porém de muita humanidade. Estuda a modernização de uma China apressada na sua introdução na economia de mercado a partir do olhar de suas periferias, de sua população mais marginalizada – ou no termo que utiliza, dos “desemporderados” -, a fim de expor suas fragmentações tanto na sua estrutura social (aonde cada vez mais poucos ganham muito sobre o pouco que ganha os muitos que trabalham) como na sua estrutura cultural e identitária (na qual as tradições e o sentimento de pertencimento são demolidos pela modernização de uma globalização que preza pelo “american way of life”).

A primeira vez na qual Zhang Ke figurou dentre os principais realizadores do mundo foi com “Xiao Wu”, longa de 1997 o qual narra a história do personagem título, um jovem abandonado na cidade de Fenyang impelido pelo crime – uma crônica da desilusão da juventude junto ao retrato de uma população à margem da modernização chinesa. Fenyang é a cidade natal de Zhang Ke, e esta terá forte influência sobre sua filmografia. Os seguintes filmes do diretor seriam o excepcional “Plataforma” (2000) e “Prazeres Desconhecidos” (2002), ambos reforçando a temática “neorrealista” de “Xiao Wu” (formando a chamada “Trilogia da Cidade Natal”) e colocando Jia como um dos principais expoentes da 6a Geração do Cinema Chinês – a qual, segundo o professor da Universidade de Nova York Zhang Xudong, rompia com a 5a Geração pelo fato de, enquanto os integrantes da 5a (cujos destaques são Chen Kaige e Zhang Yimou) “compunham uma totalidade mitológica (…), os da sexta almejavam retratar a textura esquálida e amorfa da vida cotidiana das cidades”. Quase 15 anos após finalizar esta trilogia, e tendo os cotidianos chineses passados por diversas mudanças desde então, “As Montanhas Se Separam” – novo filme de Zhang Ke, cuja estreia se deu no Festival de Cannes 2015 – prova que o realizador não perdeu nem um pouco de seu engajamento e muito menos seu crítico e revelador olhar sobre a China da economia de mercado, todavia aqui alia tal elemento a um desenvolvimento sentimental da narrativa ainda mais potente do que já havia feito (mesmo em seus últimos filmes, como o incrível “Um Toque de Pecado”).

“As Montanhas Se Separam”, assim como a filmografia de Zhang Ke, pode ser interpretado por diversos aspectos diferentes. Bem como no já citado “Um Toque de Pecado” (2013), o roteiro se desmembra em diferentes narrativas, as quais narram a vida de Tao (interpretada por Tao Zhao) e de pessoas próximas a ela em 3 momentos diferentes: um em 1999, outro em 2015 e outro em 2025.

A primeira coisa que me chamou a atenção nesta película foi a forma como, dessa vez, Jia retrata a pobreza na China. Se em seu filme de 2006 “Em Busca da Vida” retrata de forma crua e realista a vida de um operário chinês, aqui em “As Montanhas Se Separam” repete a dose, todavia com um tanto mais de delicadeza. Logo na primeira história somos apresentados a Tao, Liang (Jing Dong Liang) e Zhang Jinsheng (Yi Zhang). Em 1999, poucos anos após a introdução chinesa no mundo capitalista financeiro, os dois primeiros eram proletários enquanto Jinsheng iniciava as suas ações como investidor na extração de carvão, assim aderindo ao status de “elite econômica”. Anos depois, em 2015, era ele um membro da burguesia chinesa e Liang seu empregado como minerador, e por estarem em “níveis” da camada social diferentes já não compartilhavam da mesma realidade: Liang e sua esposa lutavam para conseguir dinheiro, todavia o personagem de Jing Dong Liang estava doente e nada tinha para comprar seus remédios. “X demitidos” ou “X morreram em tal acidente”, a população desempoderada do mundo globalizado tornou-se meros números, enquanto o capital e o mercado parecem terem sido humanizados: Jinsheng, como homenagem ao filho que nascia, deu como nome “Dólar”, já que a moeda americana era tão adorada pelo burguês. Além do mais, a maneira como o Jinsheng personifica suas minas de carvão, as valorizando como se fossem seu animalzinho de estimação, contrasta com a ignorância a qual sempre tratou os mineradores que lhes produzia capital. Já diria o geógrafo brasileiro Milton Santos, “o consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão.”

No documentário “Jia Zhang Ke – Um Homem de Fenyang” (2015), Walter Salles dirige um retrato da obra de Zhang Ke de forma excepcional. Nela, o diretor chinês se questiona de algo que já foi diversas vezes referenciado no texto: a globalização do mundo não seria, na sua faceta atual, apenas uma americanização do mundo? Tal questão, para “As Montanhas Se Separam”, tem uma provável resposta positiva: por diversos momentos o filme faz retratos de um esquecimento cultural regional ou nacional expressado principalmente em Dólar, que no episódio passado no ano de 2025 apenas sabe falar em inglês (sem qualquer conhecimento das línguas faladas na China).

Mas “As Montanhas Se Separam” consegue ainda trabalhar individualmente muito bem seus personagens, retratando neles a solidão, vacuidade e anomia que sempre carregam os protagonistas de Zhang Ke. Retrata “irmãos prestes a repetir a mesma rotina de comer e beber, de suportar a mesma solidão e o mesmo vazio”, como o próprio diretor falou. Retrata, por fim, personas cujo o sentimento de isolamento e de liquidez desagua em tristezas e infelicidades sobre a sua situação existencial. E, assim, Zhang Ke coloca em sua nova obra um sentimentalismo pouco visto na sua filmografia, uma dramaticidade expressiva e comovente capaz de provocar emocionalmente até os corações mais gélidos. Em tela, aprecia com os tons frios e atmosfera carregada o sofrimento dos protagonistas, criando uma natureza-morta visual que engrandece as dores das angústias retratadas (vale citar que a fotografia é assinada por Nelson Lik-wai Yu, o qual fotografou muitos dos filmes de Zhang Ke, como “O Mundo” e “Plataforma”)

Tao Zhao, que aqui interpreta Shen Tao, está deslumbrante mais uma vez. Já é d@s mais magnífica@s atrizes/atores de sua geração no cinema chinês, e em “As Montanhas Se Separam” faz uma das melhores performances de sua carreira (que por si só já é realmente invejável), imprimindo realismo nos gestos de sua personagem, a qual no filme contagia desde seus momentos mais felizes até no extremo de suas melancolias.

Jia Zhang Ke diz que um dos seus filmes favoritos é “O Ladrão de Bicicleta”, clássico do Neorrealismo italiano dirigido por Vittorio de Sicca. É inevitável que façamos um paralelo entre a obra dos dois diretores graças as suas temáticas. Porém, com “As Montanhas Se Separam” Jia fica mais próximo do neorrealista na sua maneira de denunciar as calamidades sociais a partir de um drama que encontra um ótimo lugar entre o melodrama e um cinema mais documental. O mundo precisa da acidez do cinema desse diretor expoente da 6a geração do cinema chinês: engajado com seu tempo, ativo e profundo ao retratar as mudanças sociais de um país que atrai os olhares do mundo, retratador das contradições de um mundo no qual as desigualdades aumentam em meio ao avanço do capitalismo financeiro. E esse mesmo diretor, em “As Montanhas Se Separam”, faz um filme para lá de belíssimo.

AS MONTANHAS SE SEPARAM

SINOPSE

Uma história em três partes que se inicia no fim da década de 1990 e acompanha Tao, bela jovem da província de Shanxi que se vê dividida entre dois pretendentes, seus amigos de infância Zhang e Liangzi. Um é herdeiro de um posto de gasolina, enquanto o outro trabalha em uma mina de carvão, e as consequências da decisão da mulher reverberam em 2014 e 2025.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Zhang-ke Jia ” espaco=”br”]Zhang ke Jia[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Zhang-ke Jia
Título Original: Shan he gu ren
Gênero: Drama, Romance
Duração: 2h 6min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 23 de junho (Brasil)

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