As viúvas (Crítica)

Magah Machado

Mostrando versatilidade em um inesperado thriller, Steve McQueen constrói em As Viúvas (2018) um complexo entrecruzamento de relações por trás do drama ordinário de uma mulher que se vê viúva inesperadamente e tem que assumir as dívidas do marido. Para saldá-las e sobreviver ao submundo ilegal que a financia, executa um plano audacioso de roubo milionário com a ajuda de outras mulheres, enlutadas em situação idêntica. Perseguições, explosões, agilidade e ataques coreografados vão encher os olhos do público médio.

Contudo, há muito mais a se falar sobre As Viúvas, que, por acaso, é um filme de ação também. O mais importante, porém, é dizer que a mais recente realização de Steve McQueen (12 Anos de Escravidão, 2014) revela quão nocivo é o pré-julgamento que se tem sobre a capacidade de alguém fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Subestimado por sua aparência e por sua cor, McQueen já revelou em entrevistas que repetidas vezes teve que se auto-afirmar em sua vida pessoal. E ainda hoje, mundialmente premiado, continua sendo, eventualmente, vítima de descrédito e humilhação.

Podemos entender naturalmente que, quando Steve McQueen assistiu à série inglesa As Viúvas em sua adolescência houve uma identificação imediata com as protagonistas. A ideia de questionar os estereótipos que lhe foram infringidos e superar o ceticismo emprestando voz a essas mulheres entrou, formalmente, em seus planos em 2011.

Enfim, McQueen pode expressar um pouco mais de si mesmo pelas vivências da afro americana Veronica (Viola Davis), a latina Linda (Michele Rodriguez), a polonesa Alice (Elizabeth Debicki) e a americana branca Amanda (Carrie Coon) que perdem seus maridos logo no começo do longa.

Com a roterista Gillian Flynn, o diretor inglês decidiu transpor a trama para a Chicago contemporânea e, diferentemente dos trabalhos anteriores, investir em um gênero cativo no coração das platéias para prender a atenção do espectador. Ao mesmo tempo, aponta novamente alguns nós da sociedade multicultural envolvendo racismo, gênero, pobreza estrutural e corrupção sistêmica.

A sofisticada Veronica de Viola Davis é duramente atingida pela súbita perda do marido, Harry Rawlings (Liam Neeson) e sua situação piora ainda mais quando descobre que lhe caberá agora pagar uma imensa dívida contraída pelo morto. Como se não bastasse, essa dívida foi fruto do malsucedido roubo que tirou a vida de Harry e expôs o vespeiro em que estava metido. Para lidar com esse imbróglio, consegue que as outras viúvas dos capangas de Harry, também vítimas no mesmo incidente, aceitem se associar a ela em uma empreitada que resolverá o problema de todas: roubar todo o dinheiro de volta. Apesar do objetivo comum, cada uma lutará primeiro por si mesma e, se for possível, pelo grupo.

As viúvas (Crítica)

Do começo ao fim da trama o que salta aos olhos é o fator humano mais vulnerável de cada personagem, apresentado objetivamente no início, em uma edição primorosa de McQueen. Entre um casal em que a mulher apanha do marido, outro em que a mulher é subjugada como incompetente pelo ex-companheiro, outro ainda em que nem há diálogo entre os dois, é apenas na intimidade de Veronica e Harry que identificamos amor legítimo. Ou, pelo menos, acreditamos que exista.

E este é o primeiro estereótipo que McQueen vai colocar em xeque. Veremos no final do filme como ficará desconstruído.

E da mesma forma ele desconstruirá o racismo da oligarquia política dos Mulligan, Tom (Robert Duvall) e seu filho Jack (Colin Farrell); a depreciação da mulher, esmagando todas as personagens de todas as classes e posições sociais; a pobreza à que está submetida Belle (Cynthia Erivo) e a corrupção já aceita como natural entre todos e que nunca é questionada em momento algum da história.

Alguns belos planos de detalhes, uma das marcas registradas de McQueen, destacam um emaranhado nebuloso de sentimentos que tomam conta da personagem de Viola Davis. Suas roupas e cachorinha de estimação, brancos, fazem uma composição imaculada com seu requintado apartamento, também todo branco. Há um pouco de hesitação em mostrar ao espectador o rosário de sofrimentos por que passou até virar, civilmente, uma viúva. Sua performance emocional tem modulações de intensidade, mas não de qualidade. A partir da perda, suas roupas ganham cores e revelam contornos de sua silhueta; seu tom de voz e seu olhar se avivam. Belle, seu oposto, é sempre mostrada frontalmente, perfeitamente enquadrada em sua determinação e auto-confiança, com luzes definidas sobre a forte presença de Cynthia Erivo. Michele Rodriguez, eterna fonte de explosão muscular do cinema, teve o desafio de manter Linda contida, com a câmera um pouco deslocada de seu eixo, jogando para o espectador uma sensação de desconforto também compartilhada por Alice. Alice, aliás, é o personagem que melhor se desenvolve, em um desempenho incrível de Elizabeth Debicki.

Por outro lado, o elenco masculino é visto com mais distanciamento, à exceção de Robert Duvall, um ponto de interesse que destoa com seu perfeito medievo Tom Mulligan. Sua relação dúbia com o filho Jack revela mais desgosto que algum orgulho pela linhagem que Farrell (Jack) ostenta apenas quando é conveniente, de maneira brilhante. Quando confrontados com o núcleo dos Manning, formado por Jamal Manning (Brian Tyree Henry), o político assassino e corrupto alvo do roubo inicial, e Jatemme Manning, o capanga homicida e torturador (Daniel Kaluuya), os brancos Mulligan também lutam entre si, mas aqui tudo que é imoral e ilegal já está normalizado. Isso tudo em uma Chicago obscura, uma cidade de cores frias.

Como marca registrada de McQueen, está lá sacramentado um final absolutamente catártico que não deixa dúvidas sobre a auto-descoberta transformadora pela qual passou Veronica. Sem apelar para twists gratuitos ou outros truques de roteiro, a narrativa de As Viúvas se sustenta ao longo do filme, dando o peso correto a cada acontecimento e fechando um ciclo para todos os personagens. A empatia que Viola Davis e suas aliadas despertam no desenrolar da história não fica de lado quando saímos do cinema. Uma familiaridade permanece, um pertencimento a um grupo resiliente e assertivo. Mulheres subjugadas, por seu gênero, cor ou status social que respondem prontamente quando voltam ao controle de suas próprias vidas. Uma nova perspectiva possível que só o empoderamento traz. Steve McQueen sabe disso. E quer que todos saibam também.

Pôster de divulgação: As Viúvas

Pôster de divulgação: As Viúvas

SINOPSE

Quatro viúvas entram para o mundo do crime após os seus maridos morrerem durante uma das maiores tentativas de assalto da atualidade. Eles tomam para a si a responsabilidade de honrar a memória dos amados terminando o que eles não conseguiram completar.

DIREÇÃO

Steve McQueen Steve McQueen

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Gillian Flynn, Steve McQueen
Título Original: Widows
Gênero: Suspense, Drama
Duração: 2h 9min
Classificação etária: 14 anos
Lançamento: 29 de novembro de 2018 (Brasil)

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