ASTRÁGALO (Crítica)

Juca Claudino

VIVRE SA VIE

“Astrágalo” é um filme que tem uma beleza particularmente tocante. Nele, acompanhamos a romântica bandoleira Albertine, guiada por seu instinto aventureira e desafiador à moral social, enquanto vive, inocentemente, em busca de uma felicidade incondicional. O filme, inspirado no livro homônimo de Albertine Sarrazin, traz ainda uma delicadeza e um intimismo à flor da pele, com uma estética que remete bastante ao cinema francês dos anos 50/60, em especial a Nouvelle Vague (a qual o filme faz muitas referências), construindo assim toda uma ambientação nostálgica e elegante – ao mesmo tempo que muito penetrante. É um filme sobretudo que marca uma personagem em busca de sua própria liberdade frente a uma sociedade que parece oprimi-la, além de outra busca, a de um amor (que será materializada pela presença de Julien na história). Assim, a diretora Brigitte Sy, aqui em seu segundo longa, consegue algo interessantíssimo, de uma beleza acachapante.

Você notou que o nome da autora do livro e o nome da protagonista é igual, certo? Se você criou a hipótese de que “Astrágalo” é um livro autobiográfico, deduziu bem. Sarrazin conta sua história dos tempos de fugitiva da lei, quando escapou da prisão onde estava encarcerada e foi “resgatada” por um desconhecido, Julien, também fora-da-lei. Aqui, logo na primeira cena, já começa todo o espírito “contestador” do filme, que fará dos personagens principais uma espécie de Bonnie & Clyde de Arthur Penn na França pós-Guerra: dois indivíduos totalmente desconhecidos topam conviver juntos pelos próximos anos de suas vidas, vivendo de pequenos delitos e outros serviços à margem da lei, e ainda por cima se apaixonam um pelo outro. Aquilo que para a grande maioria da sociedade significaria uma grande falta de lucidez, para Albertine e Julien significava liberdade. Esse espírito de aventura quase que imoral vai levar Albertine a penetrar cada vez mais no universo marginalizado. Essa construção romântica de Albertine é acompanhada de um intimismo colocado em cada cena que, de fato, é o grande ponto alto do filme. As referências à Nouvelle Vague francesa vistas na estética dessa obra de Brigitte Sy não são, logo, à toa: como não lembrar de personagens como Nana (de “Vivre sa Vie”, do Godard), ou então o próprio Antoine Doinel (de “Os Incompreendidos”, de Truffaut), seres que sentiam-se aprisionados pela sociedade que os rodeava – e pareciam querer fugir dela. É exatamente isso que Albertine é.

Albertine quer viver sua vida (em francês, “vivre sa vie”). Esse desejo de Albertine, logo, é o grande centro do filme. E para que este funcionasse, nessa perspectiva, seria necessária uma atuação que tornasse a nossa protagonista uma personagem apaixonante, que nos transmitisse toda esse amor à vida. E Leïla Bekhti, a encarregada da missão, consegue isso muito bem. Constrói a inocência rebelde de uma personagem inegavelmente cativante de forma elogiável. Brigitte Sy, a diretora do longa, por sua vez, mostra ser uma realizadora de bastante personalidade e sensibilidade, pois dá ao filme (principalmente nos seus momentos derradeiros) um intimismo delicado ímpar.

Você deve estar se perguntando a razão deste título, “O Astrágalo”. Bom, tal nome remete ao osso do pé que Albertine quebra ao fugir da prisão, logo no inicio do filme, e é por isso que Julien, vendo uma pessoa debilitada, decidi parar para ajudar. Albertine é mulher, ascendente de argelinos e cresceu em um contexto abaixo do padrão de vida da classe média francesa, e o filme nos lembra ainda de todo o preconceito e injustiça que essa comunidade sofre. É, sobretudo, uma personagem apaixonante.

ASTRAGALO

SINOPSE

Em uma noite de 1957, Albertine pula o muro da prisão onde cumpre uma pena por roubo. Na queda, ela quebra um osso do pé: o astrágalo. Ela rasteja até a estrada e é resgatada por Julien. Eles se escondem na casa de um amigo em Paris, até que Julien é preso. Sozinha e procurada pela polícia, a dor física que Albertine perdura é nada comparada com o que a ausência de Julien provoca na carne dela…

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Brigitte Sy, Serge le Péron
Título Original: L’astragale
Gênero: Drama
Duração: 1h 37min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 17 de março de 2016 (Brasil)

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