ATIREM NO PIANISTA (Crítica)

ATIREM NO PIANISTA

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Por Davi Gonçalves

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Na primeira sequencia de Atirem no Pianista, François Truffaut nos mostra um sujeito sendo perseguido por dois homens. Não sabemos nada a respeito da perseguição ou mesmo quem são os envolvidos (a fotografia escura deste trecho da fita dificulta bastante a identificação). Na correria, o homem esbarra em um poste e cai meio desacordado no chão. Um transeunte passa e, após certificar-se de que o outro está bem, ajuda-o a se levantar e ambos saem caminhando pelas ruas, desenfreando uma conversa natural, como se fossem velhos amigos.

Esta, claro, é apenas a ótima introdução de Atirem no Pianista, segundo filme do cineasta francês conhecido por ser um dos fundadores da “nouvelle vague”. Escrito pelo próprio Truffaut, em parceria com Marcel Moussy (que se tornaria um parceiro constante do diretor), o roteiro segue Charlie Kohler, um outrora pianista famoso que hoje trabalha tocando em um bar de segunda classe qualquer da cidade, longe dos holofotes e escondendo sua verdadeira identidade: Edouard Saroyan. Enquanto foge de sua família e do seu passado (incluindo o suicídio de sua esposa), Charlie reencontra um de seus irmãos, que está envolvido com a máfia.

Atirem no Pianista tem uma incômoda posição na filmografia de Truffaut: foi produzido entre os amplamente elogiados Os Incompreendidos e Jules e Jim – Uma Mulher Para Dois, de 1959 e 1963, respectivamente. Talvez por isso, este não seja um filme unânime na carreira do cineasta, que se tornaria um dos nomes mais citados da história do cinema. A crítica só reconheceu a fita anos após seu lançamento, enquanto o público esnobou a ideia nas bilheterias. De fato, Atirem no Pianista escorrega em sua narrativa, desfragmentada e irregular, que oscila frequentemente de um plano a outro. Nesse ponto, flerta-se com o romance, o humor, o mistério, a tragédia e, apesar de isso até ser “charmoso” em determinados momentos, faz com que não haja uma espécie de “fio lógico” muito consistente – afinal, faltava a Truffaut naquela época a maturidade suficiente para trabalhar com essa alternância de forma elegante. Talvez isso seja resultado da forma como Truffaut e Moussy optaram por desenvolver o roteiro, que era escrito conforme as filmagens avançavam – algo que pode ter atrapalhado o resultado final.

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Mas se o pecado de Atirem no Pianista está em sua narrativa desnorteada, o mesmo não pode se dizer do protagonista vivido por Charles Aznavour – que compensa cada minuto em cena com seu tipo franzino, calado e tímido. Um dos maiores intérpretes da música francesa de todos os tempos, Aznavour é impecável em sua construção de personagem, um homem com evidentes (mas modestos) desvios de personalidades e que trava ótimos diálogos imaginários consigo mesmo, explicitados em uma narração voice over. Sem outros grandes destaques, o elenco ainda é formado por artistas como o da belíssima Marie Dubois, Albert Rémy, Serge Davri e Nicole Berger.

Atirem no Pianista talvez funcionasse melhor se fosse um filme noir, alguns dizem. Com a ótima fotografia em preto e branco de Raoul Cotard (que se tornaria um dos nomes mais importantes na fotografia da nouvelle vague), o longa abusa de sombras e planos escuros, recorrendo a inúmeros elementos típicos do cinema norte-americano. Com uma trilha incidental firme e um argumento baseado em um romance policial, Truffaut se perde um pouco na direção, nos entregando uma obra que não apresenta nenhuma intriga ou suspense próprios do cinema hollywoodiano (aos moldes de Hitchcock, por exemplo, um ídolo do cineasta), mas também não tem o realismo psicológico de uma produção francesa clássica. Resumindo: não sabe muito bem para onde vai e nem de onde veio – mas cumpre bem seu papel de mostrar tudo aquilo que Truffaut ainda seria capaz de fazer ao longo de sua curta existência.

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SINOPSE

O pianista de um bar, Charlie Koller (Charles Aznavour), é na verdade o concertista Edouard Saroyan, que resolveu mudar de nome após o suicídio de sua esposa, Thérèse (Nicole Berger). Sua vida começa a complicar quando seu irmão Richard Saroyan (Jean-Jacques Aslanian), que é um vigarista, se refugia no bar, pois está sendo caçado por dois gângsters, Momo (Claude Mansard) e Ernest (Daniel Boulanger). Richard é cúmplice de Chico (Albert Rémy), que é também seu irmão e outro pilantra. Charlie começa a temer pela segurança do irmão mais novo, Fido (Richard Kanayan), que mora com ele. Após esta noite Charlie caminha para casa com sua colega de trabalho, Léna (Marie Dubois). Ele se sente interessado nela, mas não tem coragem de segurar sua mão. Charlie retorna para seu apartamento e passa a noite com Clarisse (Michèle Messier), uma amigável prostituta que mora no mesmo andar e cuida de Fido. Seu apartamento continua sendo vigiado por Momo e Ernest, que planejam seqüestrar Fido no caminho da escola. Porém os bandidos acabam mesmo pegando Charlie e Lena. Eles conseguem escapar quando o carro é parado por um policial, em virtude de uma infração provocada por Lena, mas os problemas deles estão bem longe de terminar.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: François Truffaut
Título Original: Tirez sur le pianiste
Gênero: Drama
Duração: 1h 30min
Ano de lançamento: 1962
Classificação etária: 14 Anos

TRAILER

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