AVE, CÉSAR! (Crítica)

Juca Claudino

O DIA EM QUE OS IRMÃOS COEN DECIDIRAM RIR DE HOLLYWOOD

É difícil definir o cinema dos Coen. Podemos dizer que eles têm uma grande facilidade em transitar por entre os gêneros cinematográficos (do noir “Gosto de Sangue” (1984) para a comédia com pitadas de tensão em “Fargo” (1996), e daí para a comédia pastelona em “E aí, Meu Irmão, Cadê Você?” (2000) e, por fim, o cheio de tensão “neowestern” de “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007)). As marcas do seu roteiro, sempre incisivo e marcante, fazem do cinema dos Coen singular: que ótimo roteiristas são! Além do mais, sempre dirigem muito bem seu elenco, constantemente recheados de estrelas com as quais costumam ter maior afinidade (John Goodman, Josh Brolin, George Clooney, Francis McDormand…). Mas há algo que particularmente chama a atenção nos projetos da dupla: seus personagens, sejam caricatos ou realistas, sempre têm uma dose de imperfeição, impotência e hesitação. Podemos dizer assim que os Coen adoram ter uma visão pessimista do ser humano em sociedade? É uma forma de se encarar. Nesse “Ave, César!”, pelo menos, eu diria que sim.

Não é uma desconstrução da harmonia tão potente como fizeram no excelente e provocativo noir “O Homem Que Não Estava Lá” (2001), onde pegaram o sujeito símbolo do “american way of life” interpretado por Billy Bob Thornton e fizeram de sua vida um tormento infernal. Mas aqui, nesse seu novo filme (exibido na abertura do Festival de Berlim desse ano), eles novamente brincam com os destinos dos seus personagens, abusando do derrotismo para com isso gerar seu humor satírico. E, se em “O Homem Que Não Estava Lá” disse que brincava com um símbolo estadunidense, aqui o fazem de novo: agora é a indústria da ilusão, Hollywood, a vítima do olhar dos Coen. E, para tanto, recorrem à comédia.

O filme narra um dia na vida de Eddie Mannix (Josh Brolin), um grotesco e durão produtor da Capitol Pictures, uma grande produtora hollywoodiana no período do pós-guerra. A partir dele, teremos ramificações de outras tramas que se revelarão como um multiplot: o ator especializado em westerns Hobie Doyle (Alden Ehrenreich – no melhor estilo Roy Rogers e Gene Autry) com sua dificuldade em atuar fora de filmes de ação; a atriz e dançarina DeeAnna Moran (Scarllet Johansson – pegando o estereótipo de figuras como Debbie Reynolds) que deve esconder do público e da crítica o fato de estar grávida de um alguém desconhecido (o julgamento “moralista” – repare nas aspas – não permitiria tal fato); e a captura de Baird Whitlock (George Clooney – o galã à la Gary Cooper ou Charlton Heston) por um grupo de comunistas soviéticos. A grande sacada aqui é ver como o poder da Capitol e a imponência do mercado da arte a partir da imagem de Mannix consegue dominar a realidade desses e de tantos outros personagens do filme. Todos viram servos da indústria hollywoodiana inconscientemente: Hobie, DeeAna, Whitlock… todos esses presos ao supercontrole ditado por Hollywood sobre sua imagem e seus comportamentos.

Em um contexto que remete a “época de ouro” de Hollywood, cheia de seu glamour e elegância, somos convidados a enxergar por seus bastidores e invertemos a visão romântica culturalmente atribuída aos anos 50 na Meca do cinema. O “herói” do filme é um produtor (inspirado em Howard Strickling, um responsável por abafar escândalos da MGM) cujo autoritarismo nele expresso o torna condenável. Sua missão é driblar hipocritamente uma série de “problemas de imagens” que seus “chefiados” possam aparentar frente a opinião pública, de forma desumana se pararmos para pensar. Ou seja, ao invés de um “herói”, Joel e Ethan (Coen) nos dá um vilão! Pronto, a maléfica sátira à hipocrisia de Hollywood está feita: ao invés da máquina dos sonhos, é a máquina corrompida pela ganância, capaz de fazer de tudo, do mais inescrupuloso possível, para gerar dinheiro. Vale afirmar também que, uma vez dito ser próprio dos Coen uma representação de “imperfeição, impotência e hesitação” nos seus personagens, Mannix é mostrado no filme como consciente de ser o vilão da história: em cenas de “respiro”, vemos o personagem de Josh Brolin confessando seus pecados a um padre – nos mostrando que se sente corrompido por dentro, mas não pode sair daquela situação.

Sobre DeeAna, Hobie e Whitlock, além de outros atores representados em cena, todos eles parecem ter ganhado uma áurea de imbecilidade e ignorância. Talvez até porque estejam alienados ao sistema de supercontrole da Capitol (e de Hollywood) ganhem essa representação superficial – outro desvirtuamento que os Coen aprontam nesse filme. Entretanto, há uma brincadeira nisso tudo: lembra que o personagem de Clooney, Baird Whitlock, é capturado por um grupo de comunistas soviéticos “infiltrados” nos EUA? Bom, enquanto temos uma desconstrução de Hollywood no filme todo, a representação do grupo dos “comunistas” é feita a partir da imagem que a oportunista Hollywood durante a Guerra Fria criava deles: os “fanáticos submissos às leis dos sovietes”, “adoradores apaixonados da imagem de líderes comunistas e socialistas”, “perigosos e megalomaníacos revolucionários” – uma representação tão bizarra que nesse filme vira piada.

No fim das contas, tudo se tangencia na missão de satirizar Hollywood e, ao mesmo tempo, criar um pessimismo sobre as relações humanas: o hipócrita autoritarismo da indústria do cinema “mainstream”, a visão superficial e forjada dessa sobre o mundo e, claro, tudo isso com as bizarras e caricatas imperfeições dos personagens de “Ave, César!”. Em 1991, os Coen levaram a Palma de Ouro por seu filme “Barton Fink – Delírios de Hollywood”. Por mais que nessa tragicomédia tivéssemos uma representação deturpada de Hollywood, o centro do longa ainda era um estudo de personagem (no caso, Barton Fink) – inclusive, o nome do estúdio presente nesse longa também é “Capitol”. Bom, aqui em “Ave, César!” não. Temos um estudo de personagem, mas a sátira ganha o primeiro plano. Divertido e inteligente, a nova obra dos irmãos Joel e Ethan não decepciona. É uma carta de amor ao cinema? Sim… mas do jeitinho amargo que adoram fazer tudo. Eles ainda fazem diversas citações: Channing Tatum remete em seu personagem a atores como Gene Kelly ou Fred Aistare, e há ainda vários “filmes” produzidos pela Capitol que remetem a gêneros explorados na década de 50 (dentro do filme, principalmente, um épico à la Ben-Hur chamado “Ave, César” está sendo rodado e será importante para a trama – e daí o título do longa de 2016).

Ave Cesar

SINOPSE

Hollywood, anos 1950. Edward Mannix (Josh Brolin) é o responsável por proteger as estrelas do estúdio Capitol Pictures de escândalos e polêmicas e vive um dia intenso quando Baird Whitlock (George Clooney), astro da superprodução Hail, Caesar!, é sequestrado no meio das filmagens por uma organização chamada “Futuro”.

DIREÇÃO

Joel Coen, Ethan Coen

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen
Título Original: Hail, Caesar!
Gênero: Comédia, Policial
Duração: 1h 40min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 14 de abril de 2016 (Brasil)

Comente pelo Facebook