B: THE BEGINNING (Crítica)

Pedro Vieira

B: The Beginning é uma série um tanto quanto instável. Se por um lado apresenta uma boa premissa e consegue desenvolver um suspense mais ou menos interessante, por outro, o novo anime original da Netflix peca por utilizar soluções fáceis em alguns pontos de sua narrativa, que obscurecem os momentos realmente inteligentes de obra.

Produzido pelo estúdio Production I.G. (que trabalhou em um anime do Batman e em filmes de Pokémon), a obra é dirigida por Yoshiki Yamakawa e Kazuto Nakazawa (este último, ajudou a dirigir a sequência animada do primeiro Kill Bill) e envolve uma trama policial, junto de elementos de ficção científica e fantasia. Trata-se de uma mistura um tanto quanto estranha, e um dos motivos do porquê a obra em alguns momentos parece saltar de um sub-gênero a outra de forma apressada e pouco razoável.

A trama se desenvolve em um futuro não tão distante no reino fictício de Cremona, e segue duas histórias paralelas que se cruzam: a primeira é a de Keith, um detetive que se une a um conjunto da força policial do reino para tentar encontra um assassino serial killer (que mata outros serial killers) chamado Killer B; a segunda história é a do próprio Killer B, um rapaz chamado Koku, cujas as intenções obscuras configurariam um spoiler leve caso eu as revelasse aqui.

Por se tratar de uma obra de suspense, o anime tenta o máximo possível segurar as respostas para as diversas perguntas que apresenta no decorrer de sua trama. É um artifício comum nessas produções, mas que aqui acaba sendo mal aplicado e torna toda a história arrastada, principalmente em seus primeiros seis episódios. Isto faz com que não somente o anime se torne maçante, mas ele abra mão de um maior envolvimento do espectador com os personagens e o universo da obra, de modo que cenas que deveriam ser dramáticas, importantes e causar alguma comoção – como a do final do episódio 6 – se tornem apenas sequências de melodrama barato.

O que B: The Beginning faz é o inverso, por exemplo, de Puella Magi Madoka Magica. Se em Madoka, o clima se suspense só vai aumentando no desenrolar dos episódios, com novas situações críticas sendo construídas, sem revelar os maiores segredos da trama antes do fim, em B: The Beginning o suspense é em grande parte monótono, anda em círculos e é um tanto quanto previsível – é fácil descobrir quem é um dos principais vilões da narrativa – de modo que quando um dos personagens diz que “todos estão agindo de forma tão previsível que chega a ser engraçado” a fala se torna quase metalinguística.

Se não bastasse tudo isso, o roteiro ainda apela duas vezes pela mesma ladainha do “cara que precisa resgatar a personagem feminina”. Aliás, as personagens femininas são um grande problema no anime, pois, por vezes, é utilizada demasiada violência contra elas, um elemento quase fetichista e que nunca se repete quando a violência é aplicada a um personagem masculino. Coloque aí ainda o fato da personagem Lily, que deveria ser uma das protagonistas da série, ser um tanto quanto imatura, e mesmo que os outros personagens digam a todo o momento que ela é muito inteligente, ela só consegue solucionar um determinado “mistério” da trama a partir de um raciocínio ridículo sobre preferências alimentícias.

Ainda que tenha problemas no desenvolvimento de seu suspense, o anime não deixa de trazer algumas surpresas. Há na verdade uma reviravolta interessante no penúltimo episódio da trama, sendo uma pena que isto ocorra justamente já no fim da série. Além disso, o anime consegue desenvolver de forma eficiência a narrativa referente a Keith, apresentando de forma clara e eficiente suas motivações, bem como as motivações de seus inimigos. Já a narrativa de Koku é mais problemática, genérica e só se torna realmente interessante quando se une à história de Keith.

Apesar de possuir sequências de ação, esse não é o foco principal da obra, o que explica o fato de algumas lutas ocorrerem quase que fora da visão do espectador, com apenas linhas e sons sendo mostrados na tela. A animação, porém, é razoavelmente boa e não decai ao longo da temporada, um problema cada vez mais comum em grandes animes.

Trazendo um elenco secundário de personagens inexpressivos, e que vez ou outra agem de forma estranha apenas por capricho do roteiro, a narrativa B: The Beginning apela para plot-twists em quase todos os seus capítulos, e ainda assim caí em clichês de narrativas policiais e animes de ação.

Pôster de divulgação: B: THE BEGINNING

Pôster de divulgação: B: THE BEGINNING

FICHA TÉCNICA

Título Original: B: the Beginning
Ano: 2018
País: Japão
Criação: Katsuya Ishida
Direção: Kazuto Nakazawa, Yoshiki Yamakawa
Duração: 12 episódios de 23 minutos cada (Netflix)

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