BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS (Crítica)

poster-a3-do-filme-batman-o-cavaleiro-das-trevas_MLB-F-2909514392_072012

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Dark Knight
Ano do lançamento: 2008
Produção: EUA
Gênero: Ação, Drama
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: David S. Goyer e Christopher Nolan

Sinopse: Após dois anos desde o surgimento do Batman (Christian Bale), os criminosos de Gotham City têm muito o que temer. Com a ajuda do tenente James Gordon (Gary Oldman) e do promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart), Batman luta contra o crime organizado. Acuados com o combate, os chefes do crime aceitam a proposta feita pelo Coringa (Heath Ledger) e o contratam para combater o Homem-Morcego.

Por Guilherme Ramos

BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS03

Bem, senhores, esta é uma incumbência de grande responsabilidade, escrever sobre este filme, eu quero dizer. Porque estamos diante de uma obra-prima. Está bem, em termos cinematográficos eu posso estar exagerando, não sei. É certo que eu sou um pouco parcial aqui, afinal sou um nerd em certa medida, e meu lado nerd fala mais alto – e fala sério – quando se trata de super heróis. Creio que temos que analisar os filmes dentro da proposta, gênero e universo que eles trazem consigo. Temos aqui um filme que poderia ser classificado como ação, a proposta é representar um super herói nas telas do cinema. A verdade é que nos dois quesitos Cristopher Nolan consegue um trabalho extraordinário. Eu falo, agora sem exagero nenhum e sem qualquer receio: é o melhor filme de super herói já feito na história do cinema. Na época da estreia do filme, não só parte da crítica e da imprensa mundial estava comigo, como também os números estavam ao meu lado para provar isto. Com apenas 6 dias de exibição, o filme desbancou toda a bilheteria do “Batman Begins”, ou seja, passou dos 205 milhões de dólares. Aliás, foi o primeiro filme da história do cinema americano a alcançar os 200 milhões com 5 dias de exibição. À época (2008) ele também quebrou outro recorde: foi o filme de maior arrecadação de todos os tempos para um filme em sua segunda semana de exibição. No fim das contas, com a mesma facilidade o filme alcançou o segundo lugar da maior bilheteria de todos os tempos desbancando o vice há décadas “Guerra nas Estrelas” de 1977! Só perdeu para Titanic. Atualmente se encontra em 4º lugar, atrás de Avatar (1º), Titanic (2º) e Vingadores (3º). Todos que eu considero inferiores a este Dark Knight, mas nem tudo é perfeito… Isto tudo no ranking dos EUA, já no ranking global o filme ocupa a 12ª posição de maior bilheteria de todos os tempos no mundo. Bom, se levarmos em consideração o mundo e toda a sua produção cinematográfica e todos os seres humanos da face da Terra que vão aos cinemas, até que não é uma posição ruim, e ainda, é o filme que inaugura a casa dos bilhões em arrecadação, com seus $1,001,921,825, atrás dele nenhum arrecadou em bilhões de dólares no mundo. Só a título de curiosidade, o primeiro lugar é também de Avatar, com seus módicos $2,781,505,847. Não era pra tanto, né?

A começar, vamos lembrar de toda aquela história de mistério que envolveu o filme? Um homem morreu por este filme, e eu falo de um bom ator. Não tenho certeza (e ninguém tem) se Heath Ledger morreu por complicações decorrentes especificamente da carga de stress e pressão que o papel de Coringa trouxe para ele, mas isso é verdade para muitas pessoas, e o que alimenta ainda mais a história fantástica é uma declaração do ex-Coringa e ator consagrado do Olympo de Hollywood, Jack Nicholson. Conta à lenda que Jack procurou a produção do filme porque queria novamente encarnar o Palhaço no cinema (como já havia feito em 1989 na primeira adaptação do Batman para a telona), mas como a ideia era arrumar um ator novo (tanto em idade, quanto em carreira) recusaram o pedido de Jack. Nunca procurei, e nunca soube se isso é verdade ou não, mas é a história que rolou na época. Uma coisa que aconteceu mesmo e tem vídeo no youtube para provar é a tal declaração de Nicholson, que depois da notícia da morte de Heath dada por um repórter a Nick numa entrevista, o veterano ator responde: “eu o avisei (i warned him)”. Nunca ficou claro o que ele teria avisado a Heath. A declaração, dentro destas circunstâncias, fica bastante macabra, não? Diz-se que ele teria conversado com Heath quando soube que o papel seria dele, e o alertado que era um papel muito difícil de se fazer, era uma personagem complexa. A questão é que Heath fez o melhor papel da carreira dele e infelizmente o último. Foi aquele papel crucial, decisivo para dar uma guinada em sua carreira, para elevá-lo à condição de ótimo ator perante muita gente, e muita gente importante. Tal qual Cristoph Waltz no seu papel em “Bastardos Inglórios” do Tarantino, entende o que eu quero dizer? Prova disso é que logo depois de Batman viria a estrear “O Imaginário de Dr. Parnasus”, filme de Terry Gilliam – diretor genial, por sinal – em que Heath tinha um papel central, mas quando morreu deixou as filmagens no meio (como contornaram este problema? Assistam ao filme, vale a pena).

Ok. Tivemos nesta masterpiece um Coringa perfeito. Lunático e doentio como nos quadrinhos do “Dark Knight”, com trejeitos e tiques nervosos sinistros, como um cara altamente perturbado, mas ao mesmo tempo que é irônico, engraçado e inteligente. Uma coisa interessante no filme são os seus discursos. Ele fala coisas extremamente lúcidas, faz análises filosóficas e sociológicas da condição humana, as quais poderíamos muito bem ouvir sair da boca de um filósofo, de um sociólogo ou até de um psicólogo. Os seus discursos não são simplesmente vilanescos, montados segundo aquele estereótipo do bandido clássico de cinema, e do bandido de filmes de super heróis. Está certo também que a própria estrutura e psicologia do personagem dos quadrinhos ajuda o filme a se basear nisto, mas o filme ter este cuidado é louvável, é um ponto positivo, muitos diretores estragariam a personagem (como na própria primeira adaptação de 1989). Vilanesco, sim, é ele pegar estes seus discursos e levá-los ao extremo, aplicar a teoria em condições extremas, causar uma abordagem anárquica, irresponsável, espalhar o caos (ele mesmo diz que é um “agente do caos”… haha… perfeito). Na história da humanidade mesmo tivemos vilões assim. Mas o trunfo aqui neste filme é que não temos um só vilão, e daí faço um paralelo com outro filme de super herói, um que em minha opinião, eu esperava ver a qualidade deste Batman e que tive minhas esperanças frustradas na sala de cinema. Falo do “Homem-Aranha 3”, cujo o maior atrativo era reunir no mesmo filme o vilão mais legal e maior arquinimigo do aranha além de outros super vilões. Batman fez o mesmo, mas até antes da estreia do filme ele saiu na frente, foi superior ao Homem-Aranha. Quem se lembra sabe que na época anterior a estreia do filme, até um ano antes, havia uma expectativa crescente que era alimentada quase todo mês pelos teasers lançados pela Warner, pela publicidade que o filme montou e que foi muito bem estruturada. Diferentemente do Homem-Aranha, no Batman não era possível saber pela publicidade que haveria três vilões no filme. Eis que a primeira surpresa vem logo depois da sequência inicial do filme, quando o Batman dá a última piaba no Espantalho, vilão do primeiro filme. E depois, antes da estreia do filme você nem imaginava que Harvey Dent estaria ali, e que viraria o Duas Caras neste filme mesmo! O Homem-Aranha 3 pareceu não manusear muito bem a presença de vários super-vilões, o diretor talvez tenha perdido a mão. Aqui no Batman, Nolan soube muito bem como levar a história, apresentar os vilões todos, com foco no Coringa, mas com uma lógica perfeita de como a identidade e característica de vilão nasce em Harvey Dent, a passagem de um vilão para o outro dentro do filme é natural. Está certo que mesmo com as 2h30 de filme ainda não é tempo o bastante para desenvolver melhor um dos vilões, por isso foi à escolha certa de desenvolver a relação com Coringa, e deixar o Harvey num segundo plano, porém sem uma passagem rápida, uma conclusão rápida, do tipo “vamos acabar logo com esta personagem neste filme mesmo”. Claro que o Duas Caras tem seu fim neste filme, ou pelo menos é o que parece acontecer, e que eu me recuso a acreditar, mas por mais que ao cair do prédio ele tenha mesmo morrido, a presença dele no filme foi toda levada com maestria e sua atuação como vilão foi digna. Agora, por que me recuso a acreditar que ele morreu? Nem eu, nem o Nolan acreditamos que vá existir um 4º filme do Batman, em que haja a possibilidade de colocar um retorno do Duas Caras, mas para mim o roteiro deixou em aberto a morte de Harvey Dent, deixou para o público decidir se, ao cair da mesma altura que Batman caiu (sendo que este não morreu, talvez pela armadura, apesar da altura quebrar ossos independentemente da armadura, já que ele caiu inconsciente), ele realmente morreu ou só desmaiou e teve o mesmo destino que o Coringa, ou seja, o xilindró (e que seria a resolução mais aceitável tendo em vista as histórias em quadrinhos).

BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS01

Uma coisa que me chamou a atenção, e que tira um pontinho de leve do filme, é a falta de realismo em algumas situações. Eu tenho certeza que este é o dedo de Hollywood no filme e é a mesma ideia de fazer um pacto com o demônio: você vende a sua alma em troca da possibilidade de ter seu desejo atendido. Creio que Nolan, se tivesse carta branca total e todos os recursos ao seu alcance, liberaria sem dó o sangue e a barbárie na tela, porque é a realidade de um filme com um vilão e uma história tão violentos. E a alma de Nolan aqui, no caso, e que ele vendeu pros estúdios para ter a possibilidade de fazer o filme com relativa liberdade, é esta relatividade. Não é isto que temos na tela, não temos sangue, não temos um morto no hospital (coisa típica, pois até em Avengers vimos às catástrofes e destruição da cidade sem nenhum cidadão comum sendo morto). Gente, não sou sanguinário, não é isso, mas um filme que aproxima uma fantasia de super herói da realidade como fez o Batman, podia pelo menos ter um sanguinho ou uma mortezinha bárbara aparecendo na tela, não? Surreal é a cena que Batman dá a última surra no Coringa e diz “mas destas cicatrizes eu sei” (sobre saber de onde vêm as cicatrizes do coringa, e as que ele em seguida vai deixar na cara do palhaço) e na cena seguinte não vemos nem sangue, nem cicatrizes no rosto do Coringa, mesmo depois do talho múltiplo que ele leva das navalhas do dispositivo especial da armadura do Morcego. Mas o que é essa falha – e uma falha já aceita e relevada por ser tão recorrente em Hollywood, quer dizer, nós imaginamos o sangue aonde quisermos – perto de toda a grandiosidade das mais de duas horas de ótimas cenas e ótimo enredo. A fotografia do filme, por exemplo, tem uma história interessante. Aquela sequência inicial, do roubo ao banco, foi toda filmada com câmeras de tecnologia IMAX e é a primeira vez na história do cinema que se filma cenas de ação e se utiliza câmera na mão com câmeras IMAX. Usar câmera na mão com câmera IMAX era algo improvável, segundo a própria equipe do filme. Isto realmente dá outro sabor para a cena. Eu mesmo, tanto quanto quando vi no cinema, quanto quando vi agora em DVD, percebi uma qualidade diferente na fotografia destas cenas. Dá um ar mais realista e mais empolgante para o que está acontecendo na tela e o efeito é sensacional. Coisa de mestre, experimentações e tal. Empolgante também é a preferência pela estética noir, de colorações escuras, mais sombria durante o filme todo, isto realmente te deixa dentro de uma história que se denominada “Dark”.

Bem desde a sequência inicial, você já sabe que não está diante de um filmezinho. A maneira como já começa o filme é provocante, é instigante, e isso já capta o espectador. Todos surpreenderam, porque experimentaram, e cinema é isso, o tempero fica muito melhor quando você muda um pouquinho que seja a receita, mas com segurança e determinação. O diretor quis fazer experimentações e apostar em coisas inéditas feitas num filme de ação, os atores também ousaram e se liberaram, como o Heaht Ledger ou o Aaron Eckhart (Duas Caras/Harvey Dent), que costumavam mais fazerem papéis água-com-açucar em filmes românticos, não estavam habituados com papéis de vilões, e vilões complexos, nem com o gênero de ação/super herói, então como dar verossimilhança à personagem? Um problema facilmente contornado pela ousadia dos dois atores e pela capacidade que tiveram de se permitir aos respectivos papéis, de se doar mesmo à fantasia dos quadrinhos, do vilão. E temos Morgan Freeman, Michael Caine e Christian Bale, que dispensam maiores comentários, pois sempre foram atores de destaque, muito competentes e acostumados a papéis variados. Daí temos cenas memoráveis, quase todas protagonizadas pelo Coringa. Temos também frases de efeito memoráveis durante o filme. O figurino é um show a parte, a roupa e maquiagem do Coringa, não tem o que falar, né?! A roupa do Batman, toda reformulada e deram um jeito de colocar uma razão para esta reformulação no próprio filme (quando Wayne está se recuperando do ferimento dos cães da primeira luta, contra o Espantalho, e comenta com Alfred que precisa reformular a armadura). A trilha sonora, outro show. O encarregado era o mestre Hans Zimmer. Os efeitos sonoros também tivera preocupação clínica na sua montagem, contrataram um violoncelista apenas para a música que definia a personagem do coringa, e segundo eles, procuraram fazer com que toda a complexidade desta personagem fosse resumida em duas notas, que o violoncelista fez parecer uma corda que vai se esticando e nunca quebra (o som do qual eu falo é aquele de suspense de quando aparece o coringa), parece um avião que está chegando cada vez mais perto e faz aquele barulho constante mas crescente, que vai lentamente variando. O nível de detalhe para cada cena do filme foi desse nível, ou seja, contratar um violoncelista, que foi várias vezes ao estúdio, tocar só duas notas, que até uma criança faria, e para ser trilha de uma personagem só, para uma ou outra cena que tem duração total ínfima dentro de 2h30. É realmente muito esmero e zêlo para um filme, e tudo isso merece os milhões que a fita ganhou nos cinemas de todo o mundo, durante meses em cartaz. Tivemos de tudo, desde um Christian Bale que fez questão de estar em pessoa numa situação de risco naquela cena em que estava no alto da torre em Hong Kong (que foi filmada sem truques, mesmo, no alto de uma torre em Hong Kong, com Bale lá, na beirada), cena de perseguição alucinante e clinicamente preparada como a do túnel (aliás, todas as cenas com o batmóvel no filme também foram filmadas com IMAX), até a morte de um ator, que se tornou o ator principal do filme, a figura central, tomou a atenção para si, e teria sido assim também mesmo se Ledger não estivesse morto. A magia do cinema, os truques e ilusões, as explosões, tudo levado às proporções que a tecnologia e os tempos atuais nos permitem, mas com qualidade, refino, sem apelo puramente estético e entretenimento barato. E no fim das contas, estamos diante de um épico mesmo. Novamente suscito aqui os número de bilheteria e recordes que o filme bateu. Ficou para a história. Quando assisti de novo, ao final do filme, exatamente quando termina o discurso épico do comissário Gordon e iniciam-se os créditos, inconscientemente tive a mesma reação da primeira vez que assisti, e na telona, a mesma empolgação de quem assiste pela primeira vez, e diga-se de passagem que a reação é mais ou menos a de uma garotinha vendo seu Justin Bieber ao vivo.

BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS02

TRAILER

PRÊMIOS

OSCAR
Ganhou: Ator Coadjuvante – Heath Ledger e Edição de Som
Indicações: Direção de Arte, Efeitos Visuais, Fotografia, Maquiagem, Montagem e Som

GLOBO DE OURO
Ganhou: Ator Coadjuvante – Heath Ledger

BAFTA
Ganhou: Ator Coadjuvante – Heath Ledger
Indicações: Direção de Arte, Efeitos Visuais, Figurino, Fotografia, Maquiagem e Cabelo, Montagem, Som e Trilha Sonora

5estrelas

Comente pelo Facebook