BIG LITTLE LIES (Crítica)

Igor Pinheiro

São inúmeros os fatores que chamam atenção em Big Little Lies: um elenco grandioso (Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Shailene Woodley, Laura Dern e Zoë Kravitz), direção do excelente Jean-Marc Vallée (Livre, Clube de Compras Dallas, C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor), o fato de ser uma minissérie da HBO e muitos outros. A expectativa felizmente é cumprida e, felizmente, ao longo das últimas sete semanas pudemos acompanhar uma das melhores produções do ano, que certamente será pelo menos indicada a alguns Emmys. Obviamente a série não está livre de falhas e o apelo dos fatores citados com certeza ajudaram no sucesso, mas isso não interfere na ótima qualidade do que assistimos.

Baseada no livro de Liane Moriarty, a série nos mostra a vida de famílias de classe alta da Califórnia e suas relações, especialmente as das mães, pelo fato dos filhos estudarem na mesma escola. Essas relações vão de amizades até um assassinato, em que vítima e assassino permanecem como um mistério até o último episódio.

A trama vai além, é claro. Com o passar do tempo vamos entendo melhor a motivação e a vida de cada uma das mulheres e começando a criar teorias sobre o que pode levar ao desfecho tão esperado da história. E o que começa com uma aparentemente superficial história sobre donas de casa com problemas de gente rica se transforma em reflexões sobre o papel de gênero, relacionamentos abusivos, feminismo, sonoridade e outros fatores ligados especialmente ao âmbito feminino, mas que pode impactar a todos os espectadores.

A história de Celeste (Kidman), especificamente, ganha uma força monstruosa com o passar da temporada e suas cenas, tanto as que envolvem as agressões do marido quanto as no consultório da psicóloga, se tornam as mais esperadas e tensas dos episódios.

Jean-Marc Vallée abusa de planos subjetivos e momentos silenciosos, com interrupções abruptas de flashbacks ou flashforwards que dão um ritmo perturbador à trama, que em alguns momentos parece sobre nada, com coisa alguma acontecendo, mas mesmo assim prende. O silêncio, aliás, é uma das melhores coisas da minissérie, extremamente impactante, com destaque para a sequência final em que vamos tendo as respostas para todas as perguntas que fazemos durante os sete episódios. Paradoxalmente, a trilha sonora se torna tão importante quanto a falta de som. Completamente escolhida pelo diretor, a trilha envolve momentos cruciais da trama, até mesmo as letras das canções são importantes para o entendimento do que se passa em algumas cenas.

O elenco abrilhanta ainda mais a produção. Sou apaixonado por Laura Dern e é muito bom vê-lá aqui em um papel de caráter duvidoso. Zoë Kravitz e Shailene Woodley, parceiras da finada série Divergente, mostram um amadurecimento absurdo e assustador, principalmente a primeira, que cresce com seu personagem e se torna uma das personagens mais importantes no episódio final. Mas todos os olhos precisam se voltar para Reese Witherspoon e Nicole Kidman. Por mais que não tenhamos dúvidas da qualidade das duas, as ver na TV é impressionante e as mesmas já falaram sobre esse trabalho ter sido desafiador.

O desfecho da série, entretanto, é o que mais deia a desejar. Não por falha de algum dos fatores citados anteriormente, mas pela simplicidade e previsibilidade de como tudo se encerra. Talvez a criação de expectativa tenha sido maior do que o resultado que é entregado, mas, apesar de tudo quase perfeito, algo sai errado e parece faltar algo para respirarmos bem. Veja bem, o final não é ruim, mas se o restante da série merece nota 10, o desenrolar do roteiro é digno de 8, talvez.

Existem outros problemas e muitas coisas interessantes começam a ser discutidas na internet, principalmente relacionadas ao feminismo branco e em como as mudanças do livro para a TV mudam alguns discursos da trama. Mas como minissérie tudo funcionou muito bem, deixando o gosto de quero mais que felizmente não teremos, já que o fim deixa no ar algumas questões cruciais para que a reflexão sobre a história e seu futuro seja parte da experiência incrível que é acompanhar Big Little Lies.

Pôster de divulgação: BIG LITTLE LIES

Pôster de divulgação: BIG LITTLE LIES

FICHA TÉCNICA

Título Original: Big Little Lies
Ano: 2017
País: EUA
Criação: David E. Kelley
Direção: Jean-Marc Vallée
Elenco: Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley
Duração: 7 episódios de 26 a 30 minutos cada

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