BLUE JASMINE

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Por Davi Gonçalves

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Ofuscado pela estreia meteórica do segundo filme da franquia Jogos Vorazes (fato que é totalmente compreensível, cá entre nós…), Blue Jasmine, o novo filme do cultuado Woody Allen, chega aos cinemas brasileiros. Após uma temporada pela Europa (filmando em locais como Paris, Roma, Barcelona e outras cidades do velho continente), o cineasta ao solo norte-americano – mas não a Nova York que tanto ama e que foi consagrada em sua melhor fase.

O cenário agora é São Francisco e é para lá que a protagonista da história, a bela Jasmine, é obrigada a se mudar após perder toda a sua fortuna (tudo por, em um momento de raiva, denunciar o marido por fraudes no setor de investimentos e ver todos seus bens confiscados pelo governo, afundando-se em dívidas intermináveis). Anteriormente acostumada com uma vida recheada de luxos e riquezas, agora Jasmine é forçada a procurar abrigo na modesta casa de sua irmã Ginger – irmã esta que sempre foi desprezada por Jasmine justamente por ser pouco favorecida financeiramente (além de seu duvidoso gosto para homens).

Blue Jasmine é uma comédia de situações – e, assim sendo, a maior parte dos bons momentos da trama se desenvolvem justamente nos pequenos casos que acontecem a Jasmine enquanto tenta se adaptar à sua nova realidade. Se antes Jasmine era a esposa de um investidor milionário que a mimava com as maiores regalias, agora Jasmine se vê trabalhando como recepcionista em um consultório dentário e sendo assediada pelo patrão. Se antes Jasmine servia jantares e festas a centenas de pessoas, agora é obrigada a aturar os sobrinhos berrando por toda a casa, enquanto assiste a irmã se relacionando com homens cujo tipo ela detesta.

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Estruturando o filme com vários flashbacks (que ajudam a contar toda trajetória de Jasmine até sua decadência financeira – e por que não dizer moral?), Woody constrói uma narrativa não muito linear, que se equilibra com momentos muito bons e outros medianos. Como na maior parte dos filmes do diretor, temos uma trilha sonora deliciosa de se ouvir – Blue Moonao piano fica irresistível. Quanto ao elenco, não se tem muito a dizer. Alec Baldwin, ligado no modo automático, é o marido picareta de Jasmine. Sally Hawkins, como a irmã medíocre de Jasmine, é tão cativante que chegamos a torcer para que ela realmente encontre um cara legal, como sua irmã sugere (e isso nos decepciona em determinada parte da história). Mas o destaque é, inegavelmente, de Cate Blanchet. Positiva ou negativamente.

Filmada de forma exaustiva por Allen, Cate é a típica musa do cineasta. Jasmine é uma personagem de ambiguidade sem par: ao longo da história, achamos que ela é vítima e também a culpada dos acontecimentos; achamos a protagonista inteligente e também burra; consciente, mas por vezes confusa; mas em todos os momentos, Jasmine é neurótica (como uma verdadeira protagonista de Woody Allen). Isso exigiu de Cate uma atuação cheia de nuances – suas oscilações de estado emocional se refletem na voz, nos gestos, nas expressões de seu rosto e mesmo na postura da atriz. No entanto, a interpretação um tanto quanto “narcisista” de Cate (é visível que ela pretende roubar a cena, não dando espaço para mais ninguém) sufocam a sua personagem – ou seria o excesso de ostentação de sua imagem por parte de Allen? Blue Jasmine é algo novo na carreira do diretor: é aqui que Allen mais se delicia com sua protagonista. É Cate que ocupa todos os espaços do filme.

Apesar de não ser o seu melhor filme em anos (e nem dar sinal de que Allen voltará a fazer algo grandioso como antigamente), Woody entrega uma obra que ainda faz uma alusão ao relacionamento da classe alta e o proletariado. Jasmine, excêntrica e mesquinha, é a cara da classe alta que tanto enxergamos no próprio Allen – afinal, note que mesmo sem aparecer na frente das câmeras, é possível enxergar traços de Allen em sua Jasmine. Ao longo de sua carreira, Allen filmou histórias totalmente parecidas e pouco inovadoras – perceba: sempre os mesmos tipos de personagens, as mesmas características, as mesmas ambições, as mesmas narrativas. Dessa forma, Blue Jasmine se destaca simplesmente por ser um filme de Woody Allen com a cara de Woody Allen.

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SINOPSE

Jasmine (Cate Blanchett) vive na alta sociedade em Nova York. Sua vida muda completamente quando ela separa-se do marido e perde todo seu dinheiro. Com isto ela é obrigada a ir morar com sua modesta irmã em São Francisco. Agora, distante de seu luxuoso universo, Jasmine precisará reorganizar toda sua vida.

DIREÇÃO

  • Woody Allen Woody Allen

  • FICHA TÉCNICA

    Roteiro: Woody Allen
    Título Original: Blue Jasmine
    Gênero: Comedia, Drama
    Duração: 1h 38min
    Ano de lançamento: 2013
    Classificação etária: 12 anos

    TRAILER



    1 comentário
    Por Kadu Silva em 17.11.2013






    1 comentário
    1. Bruno 17 novembro 2013 às 13:16

      Será Cate ou Jasmine a narcisista em questão? Acho que a atuação “narcisista” de Cate Blanchett procede perfeitamente aqui. Jasmine precisa ser o centro das atenções, ela é histriônica e teatral, é uma rouba-cenas compulsiva, não existe mais espaço para ninguém, por essa razão os outros personagens são tão periféricos. Cate consegue retratar todo esse narcisismo patológico brilhantemente através de sua atuação precisa, perspicaz e inteligente. Não é Cate a narcisista, e sim Jasmine.

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