CÃES ERRANTES (Crítica)

CAES ERRANTES

4estrelas

Por Pedro Vieira

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No meio de tantas produções de montagens rápidas e genéricas, o longa “Cães Errantes” (Jiao You) do diretor Tsai Ming-Liang, que venceu o Prêmio do Júri do último Festival de Veneza, é um conforto para olhar. Embora, de certo modo, o roteiro mostre a vida de um homem que vive com seus dois filhos em um prédio abandonado, o filme não tem a pretensão de contar uma história. Muito pelo contrário, ele busca enunciar a força contida na imagem cinematográfica, a partir de planos que duram minutos, e quase sempre não possuem um movimento de câmera.

São planos abertos que demonstram a solidão e a vida daqueles personagens, que poderiam ser qualquer pessoa, uma vez que o longa não os nomeia (se ouve algumas vezes o nome de um deles ser citado, mas nunca se sabe exatamente quem é). Essas pessoas são como animais, os “cães errantes” do título, pois aparecem sempre agindo de forma a satisfazer seus instintos mais naturais: comer, urinar e dormir.

Com seus planos longos, o diretor obrigado o espectador mais do que simplesmente ver a vida daqueles personagens, ele a deve presenciar e a contemplar, assim como se contempla uma pintura num museu ou a imagem do cinema na tela. Essa última metáfora é trazida pelo filme a partir da sequência em que uma das personagens aparece admirando um desenho em uma parede – ação que irá ser repetida por outras duas pessoas ao longo do filme. Infelizmente a bela cena perde sua força a partir do momento em que a personagem começa a urinar no chão.

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Essa perca da dramaticidade dos planos é algo que acontece (não intencionalmente) ao longo do filme, pois, por mais que a produção tente demonstrar a ideia do ser humano exposto a uma realidade que o coloque numa situação similar a de um animal, algumas passagens chegam a beirar o ridículo de tão estranhas. O caso mais visível disso é o momento em que o pai “ataca” um repolho que sua filha utilizava como brinquedo, tentando primeiramente sufoca-lo, para depois começar a comê-lo. Mesmo que a cena demonstrem visualmente o aspecto emocional do personagem e remeta a problemas de seu passado, ela destoa demais do resto do filme.

Embora os personagens sejam caracterizados principalmente por suas ações, algumas sequências tornam possível se ter contato com seu psicológico. A cena citada do repolho é uma delas, mas os mais emblemáticos são os poucos planos próximos utilizados pelo diretor. Um close aqui, atrelado à boa atuação dos atores, traz para a tela os conflitos internos vividos por aquelas pessoas. O prédio em que eles moram funciona de forma análoga, uma vez que o cenário é um reflexo do interior dos personagens.

A falta de uma trilha sonora e de uma temporalidade definida – depois de um momento não se sabe se o que se vê na tela é presente ou passado – salienta a concepção do filme de não contar uma história. A fotografia é incrivelmente bela, mas as imagens são tão nítidas que faz falta um uso maior de outras ferramentas da linguagem fílmica, como o desfoque, pouco visto no filme como um todo.

Não é um filme fácil de assistir, tanto pelos seus longos planos, tanto pela ausência de uma linha narrativa. Desse modo, alguns podem preferir não se aventurar em ir ver “Cães Errantes” no cinema, mas aqueles que o fizerem com certeza não se arrependerão – principalmente se buscam algo que destoe totalmente da maioria das produções atuais.

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SINOPSE

Um pai e seus dois filhos vagueiam como marginais em Taipei. Eles andam pelos rios e matas da periferia e pelas chuvosas ruas da cidade. De dia, o pai tenta ganhar algum dinheiro como outdoor humano de apartamentos de luxo, enquanto seus filhos buscam amostras grátis de comida em supermercados e shoppings. Toda noite, a família se abriga num prédio abandonado. O pai está estranhamente fascinado pelo mural que enfeita a parede da casa improvisada. No seu aniversário, a família recebe a companhia de uma mulher. Será que ela pode ser a chave para desenterrar emoções do passado?

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Tsai Ming-Liang” espaco=”br”]Tsai Ming-Liang[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Chen Yu Tung, Peng Fei Song e Tsai Ming-liang
Título Original: Jiao you
Gênero: Drama
Duração: 2h 18min
Ano de lançamento: 2014
Classificação etária: 18 Anos

TRAILER

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