CAFÉ SOCIETY (Crítica)

Kadu Silva

Apego aos diálogos

O veterano e consagrado Woody Allen é um cineasta que está próximo de completa 50 filmes em sua filmografia, com a incrível marca de um por ano. E o mais interessante que a maioria deles são fruto de roteiros originais, mas nos últimos anos Allen tem sofrido de uma repetição em suas histórias, além disso, deixando transparecer equívocos que tornam seus filmes bem irregulares. Em Café Society infelizmente não foi diferente.

O filme acontece nos anos 30, numa Hollywood efervescente, onde Bobby (Jesse Eisenberg) um ingênuo jovem de Nova Iorque busca crescimento profissional na terra do cinema, mas acaba mesmo, encontrando o amor, mas apesar de todo seu carinho com a amada Vonnie (Kristen Stewart), não consegue conquista-la, já que ela já tem outro e isso transforma completamente sua vida de Bobby.

O roteiro de Allen além de trazer uma trama previsível, apresenta subtramas dispensáveis para o desenvolvimento do arco dramático, o que acaba tornando o longa bem irregular, além disso, a falta de um ponto de virada impactante dá ao filme a sensação que ainda não aconteceu nada de fato, e como já dito, o longa parece ser mais do mesmo dentro da filmografia do cineasta.

Como é uma característica do diretor, o roteiro se apega nos diálogos ácidos e bem humorados, que ainda assim soa como uma espécie de Déjà vu.

O acabamento estético é talvez o grande acerto do filme, direção de arte (primorosa) na reconstituição de época, figurinos marcantes que vão logo de encontro com a nossa memória desse período, e logico a fotografia que além de bela é usada para acrescentar textura a trama, o sépia e o brilho ressaltam o ambiente de glamour do momento apresentado o total contraponto com a vida que Bobby levava em sua cidade natal.

O elenco está bem, destaque para Jesse Eisenberg (A Rede Social), perfeito no papel do ingênuo jovem que se transforma ao longa de história de forma orgânica e Steve Carell (Foxcatcher), que encontra o tom perfeito para o empresário das estrelas. Infelizmente Kristen Stewart (Saga Crepúsculo) é a única que se mostra abaixo das expectativas, em alguns momentos sua falta de versatilidade dramática prejudica na composição da personagem.
Café Society devido a alguns equívocos se torna uma fita facilmente esquecível, ainda que consiga divertir em alguns momentos, principalmente nos seus certeiros diálogos que Woody Allen sabe escrever como ninguém.

CAFE SOCIETY

SINOPSE

Anos 1930. Bobby (Jesse Eisenberg) é um jovem aspirante a escritor, que resolve se mudar de Nova York para Los Angeles. Lá ele deseja ingressar na indústria cinematográfica com a ajuda de seu tio Phil (Steve Carell), um produtor que conhece a elite da sétima arte. Após um bom período de espera, Bobby consegue o emprego de entregador de mensagens dentro da empresa de Phil. Enquanto aguarda uma oportunidade melhor, ele se envolve com Vonnie (Kristen Stewart), a secretária particular de seu tio. Só que ela, por mais que goste de Bobby, mantém um relacionamento secreto.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Woody Allen
Título Original: Café Society
Gênero: Comedia Dramatica
Duração: 1h 36min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 25 de agosto de 2016 (Brasil)

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2 Comentários

  1. Helena

    Chega a ser hilário a crítica a stewart. engraçado que a crítica lá de fora elogia bastante a atuação dela nesse filme. risos.

  2. Ricardo Klass

    Em seu 47º filme – um por ano a partir de 1982 – mesmo não acertando em cheio Woody Allen nos surpreende com suas neuroses mergulhadas num senso de humor refinado de cunho existencialista num roteiro bem amarrado, mas sem muitas novidades aqueles que conhecem bem o universo woodyano: um poderoso executivo na Hollywood dos anos 30 recebe um recado que seu sobrinho está vindo doutro lado dos Estados Unidos em busca de oportunidades com sua bagagem repleta de novas idéias e muitas esperanças, típicas de um jovem sonhador. Dinheiro, belas histórias e lindas mulheres! Logo de cara se encanta por Vonnie, de origem humilde mas cheia de afeto no olhar doce, uma flor no pântano de futilidades, a atenciosa secretária de seu tio interpretado por Steve Carrell (“Virgem de quarenta anos”) – já que Bruce Willis havia sido demitido do projeto inicial por causar problemas e não conseguir decorar seu texto. A belíssima história de amor não resiste ao primeiro jogo de interesses e a partir deste ponto o jovem Bobby passa agora sim ter uma idéia melhor de como as leis naturais são regidas no serpentário hollywoodiano.
    Chama atenção que apesar de um senhorzinho já septuagenário, Woody Allen dá um baile em todos nós se mostrando receptivo a novas experiências tecnológicas, lançando seu primeiro trabalho em formato digital e ainda de quebra experimenta novos formatos de tela, desta vez estreando no “Aspect ratio”, a proporção de tela 1:33 ou 4:3, atendendo pedido do premiado Vittorio Storaro, “Apocalipse Now” o “O Ultimo Imperador”.
    O único pecado seria a falta de química de Jesse Eisenberg com Vonnie (a garota “Crepúsculo”), funcionando apenas quando Bobby contracena com outros personagens, deixando muito a desejar com seus maneirismos que mais distraem invés de focar atenção do público. Como ponto alto temos os luxuosos figurinos e a produção que retrata de modo fiel toda opulência da Hollywood dos anos 30 com ricas referências históricas numa narrativa bem sólida. A qualidade de atuação de Steve Carrell dá cores mais vibrantes ao seu personagem quando interage com sua jovem secretária e amante, tornando-se assim o ponto forte do triângulo amoroso.
    Adotando uma estrutura narrativa em formato de capítulos, Café Society, inteiramente rodado em Los Angeles, é o primeiro grande investimento de Hollywood num trabalho de Allen, desde Annie Hall – Noivo Neurótico, noiva nervosa – uma bela história dos anos 30 contada pelo próprio Woody Allen fomentado assim um toque todo especial passando muito mais credibilidade para o roteiro: ele tem muita segurança naquilo que faz.
    Chama atenção na capacidade do autor pegar um tema e desenvolvê-lo de modo tão eficaz prendendo atenção do inicio até o desfecho, uma vez que até para identificar a tipificação da obra fílmica já demanda algum conhecimento: drama ou romance histórico!? Woody Allen desfila por todas as vertentes com a naturalidade de quem já está na estrada há mais de 50 anos, escrevendo, dirigindo e interpretando. A enorme quantidade de ramificações necessárias nos transporta da tragédia contada através de um romance irônico dramático regado a muito sarcasmo próprio da personalidade do Diretor, um humor ácido e agudo como navalha, não perdoa ninguém: não se estranha nem um pouco Ingmar Bergman ser seu Diretor preferido, contundente e preciso como um cruzado de esquerda na ponta do queixo, pondo todos nós na lona, e ainda agradecemos a ele muito por isso.
    Com um elenco de primeira linha, logo percebemos a estreita relação do protagonista Bobby mesclando com a história do próprio Diretor e sua evolução ao longo dos anos, sua capacidade de aprender com as traições contornando todas as barreiras com inteligência e muito trabalho, abrindo mão do sonho do cinema por um café em Nova York freqüentado por membros da alta sociedade americana. As pequenas histórias inseridas auxiliam no enredo sem tirar o foco principal, como o irmão gangster que encontra seu espaço de atuação a seu modo de agir independente de estar certo ou errado, afinal a obra não tem intenção de julgar, apenas narra fatos históricos e nos apresenta uma nova face até então desconhecidas para a grande maioria: enquanto se proibia bebidas alcoólicas e censurava-se tudo nos roteiros, na vida real quase todos os dias homicídios aconteciam a luz do dia na frente de crianças nas escadarias de Nova York todos os dias.

    RK.