CANTANDO DE GALO (Crítica)

Juca Claudino

Toto – Um Lutador

Antes de qualquer coisa, é necessário falar que todo caso de maus tratos, tortura ou violência aos animais é de enorme crueldade, covardia e todos os adjetivos com valores semânticos similares, além de uma atividade criminosa. Mas vivemos em uma sociedade que se depara com o aniquilamento cotidiano de bois, vacas, porcos e aves (em uma produção industrial alimentícia que gera exorbitante lucro) nos horários de almoço e reagimos a isso com significante naturalidade – mesmo tendo recursos para nos alimentarmos de formas alternativas às que provocam tais mortes.

“Cantando de Galo”, animação mexicana dirigida por Gabriel e Rodolfo Alastrite baseia seu roteiro nas rinhas de galo e estas, a exemplo do que são as touradas na Espanha, tem inegável tradição cultural e de identidade com regiões do México. Quem não se lembra do filme de Alejandro G. Iñarritu “Amores Brutos” e as cenas envolvendo essas lutas? Mas, tendo tradição cultural ou não, a Declaração Universal dos Direitos dos Animais (proclamada em 1978 pela UNESCO) garante, em seu artigo 3, que “nenhum animal será submetido nem a maus tratos nem a atos cruéis”. Logo, fazer um filme que romantiza as rinhas de galo e idealizar os animais colocados na arena como heróis – enquanto estão na verdade sendo submetidos a maus tratos – não foi uma escolha contestável?

O longa infantil conta a história de Toto, um frango adolescente, que cresceu sobre o fetiche de ser um grande campeão dos ringues e, ao ver sua fazenda colocada a venda por não terem mais renda para pagarem suas dívidas, decide apostar uma grande quantia em uma luta nas competições de rinha de galo na esperança de que consiga vencer o prêmio e salvar sua casa (mesmo não tendo experiência qualquer). “Cantando de Galo” é o terceiro filme da trilogia dirigida por Gabriel e Rodolfo Alastrite, sendo o único a ganhar um título no Brasil (o primeiro, “Una Película de Huevos”, é de 2006 e o segundo, “Otra Película de Huevos y un Pollo”, de 2009). O primeiro foi vencedor do prêmio Ariel de Cinema Mexicano de Melhor Animação, inclusive. Todavia, não é necessário, tendo em vista o entendimento da narrativa, que tenhamos visto os outros dois filmes para esse terceiro. Até mesmo a temática das lutas não havia aparecido antes desse “Cantando de Galo”.

Quer dizer, talvez você sinta maior empatia e afeto pelos personagens principais desse longa tendo assistido aos dois primeiros filmes. É fato que, nesse terceiro, o tom genérico do desenvolvimento dos personagens faz com que pouco se sobressaiam empaticamente: os primeiros minutos de longa constroem escassamente a identidade de cada um – ou seja, embora o entendimento da narrativa pouco nos impeça de sermos contagiados pelo filme, é fato que as motivações dos personagens possam parecer pouco contagiante caso não tenhamos assistido aos dois primeiros longas. O contágio emocional talvez só venha no decorrer de “Cantando de Galo”, quando o galo Toto cada vez mais se apresenta um herói idealizado, vivendo uma história de superação sobre-humana (nos moldes mais românticos possíveis) guiado por um valor idealizado de salvar a todos.

Mesmo assim, o longa perde em identidade não só no seu visual (que é bem genérico, inclusive) mas também na forma como os coadjuvantes (estreantes e dissidentes) parecem demasiadamente deslocados da história e, logo, contradições ao ritmo da película. Ritmo esse que, tendo em vista a proposta de entreter em um estilo hollywoodiano de “Cantando de Galo”, mostra-se pouco trabalhada, com muitas nuances e alguns alívios cômicos mal colocados.

Aliás, é necessário falar que não só alguns personagens parecem deslocados da película como as personagens femininas aparecem no longa ou apenas para cumprir com o velho cliché de par amoroso – no qual a representação da figura feminina é feita como dependente de uma figura masculina “ao seu lado” -, ou para cumprir com o velho cliché de “mãe” recatada e do lar.

Quanto aos aspectos positivos do filme, o que se sobressai é a forma como adapta os arquétipos de “filmes de luta” para o cinema infantil. As referências a Rocky Balboa são evidentes, e concedem lampejos de empolgação (em especial nas cenas finais). A última cena (a luta final) vai no âmago dos clássicos de filmes de boxe, por exemplo, e consegue carregar certa apreensão. Outro fator destacável é a figura do “Ovo Padrinho”, referência direta ao Don Corleone de “O Poderoso Chefão”, o cartola das lutas de boxe – e um alívio cômico certeiro. Mas veja só: um filme à la Hollywood, extremamente americanizado, dialogando diretamente com filmes do cinema estadunidense para… fazer referência a algo relacionado à cultura mexicana? Eis um mundo no qual a hegemonia e o imperialismo estadunidense são tão culturais como políticos e econômicos.

CANTANDO DE GALO

SINOPSE

Toto é um jovem galo que é o menor de todos na granja onde nasceu. Ele tem o grande sonho de se tornar o grande galo do povoado. Mas quando um fazendeiro ameaça destruir o seu lar e a sua família, Toto e seus amigos irão viajar para encontrar um treinador que possa ajudá-lo a defender seu lar ao mesmo tempo em que vivem uma grande aventura e a descoberta do amor.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Gabriel Riva Palacio” espaco=”br”]Gabriel Riva Palacio[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Gabriel Riva Palacio
Título Original: Un Gallo con Muchos Huevos
Gênero: Aventura
Duração: 1h 38min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: Livre

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