CASAMENTO DE VERDADE (Crítica)

Juca Claudino

No mundo, são apenas 23 países nos quais existe o casamento igualitário. E por mais que devesse ser um direito o matrimônio entre qualquer pessoa (uma vez que se tem amor, é família), somente em 1989 um país aprovou o casamento homoafetivo – a Dinamarca, no caso. A luta contra a intolerância e contra o preconceito conseguiu assegurar direitos à comunidade LGBT+ nos últimos anos, todavia ainda no século XXI persiste (e muito muito mesmo) a violência contra homossexuais, bissexuais, transgêneros, transsexuais, travestis ou qualquer orientação sexual e manifestação de identidade de gênero que não seja hétero e cisgênero. Ainda, infelizmente, não é raro que algum líder de opinião ou líder político publicamente diga palavras preconceituosas e que ataquem os direitos LGBT+ (muitos desses direitos ainda nem se quer garantidos pelo Estado).

Se o mundo em que vivemos ainda não é capaz de aceitar todas as formas inofensivas e legítimas de amar e de ser, Harvey Milk – primeiro homossexual a assumir um cargo político na Califórnia – deixa o recado: “a esperança nunca vai ser silenciada”. Esperança essa que nas artes e no cinema, claro, mostrou sua cara: do diretor espanhol Pedro Almodóvar, “Tudo Sobre Minha Mãe”; da diretora argentina Lucía Puenzo, “XXY”; do diretor estadunidense Gus Van Sant “Milk – A Voz da Igualdade”; do canadense Jean-Marc Vallée, “C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor”; e do brasileiro Karim Ainouz, “Praia do Futuro”, e tantas outras obras que levantam o grito pela tão necessária igualdade.

O novo filme de Mary Agnes Donoghue, “Casamento de Verdade”, pretende ser um filme com a intenção de clamar por visibilidade e por igualdade ao registrar a história de Jenny (Katherine Heigl), uma garota prestes a se casar com Kitty (Alexis Bledel) mas que ainda não assumiu ser homossexual para os pais, temendo que estes – vividos por Eddie (Tom Wilkinson, talvez a melhor atuação do filme) e Rose (Linda Edmond) – não consigam aceitá-la porque “aquilo não é normal”. Sim, os pais de Jenny vivem presos a uma visão de mundo que não só é heteronormativa como também enxerga imoralidades em “não se casar”, “não ter filhos”, “não formar uma família”. Enfim, os pais de Jenny são o arquétipo do discurso conservador e intolerante velado. A partir daqui, já poderíamos desenvolver uma trama profunda das marcas da homofobia e seus efeitos unicamente desprezíveis e negativos para a sociedade – coisa bem perceptível na recente vida política do Brasil, quando discursos com tons preconceituosos e ofensivos cresceram junto ao crescimento de um sentimento autoritário.

Porém, o filme perde a oportunidade de contar uma história verdadeiramente humana para trabalhar algo meramente superficial e pouco inteligente quando o assunto é “clamar por visibilidade e por igualdade”. Antes de tudo, a relação de Kitty e Jenny é extremamente superficial e parece ter sido trabalhada em cena de forma parecido a como as novelas brasileiras trabalham a relação entre casais de mesmo gênero, com um desenvolvimento pobre e artificial do amor que ambas sentem uma pela outra: uma mão no ombro aqui e raros selinhos acolá, sendo que Kitty quase não aparece no filme – mesmo que ela seja a noiva – deixando Jenny dialogando pela aceitação de seus pais sozinha.

Na verdade, o filme se torna algo como “um empurrãozinho para que os pais de pessoas homossexuais os quais não aceitam esse fato consigam tolerar esse fato”. “Casamento de Verdade” se vira ao público conservador, porém sendo problemático na sua tentativa de desconstruir preconceitos, quase que dizendo: – tudo bem ele ser gay desde que viva dentro dos padrões da família tradicional, casando-se e mantendo tudo em ordem. Tenho a hipótese, inclusive, de que aquela visão de imoralidade em “não se casar e não formar uma família” apresentada pelos pais de Jenny sejam compartilhadas pela visão de mundo do filme… E para fechar o baú, o longa também peca ao dar pouco espaço para o ponto de vista da personagem principal sobre o que ela vivia (coisa essencial pensando em representatividade, ainda mais em um filme que propõe isso).

Com uma linguagem bastante televisiva e pouco carismática, o filme tem uma pegada meio “Filme Disney Channel” pois, além de tudo, exagera no melodrama imposto pelas canções (sim, temos canções nesse filme) para dar um reforço narrativo a “Casamento de Verdade” – a música fica deslocada e fora do tom do ritmo da película. É um filme que tenta desconstruir tabus sobre a orientação sexual, e se mostra bem intencionado, porém o faz de forma apática ainda cheio de pudores em como retrata o casal de Kitty e Jenny e muito pouco convincente na forma como retrata o desenrolar da relação entre Jenny e sua família.

CASAMENTO DE VERDADE

SINOPSE

Jenny (Katherine Heigl) é uma mulher adulta que sofre grande pressão da família para encontrar um marido e se casar. Mas os pais ainda não sabem que Jenny é lésbica, e namora Kitty (Alexis Bledel), que todos acreditam ser apenas uma colega. Quando revela sua orientação sexual, a família entra em crise. Mesmo assim, Jenny pretende se casar, com a aprovação dos pais ou não.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Mary Agnes Donoghue” espaco=”br”]Mary Agnes Donoghue[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Mary Agnes Donoghue
Título Original: Jenny’s Wedding
Gênero: Comedia, Drama
Duração: 1h 35min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 9 de junho 2016 (Brasil)

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