Central do Brasil (Crítica)

Ricardo Rocha

“TENHO SAUDADE DE TUDO”

Uma professora aposentada decide escrever cartas para pessoas analfabetas como forma de complementar a renda mensal. No entanto, nem todas as cartas chegam ao destino delas, pois esta personagem acaba se aproveitando dessas pessoas com pouca instrução. Mas quem seria a vítima? Neste jogo selvagem onde vencem os mais espertos, aparece um garoto, completamente perdido no mundo, em busca de seu pai, em busca de um destino, a esperança que se estabelece quase que como uma romaria poética. Este retrato mais que brasileiro, é em poucas linhas a trama de “Central do Brasil”, filme de 1998, dirigido por Walter Salles, quer marca o triunfo da retomada com nossa primeira e única indicação ao Oscar de melhor atriz para Fernanda Montenegro, e também nossa ultima indicação ao Oscar de filme estrangeiro, e já se passaram 20 anos.

Hoje temos internet, a tecnologia caminha no meio de nós, e as cartas viraram quase que peça de museu. Mas todo o saudosismo e romantismo de uma época não tão distante permanece quase que intocada. Em 1998 quando o filme chegou aos cinemas no dia 3 de Abril, ainda era exibido uma das maiores bilheterias de todos os tempos “Titanic” (1997) de James Cameron, e como sempre aconteceu, e ainda acontece o filme nacional sempre era exibido em poucas salas, e pouca gente tinha acesso, ainda sim, numa época onde a economia do pais tentava aos poucos se erguer, o público total foi de mais de 1 milhão de pessoas nos cinemas.

Walter Salles teve a ideia de escrever Central do Brasil, até então um simples argumento, em 1993, na época tinha apenas 37 anos. Havia uma crise no Brasil sem fim, o cinema estava praticamente extinto devido ao fechamento da Embrafilme, foi quando Walter recebeu uma carta de seu amigo Frans Krajcberg, que o fez pensar imediatamente num cenário perfeito para o que seria a vir Central do Brasil. Antes ele havia feito o elogiado “Terra Estrangeira”(1995) que abordava a situação política do país. Até por fim que entregou sua história aos roteiristas João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein, para que então pudesse ser concretizado a obra de sua vida.

Fernanda Montenegro, mal podia imaginar o alcance que a aquela história, de uma professora aposentada em busca de seus sentimentos perdidos, e um garoto em busca de uma identidade, poderia alcançar o mundo e o efeito que foi ao ser exibido em vários festivais, a começar em Sundance onde teve sua primeira exibição, até sair do festival de Berlim com os 2 prêmios principais em mãos de melhor filme e melhor atriz, o primeiro filme brasileiro a conseguir essa façanha. Sua personagem Dora, hoje virou até meme nas redes sociais, é uma das personagens mais fortes e marcantes da história do cinema, a forma como sua persona se transforma ao longo do filme e como depois torcemos desesperado por aquela mulher, que tinha um pai alcoólatra e nunca se casou, ou teve filhos, uma mulher totalmente independente, mas com um caráter um tanto duvidoso, uma mulher que se desconstrói, que arruma aquele jeitinho brasileiro para se dar bem a qualquer custo, inclusive quanto tenta entregar Josué, ou melhor, vendê-lo para pessoas para comprar o tão sonhado aparelho de televisão. Se Fernanda foi injustiçada no Oscar, pra nós brasileiros, só foi a certeza que ela era e permanece como a nossa maior atriz que já pisou nesta terra.

Vinicius de Oliveira que o diga, seu destino se cruzou com a ficção do filme que propriamente imitava a vida. Assim como muitos meninos que deixavam a escola para começar a trabalhar desde cedo, era Vinicius, que foi descoberto pelo próprio diretor enquanto executava seu serviço de engraxate. Em pensar que toda naturalidade que seu personagem coloca em cena é real, seja por suas roupas simples, por um sanduíche que a Dora lhe oferece, assim como o diretor Walter Salles, lhe ofereceu um sanduíche quando se encontraram a primeira vez. A química perfeita entre ele e Fernanda Montenegro foi essencial para criar uma junção de momentos únicos, como a cena de Dora deitado no colo de Josué, que também virou cartaz do filme, o velho com o novo, o retrato da desigualdade no Brasil, o retrato de filhos sem pai, e mães solteiras. O retrato com a estátua do Padre Cícero que serviu como uma catarse para um dos finais mais emocionantes da história do cinema brasileiro.

Marilia Pêra apesar de ter uma participação pequena é essencial para o desenvolvimento da personagem Dora, além de trazer a leveza que o filme pede em alguns momentos de tensão, como na cena icônica que ela recebe a ligação de Dora, logo após a mesma fugir com o menino desesperada. Irene está apreensiva, mas sem saber o certo da atitude de Dora, quando ela usa de palavras que soam engraçada como “Soldado” se referindo a personagem de sua amiga e sua boa ação, ou melhor, contornar o mal que ela havia feito. Irene é quase como a consciência presente de Dora, sempre com boas intenções e um olhar cheio de esperança, nunca desiste da amiga, mesmo participando das leituras das cartas que ficam todas no purgatório, ou melhor na gaveta do armário da sala. Marília Pêra faleceu em 2015 mas deixou um personagem carinhoso, que pode ser visto também como uma amizade verdadeira com a Fernanda Montenegro que transcende a tela a história aqui contada.

Antônio Pinto é o responsável pela parte que toca nosso coração ao soar as primeiras notas de piano de uma composição que vai além da tela. Filho do cartunista Ziraldo (criador do personagem Menino Maluquinho) e de um talento excepcional que o levou a compor trilhas para filmes fora do Brasil. Seu tom minimalista mas profundamente sentimental ajudou a contar a história que Walter Salles desenhou na sua cabeça. O piano e o violino ao final do filme só reforçam todo o poder em cena quando Dora começa a narrar a carta em que escreve:

“No dia que você quiser lembrar de mim, dá uma olhada no retratinho que a gente tirou junto. Eu digo isso porque tenho medo que um dia você também me esqueça.Tenho saudade do meu pai, tenho saudade de tudo. Dora”

Central do Brasil é uma rica e cativante experiência ao interior do nosso país, a busca de todos nós por um lugar onde somos aceito da nossa maneira. Um filme saudosista de um tempo que ficou lá atrás, para lembrarmos que pouca coisa mudou, a história de um pais que ainda tenta achar sua própria identidade.

Foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo (2018), com a presença de Fernanda Montenegro, Vinicius de Oliveira e o diretor Walter Salles, onde fez novamente toda uma platéia cair aos prantos com direito a discurso politizado do diretor e uma pequena, mas notável mudança nos créditos iniciais do filme devido a restauração. Será lançada uma versão em blu-ray no final de 2018 com essa mesma restauração feita em 4k, onde aconteceu na França, devido ao Festival Ritrovato.

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