CERTO AGORA, ERRADO ANTES (Crítica)

Juca Claudino

Amores cotidianos

O jornalista Fathiesco Ballerini (em texto publicado na revista Cult do ano passado), quanto ao ano de 2015, afirmou que “a Coreia [do Sul] já pode comemorá-lo como o mais importante de seu cinema recente, em termos artísticos e industriais”. Bom, sem entrar no mérito de sua indústria cinematográfica gabar-se por ter vendido 215 milhões de ingressos, com 50% destes em filmes nacionais (fruto, além do talento de sua atual geração, de uma série de políticas públicas de incentivo), foquemos aqui na rica leva de autores e filmes que hoje dão ao cinema sul-coreano projeção mundial intensa: falo de obras como A Trilogia da Vingança (Mr. Vingança, Oldboy e Lady Vingança), de Chan-Wook Park, ou então do acre e realista – por diversas vezes retratador da marginalidade na sociedade sul-coreana – Kim Ki Duk (diretor de películas como “Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera” e “Casa Vazia”), do sinistro e folhetinesco Joon-Ho Bong (diretor do sci-fi “O Hospedeiro” e do quase noir “Mother – A Busca Pela Verdade”) ou então do humano e comovente cinema de Lee Chang Dong (“Poesia”).

Mas, de tantos destaques que poderia falar aqui (e a lista é grande), Hong Sang-soo tem um lugar fundamental: com seu cinema discreto, sutil e sobre situações triviais, de enquadramentos abertos, lentos e permanentes, conseguiu chamar atenção do público e crítica com “O Dia em que o Porco Caiu no Poço”, em 1996 – no qual conta quatro histórias cotidianas vagamente interligadas. Foi um dos nomes mais relevantes para o cinema independente da Coreia do Sul, e desde então vem figurando nas listas de festivais internacionais, com uma filmografia contando “Filha de Ninguém” (2013), “A Visitante Francesa” (2012), “Conto de Cinema” (2005) e “A Virgem Desnudada Por Seus Celibatários ” (2000).

Nesse seu mais novo filme, “Certo Agora, Errado Antes”, novamente faz jus a uma de suas mais próprias características: a semelhança tanto temática quanto entre a linguagem de seus filmes, duas coisas que são extremamente particulares de Sang-soo. Opta, assim sendo, por criar mais uma de suas crônicas cotidianas sobre a complexidade emocional humana, e nessa película faz com um misto entre otimismo e pessimismo, derrotismo e esperança. As personas de Sang Soo são sempre carregadas de uma névoa sentimental, de confusões afetivas e desordem quanto as suas decisões e posturas. E nesse seu novo filme os dois personagens que protagonizam a pequena (e peculiar) história de amor, Ham Cheon-soo (interpretado por Jae-yeong Jeong) e Yoon Hee-jeong (interpretada com doçura por Min-hee Kim), ganham proporções profundas nos seus desenvolvimentos emocionais: o primeiro é um famoso diretor de cinema, a segunda é uma pequena artista plástica grande admiradora do trabalho do primeiro, e ambos sentem-se sós na monotonia do dia-a-dia e na falta de passionalidade – a ideia do tédio e da exagerada formalidade que nos impedem de atingir a intensidade. Eis que, durante um dia pacato encontram-se na rua e inofensivamente começam a conversar. Algo de estranho acontece, pois com certa timidez um começa a demonstrar afeto pelo outro e, então, acabam passando o dia inteiro juntos conversando.

É com extrema delicadeza e sutileza, num tom apaixonante, que Hong Sang-soo exibe na tela o descortinar das paixões entre Yoon e Ham, não só pelo fato dos dois aparentarem uma certa correspondência amorosa mas também por abrirem-se sobre as angústias sentimentais que escondem por detrás da aparência calma que carregam. É em uma cena na qual bebem no bar (e nos momentos em que Sang Soo “alcooliza” seus personagens, naturalmente eles começam a “soltar as verdades” que reprimiam dentro de si) que ocorre uma catarse: é como se ambos ganhassem um momento de fuga da “vida normal” e pudessem exprimir todos os descompassos e toda a solidão que vivem, em uma sociedade cada vez mais impessoal e líquida. Uma cena não, na verdade: em duas cenas, pois o roteiro conta uma versão da crônica até a metade do filme e, então… bom, melhor não contar pois talvez esta seja a melhor parte de “Certo Agora, Errado Antes” e, então, que a mantenhamos em segredo (com apenas uma dica: o título do filme se justifica por ela). Dois personagens incrivelmente empáticos, com um filme delicado que mistura momentos de êxtase sentimental com outros de graciosa melancolia – e alcança um resultado muito bonito.

É verdade que podia Sang-soo apostar em um visual sinuoso e uma atmosfera melodramática para acompanhar o estudo de seus personagens, mas faz exatamente o contrário: seu tablado é o cotidiano contemporâneo, e sua estética é morna, com enquadramentos que naturalmente optam pelo plano geral e ficam durante muito tempo imóveis. É um cinema lento, que pouco opta por algo meramente extravagante. Todavia, de muita graciosidade e leveza quando acaba carregando uma áurea discreta e sutil, reafirmando que enxergamos um causo trivial do dia-a-dia. Mas, por detrás da “normalidade” que o cinema de Hong Sang Soo tenta transmitir daquilo que conta, esconde-se uma reflexiva visão sobre nossos sentimentos, sobre a forma como eles têm o súbito poder de nos deixar confusos conosco mesmo.

Fazendo filmes de orçamento barato, Sang-soo de um tempo para cá vem rodando muito e lançando uma nova obra a cada ano desde 2008 – e em nenhum momento aparentou ter perdido o fôlego inventivo, sempre cativando com seu cinema. E com “Certo Agora, Errado Antes”, película lançada em 2015, reelabora brilhantemente seus temas prediletos, transmitindo doçura mesmo que pelos seus enquadramentos frios.

CERTO AGORA ERRADO ANTES

SINOPSE

Por engano, Ham Cheon-soo (Jae-yeong Jeong) chega a cidade coreana de Suwon um dia antes do previsto. Para passar o tempo, ele vai até um antigo palácio, onde encontra uma artista chamada Yoon Hee-jeong (Kim Min-Hee). Juntos, eles vão até a loja de Yoon para admirar suas pinturas, comer sushi e se conhecerem. Em seguida, eles vão para um bar encontrar com amigos de Yoon. Ao ser perguntado se é casado, Cheon-soo admite que sim e decepciona a artista.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Sang-soo Hong” espaco=”br”]Sang soo Hong[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Sang-soo Hong
Título Original: Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da
Gênero: Drama
Duração: 2h 1min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 19 de maio de 2016 (Brasil)

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