CHANNEL ZERO: CANDLE COVE | 1ª Temporada (Crítica)

Matheus Souza

É triste ver uma série que tinha potencial e capacidade de inovar no gênero, quando comparada a suas concorrentes televisivas do mesmo segmento, falhar em coisas tão simples. Channel Zero tinha um plot interessante, uma abordagem original e uma qualidade técnica que chamaram a atenção ainda no seu piloto. Era difícil não sentir que se assistia a um filme independente no decorrer do seu primeiro episódio. Ao menos nele acertaram em cheio, souberam preparar bem o terreno, mostraram a proposta da série, levantaram inúmeros mistérios e fizeram com que pensássemos que seu ritmo lento se devia ao fato de ser uma simples apresentação.

Foi só passar do piloto, mais especificamente, a partir do terceiro episódio, para as coisas começarem a desandar e a “encheção de linguiça começar”. Muito dos episódios são tomados por um aparente despropósito narrativo, em que a lentidão chega a causar sono e toda sua relevância é explorada apenas nos dez minutos finais do capítulo, quando a partir daí a série acelera no quesito mortes, por exemplo. Ok, que nem todos seguem por essa falha, boa parte até se saem bem, porém acabam escorregando em outro aspecto, seja na lentidão (propositada) ou decepcionando o público, que fica esperando resoluções mais complexas.

A ideia central da temporada é acompanhar Mike Painter, um psicólogo infantil renomado, que após vários anos decide voltar a sua cidade natal, responsável por seus traumas de infância, como a morte de seu irmão gêmeo e uma série de assassinatos. Todos eles ligados a um programa infantil exibido na época, que além de despertar um comportamento violento, também colocava as crianças em um estado praticamente de transe. Como se não bastasse, muito mistério ainda cerca o programa, já que apenas as crianças eram capazes de assisti-lo (adultos apenas enxergavam estática na tv) e não existe nenhum vestígio da existência do show. Porém ao retornar à cidade, Mike além de mexer com velhos fantasmas, também tem de lidar com outros dramas, como ver a história se repetir com a nova geração de crianças e entender mais sobre um monstro feito de dentes que passa a o assombrar.

Mais do que terror, toda atmosfera de mistério da série, faz com que ela tenda ao gênero de suspense, visto que durante toda a temporada somos instigados a prosseguir episódio a episódio, a fim de alcançar as tão almejadas respostas. Muitos capítulos vão rendendo algumas, como o segundo ou o quinto, que apresentam soluções importantes, mas que podem decepcionar o público pela previsibilidade e falta de criatividade. O que é decepcionante, já que o recado era simples: tinham uma ótima ideia em mãos, com grandes mistérios e por se tratar de uma antologia, não havia porque algo dar errado. Mas não foi o que aconteceu, no episódio cinco são apresentadas respostas desproporcionais aos grandes questionamentos que cercaram a temporada.

Com relação à parte técnica da série não há o que se reclamar, na verdade, só há elogios. A fotografia da série, que se assemelha a de um filme independente, é muito competente e combina com o cenário de cidade pequena. Os cortes rápidos que mostram 1988 ajudam tanto no processo de construção do enredo, quanto a amarrar as tramas, e os efeitos sonoros são cruciais a narrativa, já que sustentam a maior parte do suspense e tensão da série.

Aos trancos e barrancos, Channel Zero até conseguiu atingir seu diferencial, não é uma produção sangrenta e com assassinatos ocorrendo a cada cinco minutos, seu terror é mais psicológico do que visual – embora as aparições do monstro feito de dentes sejam bem agoniantes. O show possui a lentidão e o mistério como principais características, o que pode agradar a uns e desagradar a outros (como eu). Felizmente o desfecho de tudo garante um alívio para quem aguentou os últimos episódios, ele consegue ser um episódio verdadeiramente assustador, com a aparição de novos monstros em uma dimensão bizarra.

A conclusão que cheguei depois dessa primeira temporada considerável boa, embora tivesse um potencial de ser algo melhor, é que roteiro da série poderia ter sido melhor aproveitado em uma produção mais curta, seja com menos episódios ou no formato de longa para TV. Porém, tenho certeza que mesmo com os contras apresentados, a produção ainda tem um público capaz de apreciá-la, basta o espectador ser paciente, não ter problemas com desenvolvimento lento e gostar de suspense.

CHANNEL ZERO CANDLE COVE

FICHA TÉCNICA

Criador: Nick Antosca (2016)
Elenco: Amy Forsyth, Paul Schneider, Fiona Shaw…
Gênero: Terror, Suspense
Número de episódios: 6
Duração: 42 minutos
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 anos (EUA)

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