CHOCOLATE (Crítica)

Juca Claudino

Belle Époque?

Belle Époque. Virada do século XIX para o século XX. Na França, assim como em toda Europa Ocidental, a burguesia estava em entusiasmo, principalmente pelos avanços da ciência e pela prosperidade do capitalismo – do ponto de vista burguês – após as Revoluções Industriais. Comemoravam os adventos que trazia a “modernidade”. Contemporâneo a isso, o neocolonialismo, o imperialismo: a Europa impôs a diversas sociedades, principalmente na África e na Ásia, meios de submissão. Europeus ocuparam territórios que não lhes pertenciam e dominaram política e economicamente tais regiões (semelhante a como haviam feito no século XVI aonde hoje chamamos de continente americano), as colocando no degrau mais inferior da Divisão Internacional do Trabalho. Buscavam mais mercado consumidor e novas fontes de matéria prima, graças à expansão econômica que aumentou o acúmulo de capitais e de pólos industriais no continente europeu. Todavia, esta não era a única justificativa que deram ao processo do neocolonialismo.

O evolucionismo, o darwinismo social, as teorias raciais, a eugenia. Pensamentos preconceituosos e racistas, hoje cientificamente desconstruídos, que à época deram origem ao conceito do “fardo do homem branco”: a população branca e europeia seria a “raça”, para os pensadores que defendiam tais teses, “mais evoluída” e consequentemente aquela que atingiu o ápice do progresso e da civilização. Em contrapartida, os africanos, asiáticos, indígenas seriam as “raças mais primitivas” ainda em estágios inferiores de civilização. Portanto, os europeus teriam o fardo de levar tal progresso e tal civilização aos povos que viam como primitivos e atrasados. Tal forma de pensamento, no século XIX, era não só muito aceita como deu origem ao nazifascismo. E claro, infelizmente tudo isso deixaria graves feridas: se hoje temos a intolerância racista, velada e explícita, dentro de nossa sociedade, muito se deve a tais “teorias”. O francês Roschdy Zem, diretor de “Chocolate”, é afrodescendente e ascendente de família marroquina. Nesse filme, consegue fazer um retrato sensível e ao mesmo tempo impactante de um ator negro (vivido por Omar Sy) e sua tentativa de vencer o racismo do mundo eurocêntrico do final dos oitocentos.

Já que falamos de Omar Sy, vamos começar elogiando sua atuação: desde que venceu o César de Melhor Ator pela bem sucedida comédia “Os Intocáveis” (2011), vem estreando diversos projetos seguidos (“Samba”, “A Espuma dos Dias”), mantendo-se em bom nível todos esses anos. Em “Chocolate”, interpreta Rafael Padilla, um artista do começo do século XX que se tornou popular ao interpretar o palhaço Chocolat (com quem fazia a dupla de palhaços Footit e Chocolat, juntamente a George Footit), cubano crescido na Europa filho de pessoas escravizadas. Omar Sy consegue entregar um personagem deveras humano e empático, dando simpatia a primeira metade da história que se postula como uma dramédia sobre o surgimento da dupla de palhaços e a conquista de sua popularidade na Paris da virada do século XIX/XX. O filme inclusive trabalha seu visual buscando nos ambientar visualmente dentro da Belle Epóque, com sua paleta de cores vivas junto a uma direção de arte e figurinos extravagantes e elegantes, criando uma nostalgia “art nouveau”. Ao mesmo tempo, Zem parece querer também ser nostálgico ao escolher James Thiérrée para interpretar Georges Footit, uma vez que em tela parece o ator reencarnar figuras como Rodolfo Valentino ou Buster Keaton, graças ao seu charme exótico e pré-rafaelita que à época demarcavam os padrões de beleza (Thiérrée é neto de Charles Chaplin, por falar nisso).

Mas é fato que a arte elitista do período da Belle Epóque, marcada por movimentos como o “Esteticismo”, não tinha muito apreço por temas sociais e morais. E a primeira metade de “Chocolate”, até então, não simbolizava que o filme atingiria tamanho teor socialmente crítico como ele realmente tem, já que se preocupava em construir uma narrativa sobre a ascensão da popularidade da dupla Footit e Chocolat. É em uma cena envolvendo uma agressão racista cometida pela polícia parisiense sobre o personagem de Omar Sy, que aos poucos ganhava maior status dentro da “alta sociedade”, que o filme assume um engajamento de denúncia social fortíssimo. Aos poucos, Rafael Padilla entende que sua prisão ocorreu graças ao fato da elite europeia nunca aceitar uma pessoa negra como parte dela. Entende que estava em um contexto preconceituoso, que o marginalizava socialmente pelas origens de sua família e pela cor de sua pele. Em uma cena, até mesmo, é retratado um zoológico humano, onde pessoas que não tinham origens europeias (já que, como disse, a Europa nesse momento interpretava que eram raças menos “evoluídas” e mais “primitivas”) eram mantidas presas e em exposição pública, sendo portanto desumanamente encaradas como animais (embora animais também não devessem ser expostos em zooloógicos). Vale lembrar que nesse período ocorreu a Conferência de Berlim, onde as potências industriais europeias literalmente dividiram entre si o continente africano, tornando-o colônias europeias além de violentar toda a tradição cultural e todas as formas de organização das sociedades africanas.

“Chocolate” é uma película impactante, uma vez que da atmosfera simpática migra para o retrato de uma crise humanitária a qual deixa, infelizmente, impactos profundos ainda em nossos tempos. Rafael Padilla, ou “Chocolat”, entende então que seu sucesso como palhaço ocorria pois era uma pessoa negra sujeita a situações humilhantes e risíveis no circo, e assim decide lutar contra os valores racistas e etnocêntricos de seu tempo. Enquanto isso, o filme não perde o tom sutilmente melodramática, demonstrando toda a sua sensibilidade ao narrar um humano drama sobre identidade, alteridade, preconceito e etnocentrismo – explorando um período da história da humanidade cuja gravidade dos discursos racistas presente nesse tempo não podem ser esquecidos, pois explicam muito da intolerância presente em nossa cultura.

Rodshdy Zem já foi indicado 5 vezes ao Prêmio César (o “Oscar francês”), 4 como ator e 1 vez como roteirista (pelo seu filme “Omar m’a tuer”). Dirigiu além das duas películas já citadas como de sua autoria – aos desatentados, “Chocolate” (2015) e “Omar m’a tuer” (2011) – a comédia “Mauvaise foi” (2006) e o drama “Bodybuilder” (2014). Como ator, foi premiado com a Palma de Ouro de Melhor Atuação em 2006 pelo seu papel no filme “Dias de Glória” (indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, pela Argélia inclusive), dirigido por Rachid Bouchareb. Aqui, nessa cinebiografia, dirige um filme que se não é contagiante pelo seu ritmo, é (e muito) pelo seu elenco: Sy e Thiérrée estão notáveis conduzindo o filme.

Na semana passada, critiquei o excelente “O Botão de Pérola”, de Patricio Gúzman, e disse que esse longa documentário ganhava projeção incrível ao debater as injustiças e atrocidades do passado sul-americano em um momento no qual parece o discurso autoritário crescer dentro da política brasileira. E, de certa forma, a xenofobia, o etnocentrismo e o extremismo conservador vem ganhando força na política mundial. No cenário político do continente europeu – e em especial a França de Rodschy Zem, com partidos de extrema-direita ganhando força – infelizmente não é diferente, mas tal fato faz com que “Chocolate” de mesma forma ganhe uma projeção incrível, mostrando-se uma película atual – pronta a expor as veias abertas de um mundo que permanece muito racista.

Chocolate

SINOPSE

O jovem negro Rafael Padilha (Omar Sy) nasceu em Cuba em 1868 e foi vendido quando ainda era criança. Anos depois ele consegue fugir e é encontrado nas docas por um palhaço que o coloca nas suas apresentações. Em seguida, Padilha passa a ser conhecido como Chocolat, tornando-se o primeiro artista circense negro na França, um grande sucesso no final do século XIX.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Olivier Gorce e Roschdy Zem
Título Original: Chocolat
Gênero: Biografia, Drama
Duração: 2h 0min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 21 de julho de 2016 (Brasil)

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