CIDADE DE DEUS (Crítica)

CIDADE DE DEUS

5estrelas

FICHA TÉCNICA

Título Original: Cidade de deus
Ano do lançamento: 2002
Produção: Brasil
Gênero: Ação, Drama
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Braulio Mantovani

Sinopse: Buscapé (Alexandre Rodrigues) é um jovem pobre, negro e muito sensível, que cresce em um universo de muita violência. Buscapé vive na Cidade de Deus, favela carioca conhecida por ser um dos locais mais violentos da cidade. Amedrontado com a possibilidade de se tornar um bandido, Buscapé acaba sendo salvo de seu destino por causa de seu talento como fotógrafo, o qual permite que siga carreira na profissão. É através de seu olhar atrás da câmera que Buscapé analisa o dia-a-dia da favela onde vive, onde a violência aparenta ser infinita.

Por Guilherme Ramos

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Minha incumbência desta vez é novamente de grande responsabilidade, falar de um outro clássico, um que eu chamaria de clássico recente do cinema. Do cinema mundial. E falar de clássico é delicado, não? A fita é “Cidade de Deus” e confesso que até hoje não tinha assistido. Não tinha assistido este filme gigante, famoso mundialmente, que muita gente falou e ainda fala, o filme que catapultou a carreira do diretor Fernando Meirelles para o exterior, que acordou todo mundo lá fora e avisou que o cinema brasileiro estava voltando, que de certa forma também deu um belo empurrão na carreira do Seu Jorge, tanto como músico, quanto como ator, foi o primeiro grande filme da Deusa Alice Braga, e já que falamos de carreira, também foi responsável por fazer nascer novos atores brasileiros, tirados do anonimato, num processo aleatório de seleção e que deu muito certo. Explico melhor: a equipe do filme agrupou alguns mestres, além de Meirelles, pessoas que já estavam ligadas ao cinema e ao trabalho com comunidades carentes. Daí fizeram uma mega seleção em comunidades carentes no Rio de Janeiro durante um ano, de uns dois mil garotos de todas as idades, anônimos (pois a intenção do diretor era dar característica total ao personagem e não colocar um ator conhecido interpretando uma personagem, maior que a própria personagem), 200 foram escalados, aqueles mais à vontade, criativos, interessados (segundo o próprio diretor) e divididos em 8 grupos, em turnos de manhã, tarde e noite, fazendo um curso de 5 meses, um trabalho intensivo com um preparador que faz parte desta equipe de mestres que Meirelles levantou, porque fez um ótimo trabalho com os garotos e soube liderar uma equipe e integrá-los. Soube tirar deles realidade e improviso, da maneira mais séria, e transformou crianças e adolescentes em atores, pois outro ponto positivo do preparador foi não distinguir as idades nos grupos, não tem criança de 8 anos e moleque de 21, eram todos iguais para fins do trabalho que ele fez. E isto ficou visível no filme, trouxe verossimilhança à cada cena. Este preparador foi o primeiro, preparou a base de atuação e improviso para os selecionados. Depois dele, ficou encarregada da equipe uma preparadora, que com preceitos de psicologia e uma abordagem muito mais intensa e intrusiva, transportou crianças, de 6 anos até, para um universo pesado que é o do filme. Estas informações estão no DVD extra que vem na edição dupla do filme, quem tiver interesse, há um documentário de 90 minutos lá, chamado “Oficina de Atores”. Isto é para deixar concretizado uma coisa: houve um trabalho empenhado e sério na pré-produção deste filme. Nas filmagens, todo mundo já era ator ali, e os atores mais famosos que fizeram parte do filme, como Mateus Nastchergale, nem ousaram brilhar mais que os novatos. O resultado não poderia ser outro. Foi um filme interessado, o diretor procurou fazer um épico.

Quanto ao cinema brasileiro, não foi o primeiro nem o último a abordar este tema, porém foi o mais famoso. E para quem não gosta de palavrões em filme ou sempre gostou de condenar os temas do cinema brasileiro como negativos, este foi o filme que serviu como alvo, foi o álibi perfeito, foi aquele que lançou o estereótipo. É uma besteira toda, né. Convenhamos que qualquer um com um pouco de massa encefálica sabe que nem mesmo aquela coisa toda pasteurizada de Hollywood foi sempre daquele jeito, e os filmes japoneses e alguns europeus têm carga de violência muito maior que um Cidade de Deus. Na minha opinião, é um belo flerte com a realidade e admirável falta de hipocrisia um filme que, sem tabu e sem medo coloca uma cena com duas crianças na ponta de uma arma, a câmera obriga o espectador a ficar tenso e ter dó do menorzinho que chora como um bebê, mostra explicitamente tiro com sangue no pézinho da criança, e o ‘gran finale’ fecha com outra criança dando tiro numa das duas que estavam acuadas. A nua e crua deturpação de uma criança, você quase vê Zé Pequeno tirando com as mãos, pisando e escarrando na infância daquele garotinho que impiedosamente ele obrigou a matar um outro, que ele transformou num ser degenerado. Descrevo esta cena como exemplo, e porque foi a cena que mais me captou no filme. É de uma frieza e de uma realidade, mas que ao mesmo tempo você sai de frente da tela do cinema ou da TV sabendo que aquilo é um filme. Aos hipócritas: é mentirinha, não é de verdade, seu filho não vai fazer igual! Não sei explicar, só sentindo mesmo, assistir ao filme. E cinema é isso, sentir, não só ver. Uma característica bem cinematográfica também foi dividir a história em anos 60, 70 e 80, para mostrar o crescimento do crime na comunidade, e de uma forma geral, nas comunidades, conhecidas como as famosas favelas. As favelas mesmo são fruto de um processo social complexo de marginalização, descaso do governo e migração em busca de esperança que encontra miséria. O filme, neste ponto, é um retrato social verossímil, sem muitos exageros (exceto a fotografia das cenas de ação, claro, ou um e outro meandro de enredo, afinal são coisas que dão o sabor cinematográfico, o exagero necessário), e exporta uma característica brasileira, sem estereotipar (como fizeram outros inúmeros filmes, exemplo daquela recente animação, “Rio”). Aliás, as cenas dos anos 60 ficaram ótimas, os tons de cor que usaram nas cenas, o figurino. Tudo me lembrou um outro filme brasileiro, dessa época mesmo, de um dos mestres do nosso cinema, o diretor Manuel Pereira dos Santos, do filme “?”, que vale a conferida (fica a dica). É mais ou menos como se o Cidade de Deus tivesse sido confeccionado naquela época, e mais ou menos como se o Meirelles tivesse misturado o estilo deste diretor, de retratar realidade cotidiana brasileira da favela, do submundo, com o estilo de uma superprodução de ação.

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A fotografia e as atuações surpreendentes de alta qualidade. O principal, o trunfo do filme está aí. Me chamaram a atenção os movimentos de câmera também, apropriados ao tipo de filme, mais tarde veríamos Padilha também utilizar em “Tropa de Elite”, para citar um outro filme brasileiro que usa o mesmo estilo de câmera. Afinal bons filmes de ação, de qualquer parte do mundo, sabem aliar fotografia e câmera, e o que Meirelles fez aqui é o jeito correto. Jeito de quem quer levar a sério um trabalho que vai gerar um belíssimo entretenimento, mas que não fica limitado nisto. De quem quer criar uma peça a ser inserida na cultura pop, como foi o emblemático “dadinho”, como foram com algumas frases de efeito do filme, e algumas cenas congeladas no tempo. Até mesmo eu, que nunca tinha visto o filme, já falei “dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno” mais de uma vez por aí… De resto, o que mais poderia falar de um filme tão consagrado, e que pior: eu gostei. Nem posso tecer críticas muito ferozes, né. Desleal isso! E mais, não é uma peça cinematográfica única, nem fácil de ser pensada, passa por dois filtros antes: 1) foi baseado numa história real, 2) foi baseado num livro baseado na história real. Pode-se dizer que o filme foi baseado no livro baseado na história real, e ainda assim o diretor conseguiu com muita competência imprimir seu estilo e ter sua liberdade para transpor isto para o cinema. É igual comida, coisa de mão, talvez se não fosse Fernando Meirelles e sua equipe de monstros colocando a mão nesta receita, não ficasse tão bom assim o prato.

Curiosidade COM SPOILERS: o bando de molequinhos que no final do filme mata Zé Pequeno, ao melhor estilo Ewoks contra o Império, seria uma referência alegórica à próxima grande onda criminosa que iria assolar os morros do Rio de Janeiro, conhecida inicialmente como Falange Vermelha, grupo de criminosos comuns que faziam aqueles roubos irresponsáveis à população e que ainda integraria às suas ações todo tipo de crime, tráfico, jogo ilegal etc., e que mais tarde, nos anos 80, se conceberia como o Comando Vermelho, depois de uma mistura de presos comuns da Falange com presos políticos, na famosa prisão de Ilha Grande, da época da ditadura militar.

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PRÊMIOS

OSCAR
Indicações: Melhor direção – Fernando Meirelles, Melhor roteiro adaptado, Melhor fotografia, Melhor edição

GLOBO DE OURO
Indicação: Melhor filme Estrangeiro

BAFTA
Ganhou: Melhor filme em língua estrangeira

Indicação: Melhor edição

GRANDE PRÊMIO CINEMA BRASIL
Ganhou: Melhor filme, Melhor diretor – Fernando Meirelles, Melhor roteiro adaptado, Melhor fotografia, Melhor montagem e Melhor som

Indicações: Melhor ator – Leandro Firmino, Melhor ator coadjuvante – Jonathan Haagensen, Melhor ator coadjuvante – Douglas Silva, Melhor atriz – Roberta Rodrigues, Melhor atriz coadjuvante – Alice Braga, Melhor atriz coadjuvante – Graziela Moretto, Melhor direção de arte, Melhor figurino, Melhor maquiagem e Melhor trilha sonora

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