CIDADE DOS SONHOS (Crítica)

CIDADE DOS SONHOS

5estrelas

FICHA TÉCNICA

Título Original: Mulholland Dr.
Ano do lançamento: 2002
Produção: EUA , França
Gênero: Drama, Suspense
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch
Classificação etária: 16 Anos

Sinopse: Um acidente automobilístico na estrada Mulholland Drive, em Los Angeles, dá início a uma complexa trama que envolve diversos personagens. Rita (Laura Harring) escapa da colisão, mas perde a memória e sai do local rastejando para se esconder em um edifício residencial que é administrado por Coco (Ann Miller). É nesse mesmo prédio que vai morar Betty (Naomi Watts), uma aspirante a atriz recém-chegada à cidade que conhece Rita e tenta ajudar a nova amiga a descobrir sua identidade. Em outra parte da cidade o cineasta Adam Kesher (Justin Theroux), após ser espancado pelo amante da esposa, é roubado pelos sinistros irmãos Castigliane.

Por Assis Junior

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Após o sucesso estrondoso de Twin Peaks, série indicada a 18 Emmy Awards (vencendo melhor figurino e melhor edição) e 4 Golden Globes (vencendo melhor ator (Kyle MacLachlan), melhor atriz coadjuvante (Piper Laurie) e melhor série dramática), David Lynch havia concebido um plot para uma nova série de TV.

Uma jovem morena, chamada Rita, abandona o local de um acidente com U$125.000 e uma chave azul na bolsa. Posteriormente uma mulher chamada Betty tenta ajuda-la a descobrir sua identidade, já que no acidente a jovem perde a memória.

E assim o diretor apresentou a história para os executivos da ABC que ao indagarem o que aconteceria depois, receberam a seguinte resposta: “Você terá de comprar a ideia para descobrir”.

Após entrevistas separadas de meia hora cada, as atrizes Naomi Watts e Laura Harring foram escolhidas para protagonizar a produção. As filmagens do piloto de noventa minutos produzido pela Touchstone Television começaram em Los Angeles no ano de 1999, e duraram em torno de seis semanas. No final das contas, os executivos não ficaram satisfeitos com o piloto apresentando. Alguns dos motivos de tal insatisfação incluía a forma não linear em que a história fora criada; a idade das atrizes principais, consideradas velhas demais; o caráter fumante da personagem de Ann Miller; e um certo close-up em fezes de cachorro. A ABC solicitou mudanças na edição final do piloto, o que não agradou o diretor, pois segundo ele a história perdeu conteúdo. Mais tarde Lynch declarou: “Tudo o que sei é, eu amei fazer, a ABC detestou, e eu não gostei do resultado final”. Posteriormente Lynch resolveu transformar a história em um longa, e então ele tomou a forma que conhecemos, sendo adicionado mais conteúdo à história e aos personagens, além de perder o final inconclusivo que como piloto de série daria abertura para a continuação de novos episódios. O diretor declarou: “Uma noite me sentei, as ideias vieram, e foi a mais bela experiência. Tudo era visto de um ângulo diferente […] Agora, olhando para trás, eu vejo que era pra ser dessa forma. Foi preciso esse estranho começo para que se tornasse o que é”.

Cidade dos Sonhos (Mulholland Dr.), é considerado um thriller psicológico neo-noir surrealista, e é uma das obras mais importantes e emblemáticas do diretor. Rendeu a ele a indicação de melhor diretor ao Academy Awards; quatro indicações ao Golden Globes, incluindo melhor filme dramático, melhor diretor, melhor roteiro e melhor trilha sonora (composta por Angelo Badalamenti); além de ser o vencedor do prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes.

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Lynch se recusou a dar interpretações pessoais do que ele pretendia transmitir com sua história, deixando que a audiência, críticos e até mesmo o elenco especulassem seu significado, o que torna a obra ainda mais instigante. Ele deu ao filme o slogan “Uma história de amor na cidade dos sonhos”, o que somente ajuda a criar mais suposições. Há aí um paralelo entre o ato físico de sonhar, que parece impregnar todo o filme, onde realidade e delírio se misturam; e o sonho metafórico relacionado aos desejos humanos, nesse caso referente ao estrelato em Hollywood.

Cidade dos Sonhos merece tanto louvor pela forma como brinca com o seu espectador. Emana um ar de mistério e tensão ao longo de toda sua projeção, e para além dela. Apesar de conclusivo de forma que a história possua um desfecho, o teor psicodélico e surrealista dos eventos não nos permite ratificar uma verdade fundamental sobre o que assistimos. O filme solicita quase que um culto pós-projeção para que possamos absorver tantas informações e tantas imagens poéticas e simbolistas. Talvez seja necessário até mesmo um pouco de pesquisa para que possamos clarear nossa mente, portanto não se preocupe se você estiver perdido ao término da projeção, pois tenho certeza que até o mais sagaz dos espectadores precisaram de um momento para processar tanta informação e juntar as peças do quebra-cabeça.

Mulholland Dr. é bastante comparado ao clássico de Billy Wilder Sunset Boulevard (1950), que conta a história de uma atriz decadente que após ser descartada das produções hollywoodianas por sua idade avançada, começa a perder a noção da realidade e ter delírios sobre seu grande retorno às telas. É irônico ao traçar esse paralelo que um dos motivos da recusa da ABC para o piloto da série tenha sido exatamente a idade de Watts e Harring. Lynch parece tecer uma crítica à indústria hollywoodiana que muitas vezes drena suas estrelas, que para chegarem ao topo precisam passar por muitas provações na “cidade das ilusões letais”. Naomi Watts inclusive declarou se identificar com a história, pois também sofrera para chegar ao estrelato, passando por muitas decepções antes de conseguir papéis promissores.

Lynch parece querer nos transportar para um sonho delirante onde cada um terá sua interpretação de acordo com sua experiência. Sua diversão é observar tantas teorias para uma história que segundo ele, é coerente e compreensível. Acontece que para além dessa linha da história que é coerente e compreensível, ele adiciona inúmeras camadas de símbolos além de um labirinto de acontecimentos. Você pode assistir ao filme pela primeira vez e pensar que é puramente uma crítica à Hollywood. Ao assistir pela segunda vez, você pode se aproximar mais do caráter existencial que o filme projeta ao indagar questões de identidade. E assim se segue a experiência fílmica de Mulholland Dr., onde o podemos assistir inúmeras vezes e sempre ter uma nova percepção sobre a história, seus personagens, detalhes, etc.

Se o mestre dessa obra-prima se recusa a estabelecer uma verdade absoluta para sua história, quem sou eu para tal? É exatamente por prezar a filosofia de que a realidade é relativa que Lynch mantém sua obra eternamente envolta em mistério. Se foi um sonho ou se foi real, você é quem vai dizer.

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PRÊMIOS

OSCAR
Indicação: Melhor Direção

GLOBO DE OURO
Indicações: Melhor Filme de Drama, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora

BAFTA
Ganhou: Melhor Edição

FESTIVAL DE CANNES
Ganhou: Melhor Direção

Indicação: Palma de Ouro

GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO
Indicação: Melhor Filme Estrangeiro

CÉSAR AWARDS
Ganhou: Melhor Filme

TRAILER

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