CINDERELA (Crítica)

CINDERELA

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Por Pedro Vieira

DISNEY VOLTA AO CONVENCIONAL E ACERTA COM A NOVA VERSÃO DA HISTÓRIA DA GATA BORRALHEIRA

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É notável que a Disney atual procura reinventar os conceitos clássicos que ela por anos pregou com seus filmes. Princesas já não são mais indefesas e a concepção de amor tem mudado em produções como “Frozen – Uma Aventura Congelante” e “Malévola”. Em alguns casos a empresa se sai bem (como na história de Anna e Elsa) e em outros, falha. Em sua nova versão de “Cinderela” (Cinderella), a Disney volta ao modelo tradicional visto na animação de 1950 e acerta, fazendo com que o filme se destaque como umas das melhores produções live-action do sub-gênero “conto de fadas” dos últimos anos.

Não há mudanças drásticas no enredo: Ella (Lily James) é a jovem amorosa que perdeu a mãe e o pai, atura as maldades de sua madrasta e suas meia-irmãs, mas que mais tarde vai encontrar o príncipe encantado e se apaixonar. O que é adicionado é um maior desenvolvimento dramático da protagonista e dos coadjuvantes. Ella sofre pela perda da família e demonstra descontentamento com as ações da madrasta – apenas não mostra grande atitude em buscar seu próprio final feliz por vergonha, o que é um pouco irritante. O príncipe “Kit” (Richard Madden) tem seu romance com a protagonista desenvolvido de forma mais realista (para um conto de fadas, claro) e a relação com seu pai, o rei, é estreitada para que ele possua uma sub-trama própria. Até mesmo Lady Tremaine (a madrasta má interpretada por Cate Blanchett), mesmo se mantendo uma personagem unilateral, possui suas próprias “justificativas” para o seu rancor e ciúme.

Sem as reviravoltas que outros contos sofreram, o roteiro de Chris Weitz se contenta com o básico e não muda a posição altamente gentil de Cinderela. Os ideais feministas que a Disney vem passando em suas produções recentes aqui pouco aparecem, se resumindo a uma frase que Ella diz à ratinha Jacqueline (“Nós mulheres devemos nos proteger”).

A escolha mais sábia que o filme possui é manter-se fiel ao público para o qual ele se destina. Enquanto fantasias como a “Alice” de Tim Burton ou a “Malévola” de Stromberg ficavam tentando se equilibrar em uma corda bamba para agradar crianças e adultos, o diretor Kenneth Branagh abraça o universo infantil em sua “Cinderela”. Ele constrói seu longa com cor, personagens divertidos e muitas cenas cômicas, unificando o tom para satisfazer os mais novos. Acontece que essa ação de padronização do estilo acaba por também atrair uma atenção maior dos adultos e torna o filme menos cansativo e mais prazeroso.

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Os deslumbrantes figurinos de Sandy Powell são como uma mistura das modas da Era Vitoriana com as dos anos 50 e 60 do século XX, enfatizando o fato de que a história aqui mostrada é atemporal, e por isso recebe até hoje várias reinterpretações. Os cenários e as cores remente aos do desenho animado de 1950. Tanto a casa de Cinderela quanto o palácio do príncipe, se não fossem alguns detalhes a mais, seriam cópias perfeitas da vista na animação. As referências ao filme original também se encontram em diálogos e expressões dos personagens, o que traz certa nostalgia ao espectador já fã do clássico Disney.

A jovem Lily James está amável no papel da gata borralheira, mas não pode competir com a poderosa atuação de Cate Blanchett. Como vilã, a atriz demonstra autoridade quando está junto de Cinderela, mas também parece se divertir nas cenas mais cômicas, sem perder a segurança e a compostura em sua interpretação.

Principal personagem masculino, o príncipe encantado de Madden se esforça demais para manter a sua nomeação de “encantado” do começo ao fim, com sorrisos forçados e olhares amorosos a todo o momento, sem expor potência em sua atuação. Uma pena, pois poderia ser a chance do ator se destacar no cinema assim como fez na televisão, ainda que com um papel de coadjuvante. Já as irmãs Drisella e Anastacia, papéis respetivamente de Sophie McShera e Hollyday Grainger, estrelam algumas boas cenas engraçadas e demonstram química entra as duas e com Blanchett, com quem passam a maior parte do tempo. A fada madrinha de Helena Bonham Carter também retira algumas risadas do público, mas sua passagem pela história é rápida.

Mesmo apresentando uma boa qualidade, “Cinderela” não deixa de possuir seus erros. Há um excesso de narrações, assim como acontecia em “Malévola” (parece que a Disney se esforça em uniformizar suas fantasias live-action recentes com esse artifício desnecessário). O prólogo inicial é um pouco longo demais, e poderia ser facilmente encurtado sem perder seu peso para a história. A trilha sonora também não possui o charme do desenho animado, e a falta de uma composição mais cativante é sentida principalmente na cena do baile real.

Por tais motivos, fica a sensação de que “Cinderela” poderia ser melhor do que aquilo que é mostrado na tela, ainda que o resultado final não desagrade. Dessa forma, este ainda não é o exemplo definitivo de produção live-action de conto de fadas contemporânea, ficando a cargo de um filme futuro ajustar os erros e preservar os acertos. É algo que talvez a própria Disney possa fazer, uma vez que já tem confirmada a produção de um remake para o seu clássico “A Bela e a Fera” e poderá produzir outros filmes de gênero caso obtenha uma resposta positiva do público com sua atual “Cinderela”, algo que deve ocorrer com facilidade, ainda que um período de 65 anos separe o público contemporâneo daquele que se encantou pela primeira trama da princesa que perde o sapatinho.

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SINOPSE

Após a trágica e inesperada morte do seu pai, Ella (Lily James) fica à mercê da sua terrível madrasta, Lady Tremaine (Cate Blanchett), e suas filhas Anastasia e Drisella. A jovem ganha o apelido de Cinderela e é obrigada a trabalhar como empregada na sua própria casa, mas continua otimista com a vida. Passeando na floresta, ela se encanta por um corajoso estranho (Richard Madden), sem desconfiar que ele é o príncipe do castelo. Cinderela recebe um convite para o grande baile e acredita que pode voltar a encontrar sua alma gêmea, mas seus planos vão por água abaixo quando a madrasta má rasga seu vestido. Agora, será preciso uma fada madrinha (Helena Bonham Carter) para mudar o seu destino…

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Chris Weitz
Título Original: Cinderella
Gênero: Fantasia, Romance
Duração: 1h 45min
Ano de lançamento: 2015
Classificação etária: Livre

TRAILER

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