Colette (Crítica)

Magah Machado

Filme baseado na história real da escritora do séc. XIX tem sua estreia marcada para 13 de dezembro nos cinemas

Em fins do século XIX, a escritora Sidonie-Gabrielle Colette passou por tumultuados 20 anos que a definiriam como um ícone de transgressão de costumes. Aos 19 anos casou-se com o escritor Henry Gauthier-Villars, criaram a primeira personagem adolescente moderna de sucesso, Claudine; separou-se, descobriu seu amor pelas mulheres e tomou as rédeas de sua carreira literária em 1910. É este período da vida dessa personagem popular da literatura francesa que o diretor Wash Westmoreland (Para sempre Alice, 2014) mostra com narrativa linear e sem maiores atrativos. O que emerge do filme, sem dúvida, é o brilho próprio de Colette que Keira Knightley faz realçar.

Com figurinos e maquiagens elegantes, num tom discreto que preenche a narrativa sem disputar a atenção do telespectador, perde-se a fidelidade histórica. O contraste entre as cenas internas na residência do casal, sombrio e monótono, e o verdejante sítio onde vivia Colette é bastante óbvio e poderia ser enriquecido com algum arrojo de enquadramento. As pontuações sonoras são previsíveis e quase participam da trama. Nos resta, então, conhecer um pouco da biografia desta incrível mulher pelo roteiro simples de Richard Glatzer (Para sempre Alice).

Sob o pseudônimo de Willy, Henry Gauthier – Villars, vivido por Dominic West, mantinha em Paris em fins de 1890 um escritório de ghost writers ao qual incluiu, naturalmente, sua jovem esposa. Ao enfrentar um bloqueio criativo, recorreu às memórias de escola de Colette e descobriu-se o talento da moça nas suas vívidas lembranças da romântica e frugal Borgonha, interior da França. Nascia, assim, Claudine, uma adolescente inquieta, imersa em seus conflitos de descoberta da sexualidade com temperos de libertinagem acrescentados por Willy. Viraria febre entre jovens e adultos e seu enorme sucesso sustentou a série “Claudine” por várias edições.

Por outro lado, manteve Colette refém de Willy, que, por um contrato editorial, a impedia de assinar os manuscritos. Sua insatisfação já não podia ser disfarçada. Começaram os questionamentos.

Ao desfrutar de um furtivo romance com Georgie Raoul Duval, vivida por Eleanor Tomlinson, a autora começa a perceber que sua força e personalidade ímpar poderiam encantar muito mais mulheres que apenas sua dedicada mãe e a amiga de infância Luce.

Nesta tomada de consciência, Colette muda drasticamente o rumo de sua vida. Agora, suas paixões serão reais e assumidas. Separada de Willy, conquista um grande amor: Missy, a Marquesa de Belboeuf, sobrinha de Napoleão III. A atriz Denise Gough dá naturalidade e beleza à nova namorada da escritora, que usa terno e calças compridas, fuma charuto, discute política e artes ao acompanhar ternamente sua amada pelos salões da sociedade parisiense. “Não há uma palavra para descrevê-la”, é o comentário revelado pelo filme.

Quando aceita ser a estrela das criações de pantomina de um amigo ator, Wague (Dickie Beau), Colette reafirma sua luta por emancipação. Em 1907, protagoniza com Missy um controverso beijo no espetáculo Sonho do Egito, apresentado no Moulin Rouge. Desta experiência veremos uma mulher em uma transformação irreversível.

A Europa fervilhava de paixões e inovações científicas e tecnológicas avassaladoras, como a vanguarda artística, a luz elétrica e o cinema. Dava vazão, enfim, a uma demanda por progresso nos costumes e no cotidiano. A Bélle Époque fomentou a quebra de paradigmas que seria executada por Colette.

Uma personagem que ultrapassa, e muito, o filme de Westmoreland. Entre suas conquistas está a cadeira de primeira presidente mulher da destacada Academia Gouncourt por sua obra, popular tanto entre donas de casa e garotas simples do comércio parisiense quanto entre intelectuais. Sua escrita era franca sobre as agruras do amor. Vulgar, para os críticos.

Interessante, mas não exatamente inspirador, Colette dá o mesmo peso para todos os eventos da vida da escritora, distanciando-se do que poderia enfatizar: o quão moderno foi, para seu tempo, uma mulher transitar no espectro de gênero e na fluidez da sexualidade e, além disso, tornar estes conceitos acessíveis ao público em geral por meio de sua literatura. Uma oportunidade que se abre para novas leituras, mais profundas e significativas.

Pôster de divulgação: Colette

Pôster de divulgação: Colette

SINOPSE

Colette (Keira Knightley) é uma romancista francesa que sofre com o seu casamento abusivo e com o seu parceiro que tenta ganhar créditos em cima de suas obras de maneira ilegal. Para superá-lo, ela emerge como uma grande escritora no seu país e, consequentemente, como uma candidata para o Prêmio Nobel em Literatura.

DIREÇÃO

Wash Westmoreland Wash Westmoreland

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Wash Westmoreland, Richard Glatzer
Título Original: Colette
Gênero: Drama
Duração: 1h 51min
Classificação etária: 14 anos
Lançamento: 13 de dezembro de 2018 (Brasil)

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