COM OS PUNHOS CERRADOS (Crítica)

Juca Claudino

Caminhando e cantando e seguindo a canção.

Diz-se muito da crise das utopias, que teria começado dos anos 80 e perdura até o dado momento de hoje. A utopia que venceria a exploração trabalhista, o imperialismo, o roubo da política institucional pelos pequenos grupos sociais e de certa forma tirada das mãos da população, muito mais imensa em número, contudo minoritário dentro de sua influência econômica e financeira. A real democracia, não esta dominada pelos mercados ou pelas aristocracias quando não se faz esclarecidamente ditaduras, de fato igualitária, de fato libertária, de fato cunhada sobre o bem-estar de toda a sociedade – e a qual a fraternidade e a figura do indivíduo enquanto cidadão sobressaísse a competição entre todos, reduzidos à mercadoria pelo vigente sistema que enxerga apenas mãos-de-obra e consumidores. Esta estava aspirada por uma utopia que levou muitos à guerrilha na Angola e Moçambique, ao confronto com a polícia de De Gaulle e Salazar nas ruas da França e Portugal e juntou centenas na colina do Capitólio – nos Estados Unidos – contra a invasão yankee no Vietnã.

Não é consenso dizer que a geração dos anos 80-90, ao ver um mundo no qual as forças neoliberais se tornavam hegemônicas após os anos de turbulência política, como se esses só tivessem reforçado o mais antiquado conservadorismo, em meio a uma força uníssona da potência estadunidense consagrando como a ordem irretocável as políticas contestadas pelos milhares que juntaram-se ao sonho embalado por Hendrix e Dylan, foi a juventude que deu um golpe fatal às “utopias”. Golpe dado pela descrença em mudar um mundo tão problemático ou simplesmente reagir acriticamente a este.

Contudo, a ideia da crise das utopias demarca a “vitória definitiva” da lógica da competição frente a sociedade (que já era uma vitória larga mesmo nos anos 60), o “senso comum” que neutraliza e naturaliza a lógica do mercado – ou a torna uma supremacia. E o seguir das “rotinas diárias e antecipadamente resignadas diante da impossibilidade de mudá-las” parece um sustentáculo poderoso para que a busca infindável por capital, o consumismo, os meios de comunicação de massa (privados) e etc continuem ditando os estilos de vida e as mentalidades.

Digo isso pois “Com os Punhos Cerrados”, que narra as obras de três jovens anarquistas fugidos e escondidos em uma casa de Fortaleza – CE, é um tanto nostálgico dada não só as músicas que lembram a “era do rádio”, como “Les Anachistes” de Léo Ferré, e nem só pelas representações clássicas de transmissão via gravador e planos bolados em um mapa impresso em papel – que dão um toque certamente vintage à obra. Digo isso sobretudo pois aqueles indivíduos incorporam os ânimos da contracultura ao mesmo tempo que somam a estes o espírito revolucionário mitológico dos anos de Guevara e Marighella. O imaginário que “Com os Punhos Cerrados” ronda é certamente os dos anos de auge da Guerra Fria, também marcado por movimentos sociais ativos e uma utopia revolucionária que não parecia distante como aos olhos de agora.

Dirigido por Ricardo Pretti, Luiz Pretti e Pedro Diógenes – que também vivem os três protagonistas – o filme inclusive tem seus traços caricatos. É inegável que se constrói a partir de alegorias, de metáforas para lá de excêntricas e até mesmo didáticas. Mas que, quando assim assumidas pelo roteiro, geram um expressivo sensacionalismo que congrega uma originalidade pomposa (para lá de pomposa). A cena na qual o rádio de um motorista é atingido pela estação pirata dos anarquistas e este, o motorista – taxista, no caso -, começa a resmungar e bravejar pela interrupção da música que ouvia é uma forma de caricaturar a postura acrítica com a qual se conforma e se naturaliza as relações sociais contemporâneas. A “alienação” à dinâmica política, a resignação às relações sociais vigentes pois a resistência à opressão é enxergada como algo distante, expressas de forma didática, alegórica, mas que representado com sua pompa, excentricidade e quase surrealismo, torna-se original.

Particularmente, com essa cena e mais outra que supostamente não poderia dizer aqui pois se dá para o fim do filme – mas já que marca presença logo no trailer… -, na qual uma grande rádio, simbolizando a grande mídia, oferece um preço pela cabeça dos anarquistas – após bravejar discriminatoriamente que estes são um risco a todos – e a população, alvoroçada pelo dinheiro prometido e controladas pelo medo produzido pela rádio, os persegue, me remeteu a um texto escrito pela filósofa gaúcha Márcia Tiburi o qual assim diz: “a forma mais perversa de analfabetismo político” é a daquele que “foi manipulado desde cedo e não teve chance de pensar de modo autocrítico porque sua formação foi, no sentido político, ‘de-formação’, a interrupção da capacidade de pensar, de refletir e de discernir”.

É engraçado como nesse momento do filme os indivíduos são manipulados pela banalização do mal a partir dos meios de comunicação – manipula-se o medo e o ódio social em torno do anarquismo, no maio mccarthismo possível – e literalmente comprados pelo dinheiro oferecido. É preocupante quando os reais oferecidos se sobressaem à visão política, pois marca a figura do consumidor prioritária à figura do cidadão. O isolamento dos anarquistas, com toda a sua nostalgia, mostrados como indivíduos totalmente deslocados da sociedade – estranhos no ninho – mostra que, hoje, a utopia e até mesmo a política são desinteresses nesta comunidade guiada pelo “senso comum” vigente. Eis a “crise das utopias”, que tão bem perpetua os laços desiguais e exploratórios de nossos tempos pela desinformação e conformismo.

Outro grande trunfo de “Com os Punhos Cerrados” é certamente a sua linguagem. Justamente ela que entoa a excentricidade e a pompa do longa. Usa de músicas cantadas e encenações ultra teatrais para dar fantasia e algum lirismo. Por vezes, ele até mesmo sai do campo político e vira meramente uma brincadeira estética, mas muito bonita. É, por vezes também, irônico, como quando um rapaz prestes a ser morto de repente aparece cantando uma dessas canções ultra melodramáticas, quase que um Frank Sinatra, à beira de um rio-esgoto, falando sobre a melancolia – obviamente brincando com o medo de ser assassinado, contudo subvertendo, ironicamente, a brutalidade e crueza da ação e optando por mostrá-la a partir da polidez e “sofisticação”. O que o filme pretende também é, sem dúvida, brincar com a linguagem do cinema inspirados em Glauber Rocha – o que está até mesmo dentro do imaginário da contracultura. O faz, talvez não com a genialidade do mestre, porém de forma instigante.

É fato que os diálogos hiper artificiais, e a falta de profundidade e empatia com a qual os personagens ficam marcados, dão ao filme uma perda de interesse. Por vezes aparenta não ir tão fundo no debate político pois quer pensar na subjetividade dos protagonistas, mas ao mesmo tempo trabalhar o filme em torno de alegorias caricatas. Isso o aprisiona no meio de campo quando poderia ir direto ao ataque, sendo mais profundo e até mesmo mais rico na forma como aborda a liberdade e a utopia – ele tem um material muito rico, mas sente-se que poderia ser mais explorado pelo roteiro, abrindo mais vias de debate. A fotografia, tão bela em algumas cenas – como quando a imponente e maravilhosa personagem de Samya De Lavor dança sob uma música serena e envolvente, podendo estar ali esbanjando a liberdade sexual, a liberdade sobre os estereótipos patriarcais da mulher… -, poderia ser mais pungente e menos óbvia em algumas outras (a maioria talvez), o que daria maior eloquência e intensidade a “Com os Punhos Cerrados”. O filme que construir algo trágico que, muitas vezes, não se liberta da informalidade de suas caricaturas. Em outros momentos, contudo, o faz muito bem!

COM OS PUNHOS CERRADOS

Pôster de divulgação: COM OS PUNHOS CERRADOS

SINOPSE

Eugenio, Joaquim e João são três jovens que, através de uma rádio clandestina, lutam pela liberdade e planejam a revolução, invadindo as transmissões das rádios de Fortaleza e atacando a base constitutiva da sociedade burguesa e capitalista. Quando começam a incomodar os poderosos, suas vidas passam a correr risco, ao mesmo tempo em que surge uma bela e misteriosa ouvinte que deseja se unir a eles e pode transformar os seus destinos.

DIREÇÃO

Ricardo Pretti, Pedro Diógenes, Luiz Pretti

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Ricardo Pretti, Pedro Diógenes, Luiz Pretti
Título Original: Com os punhos cerrados
Gênero: Drama
Duração: 1h 14min
Classificação etária: 16 anos
Lançamento: 16 de março de 2017 (Brasil)

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