Crô em Família (Crítica)

Emílio Faustino

Ele esta de volta! Embora tenha se esforçado para se desvincular da novela “Fina Estampa” e do primeiro filme, “Crô em Família” acaba tropeçando nos mesmos erros: roteiro fraco, excesso de merchandising e personagens rasos e mal desenvolvidos.

Para se ter uma ideia da expectativa das pessoas, quando informei em meu instagram que eu vi o filme, o primeiro questionamento que tive de alguém foi: “Por favor, me diz que esse filme não fica estereotipando a gay alívio cômico exacerbado capacho da patroa hetero”.

O que nos leva a trama do filme: Já famoso e dono da própria escola de etiqueta e finesse, Crô (Marcelo Serrado) se vê, no entanto, sozinho e sem família. Carente e vulnerável o ex-mordomo é surpreendido com a aparição de supostos parentes que na verdade estão interessados na fortuna. Isso não chega a ser um spoiler, pois pra facilitar para o expectador eles deixam isso evidente desde a primeira cena. Ou seja, eles apenas terceirizaram a função capacho de madame, para capacho da própria família.

O que mais me chocou, no entanto, não foi o filme em si e sim o despreparo das pessoas que por meses se debruçaram em um projeto que tem um protagonista gay e pouco souberam falar sobre o assunto.

Primeiro minuto da coletiva de imprensa que rolou em São Paulo e a produtora do filme Walkria Barbosa solta a pérola: “É importante que as pessoas possam seguir com a OPÇÃO sexual que desejam”. Vamos lá… Se fosse apenas uma questão de opção, posso garantir que num cenário onde se mata 1 LGBT por dia certamente as pessoas não escolheriam isso. As pessoas não escolhem ser gays, elas simplesmente são. Então para a próxima fica a dica: não se fala opção sexual e sim orientação sexual.

Ainda na coletiva alguém da equipe fala: “Convenhamos, os gays tem bom gosto pra roupa, eles sabem se vestir e sabem tudo sobre artes”, essa tentativa de elogio, na verdade revela a visão rasa e limitada dos envolvidos que enxergam na classe retratada um trampolim para fazer dinheiro.

O despreparo continua com a diretora Cininha de Paula que indagada sobre a esteriotipação do protagonista e das críticas do próprio meio gay, afirmou desconhecer as queixas e revelou que não acha o personagem estereotipado. Ela inclusive fala que o fato de o personagem ser gay é um detalhe e que isso nem é o foco do filme.

Crô em Família (Crítica)

É claro que ser gay não é o foco, até porque o personagem nem vida amorosa tem. E se tivesse certamente isso seria um empecilho para os pais levarem os filhos ao cinema. Ou seja, eles retiraram a principal definição de um gay que é gostar de alguém do mesmo sexo e limitaram a aquilo que os héteros acham que os gays são: pintosas, frescos, exagerados, dramáticos, fashionistas e que ao invés de filhos tem cachorros de estimação para levar na bolsa.

Outro erro rude do filme é quando personagens que acabaram de entrar na vida de Crô o tratam no feminino. Se você não é gay,saiba que forçar esse tipo de intimidade pode soar ofensivo.

Veja bem, não é que não existem gays pintosas ou que isso seja algum tipo de demérito, esses tipos existem e são legítimos, o fato é que somos muito mais do que esse estereótipos datado. A verdade é que a comunidade gay já esta cansada de ser usada para fazer os héteros rirem. Nem todo gay é pintosa, nem todo gay gosta de arte, nem todo gay é delicado. Já estamos em outro patamar e queremos romper novas barreiras, este tipo de representação não agrega em nada.

Ainda no quesito estereotipação temos no filme o pobre que não tem modos, briga de mulheres e até mesmo a participação especial da cantora Jojo Toddynho que se resume a uma cena onde ela aparece comendo como uma ogra, o que com certeza não será bem recebido pelos gordinhos que também estão casados de serem retratados desta forma.

A trama em si não faz o menor sentido: primeiro porque o personagem aceita a nova família que aparece depois dele ficar milionário de forma muito fácil e não pede o exame de DNA, o que extrapola qualquer limite da ingenuidade. Segundo porque a falsa mãe passa o filme tentando matar o Crô para herdar o dinheiro. O que na prática nunca daria certo, uma vez que com a morte dele, os exames de DNA teriam que ser feitos e a fraude seria constatada.

Outra coisa curiosa: quando questionado sobre o “Pinkmoney” (prática onde héteros usam a comunidade LGBT para fazer dinheiro e se promover) o ator Marcelo Cerrado que dá vida ao Crô afirmou desconhecer o termo e não ser capaz de opinar. Pelo visto a pesquisa do ator se limitou as gírias da comunidade, afinal, quem se importa em ouvir ou se informar sobre as críticas de um público que a pessoa explora em cena há mais de 7 anos, não é mesmo?

“Crô em Família” soa como uma piada velha e sem graça como aquela do pavê que ouvimos todo final de ano. Mesmo renovando o repertório de giras da comunidade LGBT o filme esta nitidamente fora do time.

A continuação só não é pior que o primeiro, porque eles ao menos tentaram, ainda que nos últimos minutos do filme passar a mensagem de que família é aquela que a gente escolhe e não a que nascemos.

E por falar de escolhas aqui vai uma sugestão: escolham qualquer outro filme para ver no cinema que não seja “Crô em Família”, somente uma criança será capaz de estabelecer algum tipo de conexão mental com esse filme que subestima a capacidade de interpretação dos expectador e da uma verdadeira aula de como as pessoas podem perpetuar uma visão tão superficial sobre uma classe sem nem ao menos se dispor a ouvir ou entender a mesma.

Ou pior: fazem a sonsa e fingem que não sabem ou entendem as críticas.

Pôster de divulgação: Crô em Família

Pôster de divulgação: Crô em Família

SINOPSE

Crodoalvo Valério, ou simplesmente Crô (Marcelo Serrado), é agora dono de uma badalada escola de etiqueta e finesse. Entretanto, apesar de toda a fama ele se sente bastante carente e vulnerável, por não ter amigos nem uma nova musa a quem dedicar a vida. É quando sua vida cruza com as de Orlando (Tonico Pereira) e Marinalva (Arlete Salles), que dizem ser seus parentes distantes. Paralelamente, Crô precisa escapar da sempre venenosa colunista Carlota Valdez (Monique Alfradique).

DIREÇÃO

Cininha de Paula Cininha de Paula

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Aguinaldo Silva
Título Original: Crô em Família
Gênero: Comédia
Duração: 1h 45min
Classificação etária: 10 Anos
Lançamento: 6 de setembro de 2018 (Brasil)

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