DE ONDE EU TE VEJO (Crítica)

Juca Claudino

A vida passa por uma janela

Foi um tanto difícil para mim escrever a crítica desse novo filme de Luiz Villaça. Fato é que material não me faltou, e fiquei pensando durante dias nesse longa (e por vários motivos, os quais tentarei deixar submissos nesse texto). Mas algo que me chamou a atenção foi o fato de durante os primeiros 5 minutos de “De Onde Eu Te Vejo” eu ter deduzido que este seria um grande simulacro da vida perfeita, dentro de uma ótica da classe média branca paulistana: uma idealização otimista, romântica e perfeccionista das contradições emocionais cotidianas, talvez em uma tentativa de fazer um “feel good movie” desses que reproduzem o discurso do “sonho enlatado”- além de uma homenagem ufanista à São Paulo, ignorante ao ódio de classe vigente na cidade mais populosa (e desigual) do país, mas acho que aqui rolou uma espécie de distorção por intromissão de valores pessoais meus na interpretação da obra. Bom, se assim pensava, a película já na sua metade havia desconstruído essa minha pessimista hipótese quase que por completo.

É um filme sim otimista, sim romântico, mas ele não é nada como um simulacro, nada como um fingidor de uma “realidade perfeita”: ele é realista, torna-se uma grande crônica da vida, que retrata as imperfeições e as imprevisibilidades (positivas e negativas) desta a partir de uma leitura na qual consegue tirar beleza disso, tirar poesia disso. É uma tentativa de nos convencer que essa nossa vida, cheia de seus altos e baixos, de suas tragédias e glórias, é muito mais interessante de ser vivida do que uma na qual conseguimos controlar nossos destinos (como muitas vezes nós desejamos, quando olhamos pros céus e falamos “ah, como a vida seria mais fácil se…”) – ou, nas palavras do diretor, “é muito menos óbvia”, e assim sendo muito menos chata.

“A vida é mais forte que a gente”. É uma frase conformista, sim. Mas é um conformismo saudável. É um conformismo que nos mostra o quão belo pode ser viver sem ter controle sobre a nossa existência, sobre as nossas relações. E de todos os reflexivos bordões que o roteiro do filme nos apresenta (como “se em cada prédio morar mais ou menos 50 pessoas, você já imaginou quantas histórias cabem nessa cidade” ou “as melhores comédias são as comédias tristes”), este é o que mais me chama a atenção, talvez porque reflita tanto o que o filme nos mostra sobre Ana e Fábio. Esse casal foi o principal fator que me fez mudar de ideia (sobre minha hipótese inicial e o que realmente entendi, como disse no 1o parágrafo) enquanto via o filme: Villaça consegue colocar neles uma realidade em seus sentimentos, em suas ações e em seus desejos tão humana que não tem como não se reconhecer dentro desses dois personagens. É aos poucos que o roteiro vai nos revelando a profundidade emocional de ambos, a construindo a partir do que transparece em cada pequeno ato ou fala (interpretados maravilhosamente por Denise Fraga e Domingos Montagner): enxergamos uma explosiva Ana, sempre tentando se reinventar a cada situação de desarmonia em sua vida, ao mesmo tempo em que enxergamos um melancólico Fábio, um alguém que se prende às pessoas e aos objetos que mais lhe trazem segurança nos momentos conturbados (e que, pode-se perceber, tem certa resistência a se modernizar). São dois personagens que provocam tamanha identificação no público e, mais do que isso, as situações que enfrentam fazem com que nos identifiquemos com esses dois ainda mais, já que são situações aonde têm de enfrentar as peripécias do destino, as peripécias de uma vida que é mais forte que eles. A partir daí, a cidade de São Paulo entra com duas motivações marcantes: a primeira é a de gerar um intimismo maior para a história do casal, uma vez que a selva de pedras paulistana foi testemunha de todos os momentos mais marcantes na sua vida amorosa; e a 2a (que dialoga diretamente com a primeira) é a de refletir o espírito dos personagens, quase que como uma metáfora. Um exemplo do que quero dizer com a segunda motivação é uma cena na qual Ana, em um momento onde sente uma grande dúvida sobre o que fazer de sua vida (além de sentir-se destruída por dentro graças ao caos familiar e profissional que passa), encontra o cine Marabá – um cinema do centro de São Paulo aonde, segundo a história, ela costumava a ir muito quando era jovem e acabou se apaixonando pelo local – abandonado e em estado depreciativo.

Assim, é quase que impossível não nos encantar com uma história que consegue retratar o cotidiano de forma tão empática, tão profunda e tão sensível. Mas sobretudo, conseguindo tirar um sentimentalismo com medida certa daquilo tudo. É como tirar poesia do banal: para quem mora em São Paulo ou a conhece estritamente, por exemplo, olhar aqueles cenários e cenas (como a rodoviária ou a Pinacoteca, ou então as cenas no trânsito) tão constantes do dia-a-dia – e que por serem constantes do dia-a-dia olhamos com certa neutralidade e frieza para eles – ganharem no filme um significado de beleza… é como se durante toda a nossa vida tivéssemos vividos momentos de poesia e fomos ignorantes demais para perceber isso. Nunca ouvi tantas pessoas falando que se reconheceram nos personagens e nas situações de um filme como nesse, e isso pode ser justificado por uma frase dita por Luiz Villaça durante a pré-estreia de “De Onde Eu Te Vejo”: “a coisa mais legal que a gente pode falar é sobre a gente mesmo”. Ou seja, o longa é uma grande crônica das situações cotidianas, sobre a vida passando e a gente como personagem principal dela, porém, claro, tendo que atuar cada cena no total improviso. Isso que ocorre com a dupla protagonista, o que eles tem de enfrentar, poderia ocorrer com qualquer um da plateia – se é que muito daquilo já não ocorreu com a plateia.

A vida é mais forte que a gente. E a gente é feito de carne e osso. Às vezes choramos, às vezes rimos, porém sempre de forma inesperada, tendo de lidar com o que acaba caindo em nossas mãos. Isso, para o filme de Villaça, é ótimo. É o que dá vontade de viver, é o que dá a graça de viver. Ana e Fábio descobrem isso aos poucos, quando depois de 20 anos juntos sentem que não se conhecem mais. Terão de redescobrir os cenários de São Paulo que testemunharam os momentos mais importantes da vida dos dois: o cine Marabá, a cantina italiana onde se encontravam para sair, a rodoviária do Tietê onde se conheceram (ele vindo de Ribeirão Preto, ela do Rio). Terão de redescobrir o que sentem um pelo outro, e o que sentem de prazeroso. E assim vão Fábio e Ana, testemunhados pelos prédios de São Paulo. Personagens que poderiam ser qualquer um de nós.

DE ONDE EU TE VEJO

SINOPSE

Ana Lúcia (Denise Fraga) e Fábio (Domingos Montagner) decidem se separar após vinte anos de casamento e ele se muda para um apartamento do outro lado da rua. Além da separação, eles passam por uma crise no trabalho e precisam enfrentar a iminente mudança de cidade da filha. Com todas essas mudanças, eles precisam aprender a viver essa nova realidade e reinventar o amor.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Luiz Villaça” espaco=”br”]Luiz Villaca[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Leonardo Moreira, Luiz Villaça e Rafael Gomes
Título Original: De Onde Eu Te Vejo
Gênero: Comédia, Romance
Duração: 1h 30min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 10 Anos
Lançamento: 7 de abril de 2016 (Brasil)

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