DEPOIS DA TEMPESTADE (Crítica)

Juca Claudino

Uma poética crônica sobre a modernidade e sobre a felicidade

Seu segundo filme lançado esse ano no Brasil, “Depois da Tempestade”, agrada e, certamente, reafirma a autoria do cineasta Hirokazu Koreeda. Após o estonteante “Nossa Irmã Mais Nova”, o diretor japonês que muitos dizem ser um discípulo do mestre Yasujiro Ozu mostra seu olhar otimista e poético sobre o cotidiano, vasculhando a beleza em meio a essa contemporaneidade disforme, impessoal, entediante e – sobretudo em meio a crises econômicas – agressivo. Seu olhar cronista nos revela as dinâmicas sociais que moldam a cultura japonesa entre a tradição nipônica, o conservadorismo – muitas vezes antiquado – e a modernidade da globalização, dos meios digitais, da americanização da identidade social. O fundamento sócio-cultural de sua obra, somada ao retrato do cotidiano urbano da classe média japonesa, ainda ganha a convicção humanista no sentido de retratar com realismo e empatia as expressões e comoções dos seus personagens – e, justamente por isso, comparam sua obra à de Ozu, que por sua vez dirigiu longas como “Era Uma Vez em Tóquio”, “Pai e Filha” e “A Rotina Tem Seu Encanto” (aliás, poucas frases podem sintetizar as obras de Ozu e Koreeda como “a rotina tem seu encanto”).

Logo no começo do filme, o protagonista Shinoda Ryota (interpretado por Hiroshi Abe, o qual já havia trabalhado com Koreeda em seu filme de 2008 “Andando”) conversa com a mãe, já idosa, e esta lhe conta um recente causo que julgou “bonito”: a velhinha seguia um passarinho no jardim de seu prédio e, cansado da companhia da senhora, a ave se vai. O filho questiona a sanidade da mãe e esta retruca, sabiamente (pelo menos é isso que o diretor quer que pensemos), questionando o espírito e a boa-fé do filho. Não é necessário dizer que conflitos familiares estão em cena novamente aqui nessa nova obra de Hirokazu – a família, em suas diferentes formas, é tão essencial para sua filmografia assim como a liberdade de expressão é para a democracia ou o amor é para a vida (social e individual) de qualquer sujeito -, e existe certa metáfora escondida por detrás da figura da mãe idosa e do filho de meia idade: a primeira, até pela simbologia da velhice, é sinônimo de experiência e sabedoria, enquanto o segundo é um sujeito frustrado, confuso e vítima dos desconcertos do mundo. E, enquanto a idosa encara tudo com bom humor, poesia e carregando a máxima do “carpe diem”, o segundo mais parece ter a visão camoniana de um mundo onde só há confusão, injustiça e pessimismo – até mesmo o abandono amoroso é parte do universo de Shinoda. Mas a fórmula da felicidade é decifrada com bastante ternura pelo roteiro: o desapego às vilezas materiais, às vãs cobiças por status ou dinheiro e aos norteamentos do consumismo como promessa de felicidade; colocando-se no lugar o bom saborear do presente, o não ressentimento com frustrações às expectativas que se cria e, sobretudo, o maior contato humano (com relações mais intensas e verídicas) germinam a beleza da vida.

O alerta de Koreeda aos nossos tempos é, logo, de crítica a essa liquidez das relações humanas. É rigidamente realista na reflexão da pobreza poética pela qual nós parecemos mergulhados: o protagonista Shinoda, recém divorciado e com frágil relação com o filho de cerca de 10 anos, está preso ao tédio e sufocado por um sistema econômico que, ao endividá-lo cada vez mais, garante lucro aos poderosos do sistema financeiro. Tenta canalizar toda sua frustração na saudade nostálgica que tem do pai, falecido há poucos meses, e nas apostas em loterias ou jóqueis, crente de que se conseguisse faturar mais dinheiro, faturaria mais felicidade. Embora seja escritor, por se ver sem inspiração para uma próxima obra de arte (talvez pelo fato de ter perdido qualquer poesia do mundo) tem de trabalhar como detetive particular em uma firma de investigação: tal profissão não deixa de ser uma sátira à futilidade que cerca a cultura recente de bisbilhotarmos vidas alheias, invejando-as ou humilhando-as, mas sempre baseando nosso bem-estar na forma com o redor nos olha, caracterizando uma sociedade de aparências e de egocentrismos (o que não deixa de ser, obviamente, algo também vil).

Mas “Depois da Tempestade” é de um olhar otimista sobre o cotidiano tão quanto é crítico. A questão é que ele não é crítico ao cotidiano, mas sim a nós que nos prendemos a uma visão superficial de mundo explicitada no parágrafo anterior – e que tem como fruto o tédio e o egoísmo. E vale ressaltar que não é um otimismo hollywoodiano, superficial, fabuloso e, de certa forma, alienante ou ignorantemente idealista. É otimista pois simplesmente quer provar que “a rotina tem seu encanto”. Curiosamente, Hirokazu Koreeda se diz grande admirador do cineasta britânico Ken Loach. De visão política esquerdista e anticapitalista, Loach certamente afirmaria que grande parte das críticas apresentadas por Koreeda em seu filme são frutos de uma sociedade de consumo, na qual a lógica do mercado supera a lógica da cidadania ou do humanismo. Não deixa de ser um olhar complementar ao de Koreeda (e bem coerente), embora este não siga por uma crítica direta ao modo de vida capitalismo, mas sim a alguns de seus elementos pontuais (como o consumismo, por exemplo).

A habilidade que tem o diretor japonês em nos envolver é notável. Como uma melodia suave, seu filme esbanja meiguice sem perder o tom realista. O otimismo não está só no conteúdo do filme, mas em sua forma também.E tal fato é algo notório, pois o faz sem apelar a uma linguagem padronizada e massificada hollywoodiana, sem ter de explorar recursos excitadamente melodramáticos para nos cativar emocionalmente. Inclusive, regressa um pouco ao seu modo de filmar do começo dos 2000, como visto em filmes como “Depois da Vida” e “Tão Distante”: perde um pouco do tom meloso visto, por exemplo, em seu filme de 2013 “Pais e Filhos” e o substitui por uma fotografia mais documental (com uma câmera mais parada e planos um tanto mais longos) e estética mais contida. Fator, inclusive, que reforça a veracidade do relato, e entoa a representação do cotidiano. Porém, não perde o sentimentalismo, garantido pelo fator emocional que é gerado pela humanidade das personagens, pelas expressões humanas verídicas que exprimem cada um dos protagonistas do filme. Uma comoção essa que acarreta a uma catarse única e a um reconhecimento da nossa realidade expressa na tela. É um filme, sim, que merece reconhecimento.

“Depois da Tempestade” é de muita beleza, a qual expressa com singeleza, doçura e simplicidade. E que, com tal beleza, comove e sensibiliza pelo sua ternura e, sobretudo, pela sua representação humana e compreensiva das angústias da contemporaneidade – tornando-se um filme que dialoga diretamente com nossa percepção de mundo, sugerindo-nos poesia ao invés da predominante frieza insensível. As ligações entre pai e filho, tão quanto entre Shinoda Ryota e sua ex-esposa, reedificam a noção de família muito mais como laços de amor do que como uma instituição social meramente construída para ser imposta. E isso abre espaço, como é de costume de Koreeda, para debates entre as mudanças culturais no Japão, as dinâmicas entre gerações, as reformulações dos costumes. Existe uma cena, todavia, com certa carga sexual na qual Ryota é invasivo à privacidade de sua ex-esposa, o que é incômodo uma vez que vivemos em um mundo no qual a cultura do estupro e o machismo são veias ainda abertas – além de ser contraditório ao que o filme quer representar, sendo um obstáculo a sua comunicação. Pode ter sido uma cena não tão perturbadora e pode uma cena não ser interferente na impressão geral do filme, mas não se podia simplesmente ignorar tal fato.

DEPOIS DA TEMPESTADE

SINOPSE

O Japão está prestes a receber o 23º tufão do ano. A matriarca Yoshiko, uma mulher idosa que mora sozinha, recebe a visita de dois filhos que não costumam ir à sua casa: Ryota, um escritor fracassado que ainda sofre com o divórcio e se arrisca fazendo bicos de detetive, e a filha mais velha, que tenta passar por exemplo da família, mas também tem seus problemas. Juntos, eles aguardam a chegada do tufão e relembram a morte recente do pai e marido.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Hirokazu Koreeda” espaco=”br”]Hirokazu Koreeda[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Hirokazu Koreeda
Título Original: Umi yori mo Mada Fukaku
Gênero: Drama
Duração: 1h 58min
Classificação etária: 10 Anos
Lançamento: 17 de novembro de 2016 (Brasil)

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